
era recife
aqui se anda sustentado no passo anterior.
recife parece viver no passado ou no presente de um segundo atrás. tem qualquer coisa de gente que sabe a hora certa olhando o relógio atrasado. que atrasa o relógio de propósito.
em recife, os pulmões se inundam de ar na expiração. as ruas se inundam de gente após os horários de pico. depois de algo, vem sempre o recife.
nesta cidade de anteontem, noite tem cara de querer ser dia e dia tem cara de querer ser noite. as mangueiras coqueiros jaqueiras pés de jambo fazem o que podem, lançando sombras marginais sobre quem olha pra cima procurando a lua de manhã, pintando um breu de última hora.
em recife se cantam os carnavais passados. se festeja o carnaval passado. os dias para a próxima quarta de cinzas são milimetricamente cronometrados. em recife, lembranças da despedida de momo são ansiosamente aguardadas e guardadas.
capital tropical das cabeças que andam para a frente lançando olhares periféricos para trás.
lamenta-se a riqueza que se foi mas que hoje não falta. a europa que já foi aqui e partiu mas que ainda liga uma margem à outra do rio. qualquer coisa que se foi sem nem ser notada, mas cuja ausência é gritante.
se recife pudesse voltar no tempo, não voltaria. aqui não se abre mão da saudade.
recifense vive pra sentir o que já não sente. existe na ausência.
isso é coisa de cidade de muitos rios. a água passa e leva tudo. quem se banhou, se foi.
recife é uma cidade que não se deixa, tampouco que se está. é um lugar só visto por quem passou por ele desatento e decidiu olhar pra trás.
era recife?
era.