Praça Duque de Saldanha — Lisboa 2014

#5

Fernanda


Saldanha.

18:48.

Paragem do 736.

O vento gelado tinha como adversário um cachecol de lã, enrolado à volta do pescoço de Fernanda, e um casaco comprido com todos os botões abotoados. As mãos estavam protegidas pelas luvas quentes e seguravam a pasta do trabalho, a mala de senhora e o saco do continente com os ingredientes para o jantar.

A única coisa que não tinha qualquer hipótese de vitória numa luta mano-a-mano contra aquele sopro glaciar eram os seus longos cabelos pretos, que embora resguardados pela paragem não paravam quietos.

Fernanda partilhava a paragem com uma senhora que dava ares de Dona Eugénia, não que as D. Eugénias tenham um ar diferente de todas as outras Donas que por aí andam, mas era um nome que lhe assentava bem.

A dita D. Eugénia deveria de ter mais ou menos a idade da senhora sua mãe e também ela estava bem protegida contra o frio.

Fernanda olhou para o relógio que tinha no pulso, prenda do Natal passado, de um amor que ainda hoje estava bem presente, eram agora 18:52. Deu dois pequenos passos em frente e olhou para o quadro informativo da paragem.

4 minutos para o 736 em direcção aos Cais do Sodré, e dois para o 744 enquanto o 783 estava ainda a 8 minutos de distância.

Ficou assim a saber que este novo round contra o frio, ia demorar uns longos quatro minutos. Para queimar um pouco de tempo, visto que estava impossibilitada de queimar outra coisa qualquer para se aquecer, pegou no seu smartphone e fez um pequeno scroll pelo seu instagram. Desistiu assim que viu três fotos seguidas de @_anafe_ e outras duas amigas suas que tinham ido passar férias a um destino tropical.

BITCHES! — Não disse. Mas pensou.

Sem dar oportunidade à próxima fotografia do feed fechou a aplicação, ironia do destino no exacto momento em que as portas do 744 se abriam à sua frente.

A D. Eugénia levantou-se do banco da paragem e puxou um daqueles carrinhos que todas as senhoras que vão às compras ao Pingo-Doce têm.

- A menina vai entrar? — perguntou-lhe com uma voz meiga que fez Fernanda duvidar se Eugénia era afinal um bom nome para aquela senhora.

- Não. Não. Estou à espera de outro autocarro. Obrigado. — respondeu Fernanda com simpatia.

- Ah muito bem. Então entro eu, que está muito frio para se estar na rua. Tenha uma boa noite menina.- Despediu-se D. Eugénia.

- Uma boa noite para si também. — desejou Fernanda à sua nova amiga, enquanto esta fazia um esforço para pôr o carrinho dentro do autocarro.

As portas já do 727 já estavam fechadas quando o nome Margarida surgiu na cabeça de Fernanda. Sim Margarida era sem dúvida um nome mais apropriado para a sua nova amiga. Dona Margarida.

Eugénia, Margarida, ou outro qualquer nome que fosse, a verdade é que a dita Dona já estava dentro de um autocarro a caminho de casa e era Fernanda que se encontra sozinha na paragem. Se o seu autocarro demorasse muito mais tempo iria acabar por congelar e seria encontrada dentro de um daqueles blocos de gelo em que os australopithecus são descobertos nos filmes.

Para não ter de voltar a ver as fotos das suas amigas suas em locais onde as temperaturas mínimas são de 30º à sombra, começou a fazer uma lista mental das coisas que tinha de fazer para o jantar assim que chegasse a casa.

Passo 1. Ligar o iPod na coluna e pôr a playlist “Chef Michelin” a tocar.

Passo 2. Ligar o Forno.

Passo 3. Vestir qualquer coisa quente e confortável, (sem esquecer aquelas meias felpudas na parte de dentro).

Pensar nelas foi o suficiente para que se sentisse um pouco mais quente.

Passo 4. Descascar batatas que levava no saco e cortá-las às rodelas.

Sem mais passos e ainda parada no mesmo sítio viu o 736 parar à sua frente, embora Fernanda não tivesse feito sinal para ele parar.

