O curso de um rio.

Você já viu um rio nascer? É mínimo. Não há fluxo de água, nada consistente que indique que aquele pequeno e úmido acúmulo de matéria líquida siga um curso que o defina, quilômetros adiante, como um rio caudaloso. Todo rio é, por essência, uma surpresa para quem o acompanha. De uma pequena poça, surge um desenho que se expande, descobre trajetos favoráveis até que, subitamente, ganha forma e força a tal ponto de ser aquilo que os olhos já reconhecem: é mesmo um rio. Veja: atravessa pedras, escorre por vales, esculpe margens verdes, salta por cachoeiras, molha os pés das lavadeiras que cantam suas lamúrias enquanto lavam as roupas da família.

Vim de um lugar extremamente machista. Os homens, provedores, cruzam os braços diante das mais simples funções humanas. Limpar a casa, arrumar suas próprias camas, cozinhar, lavar os pratos, colocar água nas plantas, fazer compras no supermercado. O que fica nas suas atribuições é sair de casa pela manhã, trabalhar para garantir o sustento da família, voltar à noite e, no dia seguinte, recomeçar a jornada. Esta narrativa acompanha muitas gerações no nordeste do Brasil e é possível identificá-la desde os períodos em que o país era uma colônia portuguesa (e sobrevivia economicamente da produção da cana-de-açúcar) até os dias atuais, onde o que move a economia é a indústria da construção civil. Eu fui educado nessa atmosfera. E essa paisagem se tornou comum aos meus olhos. Não havia questionamento porque, me parecia, isto era o natural. Era um aspecto cultural definido. Um símbolo.

O meu curso foi interrompido com a chegada de João, meu filho mais velho.

Havia ali uma nascente, bem diante dos meus olhos, e eu não poderia admitir que o seu trajeto fosse este mesmo que havia me guiado até então. Havia agora um outro homem dentro da minha casa, e com a sua chegada havia a possibilidade de pensar na perspectiva de mudar o curso das coisas — para ele, para mim. Eu, que jamais havia entendido o papel da minha mãe na minha vida, passei a enxergá-la por outro viés. Minha mãe, que praticamente me criou sozinha, desempenhava todas as funções possíveis. Trabalhava o tempo inteiro, mas também cuidava de mim o tempo inteiro, cozinhava, dava afeto, planejava as férias, curava minhas pequenas dores de infância e adolescência. Eu, que jamais havia entendido que uma parceira poderia ter um papel político e ético tão poderoso, encontrei Lua, minha esposa. E ouvia sua voz ecoar casa adentro, mundo afora, defendendo o espaço das mulheres, principalmente as mães. João, meu filho, não poderia ser o rio que fui.

Entendi a minha missão como pai porque meu filho me fez desaprender a ser homem. Através dos olhos de João, entendi que é impossível resolver as questões de gênero sem mudar a mentalidade dos nossos meninos. E quando entrego afeto, amor, carinho, quando faço meu filho entender a minha presença constante e intensa, a partilha das tarefas domésticas entre todos da família, quando ele percebe que o normal é o respeito às vozes das mulheres que nos cercam, o respeito aos corpos destas mesmas mulheres, sinto que ele passa a observar o mundo de um lugar novo. De onde não vim. De onde boa parte da minha geração não veio. Mas para onde precisamos ir, como João parece seguir.

João é um pequeno rio, em curso. E sinto que ele vai desaguar em outros mares, ao encontrar com mais e mais rios.