o homem redundante é um altruísta

quem tem que conviver comigo já percebeu que eu tô meio que envelhecendo pra um caminho perigoso em questão de chatice, e sabe da incansável luta que travo contra o que chamo de sujeito redundante.

o foco da reflexão não é esse mas seria injusto citar o sujeito só de passagem sem falar dele. o sujeito redundante médio que eu visualizo é um homem, como costuma ser, sem muito a acrescentar à humanidade, ou mesmo aos mais próximos, e é talvez o que filósofos falharam em encontrar durante séculos, a maior prova do acaso como “causa” da existência. o sujeito redundante sabe expressar sua opinião. na verdade, diria que até faz certa questão disso, e não só uma vez ou outra. acha meio trabalhoso se perguntar “tenho algo novo a acrescentar?” antes de cada contribuição verbal sua, e por conveniência acaba adotando a resposta positiva como padrão. o resultado é a explicitação de coisas implícitas escancaradas, ou simplesmente a repetição de argumentos já mencionados na roda de conversa, mas não sem uma reorganização das palavras. o sujeito redundante é altamente vulnerável a novas tendências linguísticas, e nisso devo tirar meu chapéu pra ele e coroá-lo com o título de vanguardista em termos de experimentação com nossa língua falada (se bem que a tradução dos neologismos que ele faz pra escrita de mensagens também não deixa nada a desejar, não só pela grafia como também pelas obras de arte em miniatura que os mais conservadores chamam de emoji). talvez tenha me equivocado e deva agradecer pela contribuição nesse ponto. o sujeito redundante também se impressiona com certa facilidade. algumas semanas no mundo e uma das primeiras coisas que se aprende é que não existem exatamente coisas imprevisíveis, de tanto que se pode contar com um pouco de realismo mágico no dia a dia. mas se o absurdista reage com apatia ao inusitado, o nosso sujeito faz total questão de ser o oposto, e na verdade parece até viver em função de esperar, incessantemente, que algo levemente fora do padrão ocorra, pra que ele possa então comemorar com sua trupe o que vivenciaram, e dizer “você viu que coisa diferente?”, ou então “como aquilo foi engraçado!”, ou ainda o famoso “que doideira, como assim!?”. pensando bem, acho que o sujeito redundante é mais feliz.

mas deu pra ver que mesmo na descrição acima eu consegui ver alguns pontos positivos, e isso seria impensável alguns meses atrás, lá no início do meu triunfante arco de mudança. não sou mais essa pessoa intolerante desde que tomei a decisão crucial de dar ao sujeito redundante o benefício da dúvida. o superior sempre foi ele. na verdade, percebi que começa tão cedo quanto no nome a minha subvalorização desse tipo de pessoa. o que pode haver de mais vulgar, mais preconceituoso e pejorativo do que tratar alguém por um vício de linguagem? o que tem de genial, o que se pode ver de literário em uma redundância? é sutil, mas maldosa — e há pouco tempo me incluía infelizmente nesse grupo que julga — a intenção por trás de comparar uma pessoa a um erro corriqueiro, sem propósito, que se comete sem nem ter consciência do fato. mas não, isso de forma alguma se aplica ao nosso objeto de análise. se tem uma coisa que hoje eu sei, é que nada de acidental existe nas performances do sujeito. abaixar as expectativas sobre si, na verdade, é uma das coisas mais inteligentes que se pode fazer, e minha pretensão quase me custou deixar escapar essa percepção, e logo seria tarde demais, porque agora vejo que os sujeitos que eu antes chamava de redundantes ocupam lugares cada vez mais importantes na sociedade, e por pouco eu não perco a compreensão desse fenômeno meticuloso de dominação.

por tudo isso — a dissimulação com fidelidade implacável ao personagem, as declarações que os pretensiosos diriam óbvias mas no fundo ajudam a esclarecer pontos importantes que já tinham sido ditos aos mais distraídos, a expansão de fronteiras linguísticas e o nobre e ingrato trabalho de cuidar da dinamicidade da língua, fardo que alguns poucos heróis à frente de seu tempo precisam fazer sem reconhecimento, a inconformidade com as tendências filosóficas, a defesa da retomada do encantamento pelo cotidiano e recusa ao sentimento de indiferença, mostrando que a beleza pode estar muitas vezes no que é considerado banal — por tudo isso eu me vejo obrigado a rever a denominação que dou a ele. e depois de uma rápida consulta às figuras de linguagem, encontrei ali o nome perfeito. não é redundância o nome que se dá ao erro calculista, milimétrico e genial. não é redundância viver sempre um passo à frente, ter um compromisso metafísico com o personagem, provocar reflexões sutis aos olhos mais atentos e mudar radicalmente a visão de quem se propõe a entrar no jogo. essa premeditação merece um título bem mais acadêmico do que redundante, e é por isso que decido chamar nosso personagem, de agora em diante, de sujeito pleonástico.

na verdade, vejo que me equivoquei também ao dizer que o sujeito pleonástico era mais feliz. não podia estar mais errado. achando que o mais triste era eu, por carregar o peso do julgamento constante, mal sabia do esforço visceral que faz o pleonástico ao manter a sua pose. fingindo ser mais feliz que o resto, mas no fundo sendo o que mais compreende da realidade, ele toma para si toda a dor e mostra como deve ser o modelo ideal de reação à vida, como todos deveriam buscar ser em questão de se levar pouco a sério, como ele finge fazer, rindo propositalmente do absurdo da existência enquanto nos encoraja, por simples ação e reação e efeito de manada, a fazer isso sem querer. o sujeito pleonástico, como um para-raio, ou mesmo o fígado, faz o mundo melhor, e me arrependo amargamente de cada vez que me revoltei contra ele. obrigado, pleonástico, pelo seu altruísmo. minha raiva se tornou gratidão. agora posso ser mais leve por causa do peso que você carrega, e envelhecer sem me preocupar em acrescentar, porque você já acrescentou tudo. que esse meu pequeno esforço tenha servido pra mitigar, ainda de forma ínfima, a tragédia que é a falta de créditos enfrentada pelo nosso herói sem rosto. encerro esse pensamento dando um fim a ele, porque simplesmente não teria outra forma de concluir esse final.