O fator solidão para imersão em jogos

Pedro Miranda
Sep 3, 2018 · 6 min read

Existem muitas formas de fazer com que o jogador se sinta imerso no que está jogando. De fazer com que ele se importe com o que vê e sente, fazer com que ele questione suas ações e seus valores dentro do jogo. Poucos jogos são capazes disso com efetividade, mas os que conseguem se utilizam do mesmo sentimento: a solidão. Vale deixar claro; solidão não necessariamente significa estar desacompanhado. Muitas vezes é apenas a sensação de estar sozinho. São momentos em que muitas vezes nos encontramos refletindo sobre a vida e tudo que a envolve. Se usada em um jogo, ela é capaz de transmitir tais sensações ao jogador mas dentro do contexto local, fazendo com que tudo tenha um peso maior. Separei três dos meus jogos favoritos de todos os tempos para exemplificar o que foi dito, e cada um de uma forma diferente.

Shadow of the Colossus — PS4

Shadow of the Colossus (estamos sozinhos e praticamente não há outros seres vivos nesta terra)

Um clássico que a maioria jogou ou ao menos conhece. É sabido que o jogo é emocionalmente forte, mas como pode ser assim se tem pouquíssimos diálogos e personagens? Como ele consegue fazer muito com pouco? Simples: ele utiliza muito bem o que tem. E boa parte disso vem dos longos momentos de solidão que o game proporciona. Você é Wander, uma pessoa que fugiu de sua terra natal para um vale proibido em busca de poderes antigos para salvar alguém querido que aparentemente já morreu. Wander faz um pacto com um espírito de um antigo monstro aprisionado no local. Se ele conseguir derrotar os dezesseis colossos espalhados pelo vale, o demônio trará sua pessoa amada de volta. E esta é sua missão no jogo; encontrar os gigantes e derrotá-los. Porém, conforme o jogo progride, cada gigante (que representa uma parcela da alma do demônio citado) invade o corpo do protagonista ao ser derrotado, mudando a aparência de Wander para algo mais triste e endemoniado.

As longas cavalgadas (seu único companheiro frequente é sua égua) no extenso mapa, regadas somente ao som do vento e um ou outro animal ocasional, fazem com que o jogador pense. “O que estou fazendo é certo? Não é egoísmo da minha parte? Este demônio está preso por uma razão!”. Estas e outras dúvidas vão surgindo no decorrer do jogo, naturalmente. Não é preciso questionar o jogador. Tudo acaba servindo como carga emocional para no fim atingir um forte climax. Porém, acho seguro dizer que o comportamento humano no momento da solidão, por si só, já faz com que o jogo seja mais emocionante.

Dark Souls Remastered — PS4

Dark Souls (não estamos sozinhos, porém a sanidade está presente em poucos)

Quando joguei este jogo pela primeira vez, eu não estava pronto. Foi paixão imediata por muitos motivos, mas vamos focar somente em um desta vez. Neste jogo, você controla o Chosen Undead, o escolhido para descobrir o verdadeiro destino dos undeads. Na terra de Lordran, a vida era nutrida pela primeira chama, e por muitos motivos que ocorreram na história do jogo, ela está praticamente apagada. A maioria dos “homens” já se tornaram cascas vazias do que eram; agora são seres movidos por algo que não se pode nem chamar de instinto. Poucos estão com alguma sanidade sobrando, e se agarram a ela ou simplesmente aceitam seu destino inevitável. A verdade é que não há nada de especial no seu personagem e qualquer um em Lordran poderia ser o novo escolhido. De fato, muitos já fracassaram e agora são vazios.

Seu personagem chega em uma Lordran cheia de tristeza. Há coisas se movendo, mas há pouca vida. Sempre que seu personagem encontrar outro NPC, é possível dialogar com ele, muitas vezes comprar coisas e até mesmo fazer sidequests. Contudo, a opção de matá-los existe sempre, e muitas vezes é até uma opção viável. O jogo se desenrola em tons de cinza. O bem e o mal são indefinidos. Você pode até mesmo escolher não reacender a chama e deixar a escuridão tomar conta de tudo. As decisões e consequências são somente suas mas é jogando que se reflete sobre elas.
Grande parte do jogo conta somente com som ambiente muito bem trabalhado e um level design soberbo que ambos criam uma imersão fortíssima. Você se sente sozinho tomando suas decisões no meio de criaturas e seres vazios. Ás vezes se sente culpado, outras um herói. Mas é a sensação de solidão que torna tudo isso imersivo e de grande carga emocional novamente, pois por mais que outros estejam por aí, o único que parece são é você.

The Legend of Zelda: Majora’s Mask (N64)

The Legend of Zelda: Majora’s Mask (não estamos sozinhos, mas carregamos um fardo enorme e poucos sabem disso)

Considerado por muitos como o jogo mais sombrio de toda a franquia, em Majora’s Mask a pressão é existente o tempo todo. E tempo é algo em falta. Link sai em uma viagem pessoal em busca de um amigo (o que já torna tudo mais íntimo) e acaba tendo um encontro caótico com Skull Kid. Este joga uma maldição no garoto e foge com sua égua. Link o persegue e logo se encontra em Termina. Skull Kid fará com que a lua caia sobre o local dentro de três dias, mas somente você sabe o motivo: uma brincadeira de péssimo gosto. Link sai em uma jornada para parar a lua e derrotar Skull Kid, mas logo descobre que o inimigo é na verdade a máscara que o mesmo usa.

Todos os cidadãos de Termina percebem que claramente, a cada hora, a lua está caindo. Durante o último dia, nas últimas horas, uns fogem, outros aceitam a morte como acham melhor. Contudo, praticamente ninguém sabe o porquê daquilo acontecer. Somente você. E o peso está nas suas costas somente. Neste caso, o jogo não te faz refletir tanto sobre seus atos, visto que são todos vítimas, você incluso. Porém, fica claro o peso da solidão de ser o único que sabe a verdade e precisar resolver tudo mais rápido possível. Dentro destes três dias muito deve ser feito e várias viagens no tempo serão feitas para dar conta de tudo. Personagens irão morrer e viver novamente, mais de uma vez, somente aumentando a carga emocional, e consequentemente, a imersão. Você está com outras pessoas, elas são pessoas cientes e inteligentes, mas não compartilham e nem sabem do que você faz para salvá-los.

Existem outros exemplos de jogos que trabalham com este sentimento, mas acredito que estes sirvam como ótimo casos de estudo. Sozinho muitas vezes é a melhor forma de contemplar algo, seja um local, um som ou um pensamento. Se tratando de games, não é diferente e se usado de forma certa, acaba se tornando uma ferramenta de imersão. É claro que isso não tira o valor óbvio imersivo de algo como um Oculus Rift, mas eu prefiro apostar nas sutilezas.

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