A barreira entre Super Smash Bros e jogos de luta tradicionais

Jogos de luta são um gênero peculiar: definitivamente não são os mais populares, mas ao mesmo tempo têm comunidades com um alto nível de fidelidade e carinho pelos seus títulos, sejam eles novos ou antigos. Apesar disso, existem rivalidades (por vezes saudáveis, mas nem sempre) entre essas comunidades e divisões acabam acontecendo. Sabendo disso, nenhum título dividiu tanto este público como Super Smash Bros fez. Por que isso acontece? Não somos todos da mesma tribo? Sim, são jogos com propostas semelhantes que envolvem lutar em um local determinado até vencer o oponente, mas existem diferenças. Já presenciei falas de desgosto direcionadas aos jogadores de Smash e pelo próprio jogo. Darei minha opinião e conclusão sobre o assunto, lembrando que gosto tanto de Smash quanto dos jogos de luta mais tradicionais e acho que deveríamos jogar todos!

O mundo de Super Smash Bros

A imagem acima resume bem a proposta de todos os títulos da franquia da Nintendo até hoje: reunir vários personagens da empresa (e cada vez mais convidados especiais de fora) e colocar pra descer a porrada nos outros. Desde o primeiro Smash Bros no Nintendo 64, o número de personagens foi aumentando e os games foram ganhando mais modos e elementos que aumentaram o fator replay. Smash tem uma jogabilidade peculiar, e chegou a ser pai para outros que seguiram o estilo. Não existe barra de vida, mas sim uma porcentagem que aumenta conforme causamos dano no oponente e que também o joga cada vez mais longe para fora da arena. Para derrotá-lo, ele deve cair para fora e não conseguir voltar ou simplesmente ser lançado tão longe que ele irá estourar em uma das extremidades da tela. A movimentação é bastante livre nos games da série, especialmente no ar, sendo possível até mesmo mudar a direção durante um pulo. Os ataques mudam baseados na direção que o jogador deixa o analógico. Existem combos, mas estes dependem de fatores como “o oponente deve estar em tal porcentagem para funcionar do contrário ele pode escapar” e a execução nem sempre é tão dependente de frames como por exemplo em Street Fighter IV.

Super Smash Bros Melee

Agora, vamos focar na comunidade que nasceu e se fortaleceu, especialmente na época do Melee, o título da franquia para Gamecube. Se trata de uma comunidade extremamente fiel que ainda joga e organiza torneios pelo mundo todo e que ainda vê Melee na EVO, o maior torneio de jogos de luta do mundo, lembrando que o game saiu em 2001. Curiosamente, a galera do Melee nem sempre se dá tão bem com as comunidades dos Smash posteriores (Brawl, 3DS e Wii U). Encaram muitas vezes como crianças e se agarram ao orgulho de jogarem um game extremamente técnico e difícil de dominar (o que de fato é verdade) e isso cria barreiras dentro da própria comunidade geral da franquia. É normal vermos jogadores de Smash atuais se aventurando mais em Street Fighter do que em Melee. Contudo, no contexto geral, é mais comum jogadores de Smash em um todo participarem de comunidades de outros jogos do que o contrário. Eu sou um exemplo disso. Atualmente estou jogando menos Smash e mais Street Fighter (especialmente o 3rd Strike) mas sei que isso vai mudar no lançamento do novo Smash Bros Ultimate. Podemos entender então, que jogadores de Smash aparentam ter uma mente mais aberta, além de serem mais jovens em boa parte da comunidade. Agora, vejamos o outro lado da moeda, pois isso nem sempre acontece.

Não tem meia lua?

Arte de Capcom vs SNK 2

Aqui entram os grandes clássicos: Street Fighter, The King of Fighters, Tekken, Mortal Kombat, Marvels vs Capcom, Killer Instinct, Guilty Gear, entre muitos outros nomes. São jogos que se diferem em detalhes e mecânicas mas que têm a mesma proposta: esvaziar a barra de vida do oponente causando dano nele. Uns são mais travados ao chão, com pulos que vão para direções definidas e com projéteis. Outros te deixam correr, saltar alturas enormes e até mesmo dar dashes no ar. Mas em geral todos também possuem a mesma ideia para executar combos: uma vez acertado um ataque que possa ser cancelável (isto é, pode ser acompanhado de um outro ataque em seguida sem que o oponente defenda), um combo começa, baseado nos frames específicos para encaixar o próximo ataque. Alguns jogos são bondosos e outros são extremamente rigorosos com a execução, mas é uma peça chave para começar a dominar estes jogos. A quase total ausência destes fundamentos definitivamente confunde alguém que joga um Super Smash Bros pela primeira vez, ou até mesmo jogadores profissionais de longa data como no vídeo abaixo:

Outro fator que cria esta barreira é que muitos jogadores encaram Smash como um party game, ou seja, um jogo casual apenas para se divertir. O fato é que sim, ele também é. Inclusive sempre me pareceu ser antes de ser um jogo competitivo. Acredito que quem criou o cenário competitivo e moldou a franquia para este ambiente foram os próprios jogadores. O reconhecimento da Nintendo veio depois de um bom tempo, então muito se deve à comunidade. Mas como toda regra tem suas exceções, existem jogadores dos jogos de luta tradicionais mais lúcidos que não necessariamente jogam o game de forma competitiva, mas apreciam o que ele oferece e se divertem com ele, como o youtuber Maximillian Dood (recomendo muito para quem gosta da cena dos jogos de luta, deixarei o link no final do texto). Max ajuda muito a derrubar as barreiras, dizendo que ninguém é obrigado aceitar o jogo como um igual, mas ao menos apreciando o que ele tem para oferecer.

Mas e no fim?

Infelizmente, baseado no que vejo e leio, o preconceito sempre irá existir nesta cena. O que é uma pena, pois ambos os públicos praticamente convivem, mas parecem estar em mundos diferentes. Se você nunca jogou um Smash, pode se impressionar com a profundidade técnica por trás das cores vivas e personagens muitas vezes fofos. E caso você nunca tenha jogado um jogo de luta tradicional, já passou da hora de experimentar os clássicos e entender essa longa paixão que ainda viverá muito. O melhor a se fazer é abrir a mente, encarar como uma experiência totalmente nova para ambos os lados e se divertir primeiro antes de tudo. Afinal de contas, ainda estamos falando de video games, e os mundos já estão se cruzando!

Maximillian Dood: https://www.youtube.com/user/Miles923