A luta de Schauble

Que os órgãos decisores da União Europeia estão nas mãos de uma matilha — encabeçada por Angela Merkel e Wolfgang Schauble — exímia em atacar de forma coordenada e fogaz as suas presas mais indefesas — Portugal, Grécia e mais uns tantos, escravos das suas dívidas — impondo-lhes experimentalismos políticos e facciosismos ideológicos, já toda a gente sabe. Que estas políticas de redução de subsídios e proteção social, de emagrecimento do estado, de introdução de benefícios fiscais favoráveis à prosperidade das grandes empresas exportadoras centro-europeias, ficaram muito aquém das expectativas e falharam redondamente em solucionar os problemas que se propunham resolver, também não é novidade.

Portugal já se habituou a tudo isto. Temos assistido vezes sem conta à postura completamente submissa dos líderes que nos têm governado perante a ditadura de Bruxelas, de uma forma quase Orwelliana, em que demonstrar uma opinião ligeiramente diferente das imposições que vêm de fora, constitui uma espécie de crimepensar.

Os portugueses estão habituados a esta ditadura e as suas prisões mentais são fortes e bem alicerçadas. A prova disso é que quando são confrontados com um discurso despido do fatalismo do “não há alternativa”, com um discurso de dialogo e de preocupações sociais, e até quando são confrontados com um governo que se propõe a cumprir promessas eleitorais, instala-se a estranheza, o descredito, fala-se em “retrocesso” e “reversão” como se houvesse uma obrigatoriedade em fazer-se tudo ao contrario do que foi antes prometido.

Contudo, não deixa de ser surpreendente que Schauble tenha vindo tão prontamente condenar o Orçamento de Centeno — numa atitude altamente irresponsável mas certamente ponderada — evocando os mercados financeiros, esses verdadeiros gigantes que devem ser mantidos adormecidos ou atordoados, para bem da estabilidade da economia europeia.

Mas para que o leitor não fique com dúvidas, façamos um exercício de tradução das palavras de Schauble: “Vamos continuar a encorajar firmemente os nossos colegas Portugueses a não se desviarem do caminho do sucesso”. Por “Vamos encorajar firmemente“ deve entender-se: vamos usar tudo aquilo que estiver ao nosso alcance para impor a nossa vontade e ideologia, usando o formato de negociação para esconder o que não passa de chantagem; ao “caminho do sucesso a que Schauble se referre, deve antes ler-se: travessia do deserto, que passa por empobrecimento, sobretaxas e cortes em salários e pensões; mas há mais: “Portugal deve estar ciente de que pode perturbar os mercados financeiros”, aqui lê-se que os alunos malcomportados são comidos pelos gigantes.

Destas declarações já traduzidas podemos deduzir que este não é certamente o orçamento austeritário e liberal que Bruxelas esperava. Não, é antes um orçamento virado à esquerda. E agora pergunto: é de estranhar que partidos de esquerda se proponham a aplicar políticas de esquerda? É de estranhar que partidos de esquerda apresentem orçamentos que demonstrem responsabilidade e preocupação social, preterindo os interesses do “grande capital” pelo aumento do rendimento da população? A Comissão Europeia acha que sim e di-lo de forma muito clara.

Independentemente do risco de execução do orçamento, que existe e existirá sempre num país como o nosso, com uma economia tão dependente de financiamento externo e vulnerável a oscilações conjunturais dos preços de matérias primas, foi este, o orçamento de Centeno, que foi aprovado pela comissão europeia.

Palavras destas proferidas no momento em que o foram, para além de descredibilizarem as próprias instituições e os seus mecanismos de funcionamento, denotam um azedume impossível de ignorar.

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