Do autocarro tinham acabado de sair: uma senhora de mãos dadas a dois gêmeos, com mochilas tão iguais quanto eles; um senhor com uma barriga maior que uma grávida de 9 meses e literalmente, um casal de pombinhos.

Fernanda entrou no autocarro.

- Boa Tarde menina. — disse de forma calorosa e um pouco atrevida o motorista de farda azul.

Era a segunda vez que lhe chamavam menina apesar de Fernanda já ter 30 anos, mas nem por isso ouviu as palavras que acabavam de lhe ser dirigidas, estava concentrada em encontrar a porcaria do passe, que parecia esconder-se sempre num bolso diferente da sua mala.

Tinha acabado por entrar no autocarro onde continuava a procura do passe, mas o facto de não ter tirado as luvas não ajudava nesta sua demanda que parecia complicar-se agora com o autocarro já em andamento.

- Boa tarde? — Voltou a insistir o motorista agora num tom mais sério e com alguma preocupação à mistura.

Fernanda que começava a mostrar sinais de irritação, não para com o motorista, mas para com a porra do passe que não havia meio de aparecer, disse de forma bem seca — Boa noite.

- Já vi que o dia não correu bem. — tentou o motorista para amenizar as hostes.

- Até nem estava a correr mal, até ter estado um eternidade à espera do autocarro e de agora não encontrar o passe. — descarregou assim a raiva acumulada nos últimos segundos.

- Deixa estar isso, também não tarda estás a sair do autocarro. - facilitou-lhe o motorista.

- Obrigado. — disse já bem mais calma.

Apesar de não ter encontrado o passe e embora houvesse lugares vazios, Fernanda continuou ali, na entrada do autocarro. Havia algo que a prendia.

O motorista agradecia, era sempre bom admirar um belo exemplar feminino mesmo que fosse pelo canto do olho.

As mãos fortes do motorista que seguravam com firmeza o grande volante do 736, transmitiam toda uma segurança e davam-lhe a calma que ela precisava neste momento.

Os lábios de Fernanda pintados de um vermelho forte, faziam-no querer parar o autocarro no meio da cidade e não voltar a conduzir até ter batido o record do guinness de beijos na boca.

Uma nova música começava agora a ser apresentada na rádio “…para todos aqueles que querem levar o seu amor a dar o nó…”, o motorista não deixou passar a oportunidade e levantou um pouco mais o volume do rádio para que se pudesse ouvir “Take Me To Church” de Hozier.

- Gostas desta música? — Perguntou sem tirar os olhos da estrada.

Fernanda olhou para ele, desta vez com olhos de ver, os braços fortes e musculados eram tão ou mais apetecíveis que as mãos. Os olhos caramelo deixavam-na com água na boca, e era uma pena ter o cabelo ser tão curto que não dava para puxar.

- Se não gostas posso mudar de estação? — insistiu o motorista.

- Desculpa. Gosto sim. Mas estás a querer dizer alguma coisa através da música. — Perguntou Fernanda enquanto o refrão tocava.

- Talvez. — não se queria comprometer, pelo menos não no que diz respeito às suas intenções.

- Não sei se o meu namorado ia gostar de saber isso. — Disse Fernanda, num tom provocador.

- Isso não é problema meu. Se fosse eu o teu namorado ia buscar-te todos os dias de limousine, em vez de teres de apanhar o autocarro.- galanteava o motorista no tom mais cavalheiro que conseguia

- Talvez devesses ser tu o meu namorado então. — continuou Fernanda com a provocação.

- Podemos tratar disso. — O motorista não tinha qualquer intenção de deixar arrefecer aquele jogo.

Era impossível negar a tensão sexual que tinha entrado e seguia viagem naquele autocarro. O 736 já tinha parado em mais oito paragem sem que nada nem ninguém tivesse interrompido aquela evidente e mutua vontade.

Ele tinha os olhos na estrada mas Fernanda ocupava todo o campo de visão do seu pensamento. O caminho, esse, sabia-o de cor e por isso o autocarro seguia em piloto automático.

