A gente sabe ser livre?

Pedras na mochila
Nov 6 · 3 min read

A gente sabe realmente ser livre? Sei lá, nos dizem tantas coisas com o passar dos anos. Quando somos mais jovem, dizem que a liberdade é sair e voltar a hora que quiser. Quando ficamos adultos, dizem que liberdade é ter dinheiro na carteira, carimbos no passaporte e alguns contatos salvos no celular. Quando envelhecemos, dizem que ser livre é ter uma família, que nos chame para almoçar todo final de semana e que possa cuidar da gente quando for difícil se levantar do sofá e ir até ao banheiro sozinhos.

Ultimamente eu tenho tentado encontrar outros significados para essa tal liberdade. Em um domingo qualquer, acordei, tomei banho, comi alguma coisa, liguei para a minha mãe, coloquei o pijama de novo e voltei a dormir. Fazia um dia de sol forte, a piscina do condomínio estava lotada, os amigos estavam postando stories em churrascos, festas de aniversário, tomando uma cerveja no bar ao lado de uma companhia de anos ou que acabaram de conhecer. Eu estava deitada, abraçada com o meu gato e lembrando de uma cena de Harry Potter e a Pedra Filosofal, quando o Rony e o Harry são atacados pelo visgo do diabo (sabe, aquele tapete de plantas que protegia o esconderijo da pedra filosofal?), e daí a Hermione, grita: “— Vocês precisam relaxar! Se não só vão morrer mais rápido!” Foi então que pensei: todas as ideias que tenho de liberdade, na verdade, são gatilhos para as minhas armadilhas mentais.

Nas sessões de terapia, a Alessandra sempre me pergunta: “como foi o final de semana? O que você fez por você?” Eu nunca sei responder a verdade, então eu digo: “foi tudo bem, consegui descansar e só.” Ela engole seco, como se quisesse me dar um abraço ou um tapa, por não estar fazendo nada do que eu havia prometido nas consultas anteriores. Mas é difícil… É como quando a gente conhece uma música, mas não consegue lembrar o começo dela e aí fica difícil de cantar. Acho que sei o que é preciso fazer, mas não encontro o fio da meada.

Em uma das sessões, a Alessandra me falou alguma coisa assim:

- Por que é difícil recomeçar?

- Porque eu esqueci onde fica o início.

- Mas nem sempre vai ter uma placa que te dê essa informação. Você já esteve lá antes? Se é um recomeço, acredito que sim. Mas você passa a sensação de que é impossível ter ou ser algo que você já teve ou foi antes. — silêncio.

- … Mas se mesmo assim você não acreditar, saiba que qualquer lugar é ponto de partida, entendeu?

É, gente, no meio disso tudo eu aprendi algo importantíssimo: sempre ir com coletes à prova de balas para a terapia.

Mas afinal, por que falar sobre isso aqui? Ou tentar falar sobre isso em público? Pois bem, na minha situação, as crises de ansiedade me fazem pensar que não importa quantas voltas o mundo dê, a sensação de já ter estado aqui sempre volta. Novas histórias, velhas angústias, novos caminhos, o mesmo destino. Crescer, viver, sofrer e morrer, processos que se tornam automáticos e que automatizam as nossas necessidades, desejos e paixões, conforme o tempo passa. E, sem perceber, esses processos vão matando dia após dia, os motivos e emoções que nos trouxeram até aqui.

Se por acaso for muito difícil responder se sabemos realmente ser livres, pensar que se soltar nunca foi físico, pode ser um caminho. Se soltar é como um big-bang que ocorre na mente, rompe medos e inseguranças e se expande pelo resto do corpo e das coisas. Ser livre não é apenas sobre aproveitar um domingo de calor, festas e bar. Mas também se realizar em dias reclusos, acalmando a própria tempestade ao invés de sentir falta do sol e da luz de algo ou alguém.

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    quantas cabem na sua?