A paragem de Corpo Santo estava agora perto.

- Eu saio aqui. — informou Fernanda, com algum pesar na voz.

O motorista ficou tenso, não estava pronto para a perder já. Queria levar esta viagem até ao fim.

O autocarro libertou o ar dos travões e parou finalmente.

Os outros passageiros começaram a sair até ficarem apenas os dois, Fernanda e o motorista, dentro do autocarro.

Fernanda despediu-se. — Adeus. — enquanto se encaminhava para a saída do autocarro.

- Espera. Vem comigo até ao fim. É só mais uma paragem. — implorou o motorista sabendo que era a sua última oportunidade para não ficar sozinho.

- Não posso. Tenho de ir para casa. Já estou atrasada. — desculpou-se Fernanda.

- Por favor não. Eu deixo-te lá. — em tom de desespero.

- Estás maluco? Tu estás a conduzir um autocarro, não estás a conduzir um taxi ou um Uber. Além disso, mais cem metros e estou em casa. — tentou Fernanda acabar o encontro.

- São mais cem metros que estamos juntos.- O motorista estava claramente desesperado. Não só queria mais, como queria mais agora.

- Deixa-te de coisas. Adeus! — Fernanda estava pronta para sair quando as portas se fecharam à sua frente. - O que é que estás a fazer? — Todo o calor e vontade que tinha antes na voz foi substituída por medo e terror.

- A levar-te a casa. — O tom do motorista era agora de uma enorme calma, como se tivesse conseguido resolver todos os seus problemas.

- Abre a porta. Vais arranjar problemas. — Fernanda tinha agora medo bem vincado na sua voz.

- Não vou nada. — Calmo, era como estava o motorista como se tudo o que estava a acontecer fosse normal.

O autocarro já estava em andamento e fora do percurso, tinha entrado pela rua de São Paulo, quando devia de ter ido directamente para o Cais do Sodré. Fernanda estava a ficar fora de si. Não conseguia fazer nada para além de gritar.

- Pára! Pára! Eu saio já aqui! A casa é aqui. PÁRA!! É aqui mesmo.- O pânico era total.

Assim que ouviu estas palavras, o motorista parou o autocarro e abriu as portas. O vento frio do qual tinha dado tudo para se livrar há não muito tempo atrás era o mesmo que agora a fazia sentir livre.

- Estás em casa. — dizia o motorista enquanto sorria ao volante.

Fernanda pôs finalmente os pés na calçada portuguesa. Estava livre e o vento frio voltou a deixá-la completamente despenteada.

- Tu estás louco. — Gritou para o motorista com raiva e medo na voz.

A porta fechou-se e ela já não ouviu a resposta dele.

- Por ti. - disse-lhe a sorrir.

Precisou de dois segundos para se acalmar, e só depois percebeu que estava realmente à frente da porta de sua casa. O número 128 da Rua de São Paulo.

O coração batia a uma velocidade estonteante, a adrenalina percorria o seu corpo. Fernanda apressou-se a entrar em casa, e a por em marcha a sua lista de tarefas para fazer o jantar.

Demorou algum tempo até conseguir voltar à normalidade.

Os seus batimentos cardiacos já estavam quase normais quando ouviu a chave entrar na fechadura e a porta a abrir-se. Foi até ao hall ainda de avental posto e com o pano da cozinha nas mãos.

À sua frente descalçava-se o charmoso motorista do 736.

O coração de Fernanda, voltou a bater tão depressa como quando ela saiu do autocarro. - Estava a ver que nunca mais chegavas. O jantar já está pronto. — Disse-lhe com um sorriso pecaminoso.

- Deixa arrefecer um pouco. A próxima paragem, é o quarto. — Disse-lhe o motorista sem perder tempo e com todo a vontade que tinha ganho durante a viagem de autocarro.

Fernanda correu para ele e beijo-o como o queria ter beijado no autocarro.

- És mesmo louco. — voltou a dizer-lhe.

- Por ti. — E desta vez ela ouviu.

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