O RENASCIMENTO DO JORNALISMO

Pedro Augusto L. Costa, da Nova Iorque

Prever o que acontecerá com a mídia é tão impossível quanto adivinhar o jornal de amanhã. Mas se você quiser antecipar o futuro, entre numa antiga fundição no Brooklyn, aqui em Nova Iorque, onde Shane Smith, um cara que “give a shit about money”, que numa tradução respeitosa não dá a mínima para o dinheiro, está deixando o resto da mídia de queixo caído e, melhor, chegando ao seu primeiro bilhão de dólares com o seu Vice (veja aqui o vídeo exibido na Rede Record News )

Grupo que gera conteúdos de imersão para “espantar os olhos de quem os vê”, Vice está atraindo o que o resto da mídia não consegue: os millennius, gente que está entre 18 e 34 anos e que hoje já a segunda maior faixa de consumidores, somando 75 milhões de pessoas só nos Estados Unidos. Perdem apenas para os baby boomers.

O que o Vice descobriu é que esta turma, embora tenha fama de sofrer de déficit de atenção, na verdade, como todo mundo, se agarra a conteúdos atraentes, independentemente do tempo de duração. Mais do que tudo, os millennius são a garantia de futuro da própria mídia.

Shane, que tem barba por fazer, cara de menino levado e olhos de quem está pronto para uma briga, é um canadense de 45 anos que fundou o negócio em 1994, ainda no Canadá, junto com o paquistanês-canandense Suroosh Alvi.
O sucesso veio depois de duas décadas, com uma reportagem sobre o ditador norte-coreano Kim Jong-un, que assistiu a um jogo de basquete organizado pelos produtores do Vice e o ex-cestinha Dennis Rodman. É considerada uma das reportagens mais bizarras desde que Gutemberg inventou a imprensa. Segundo Shane, foi também um esforço diplomático para aproximar os Estados Unidos e a Coreia do Norte.

Shane apresenta os shows semanais que os brasileiros também têm acesso pela HBO, pela web, Facebook, Snapchat, Pintarest, Tumbler, Youtube ou qualquer coisa que tenha uma tela. Pode um dia entrevistar o terrorista islâmico que vai decapitar reféns, e no outro visitar uma prisão federal em Oklahoma em companhia do presidente Barack Obama para falar com os prisioneiros sobre o sistema criminal. Sempre depois de introduzir o tema do dia, completa que faz tudo isto para “revelar o absurdo da condição moderna”.

Quando não faz ele mesmo matérias sobre estes absurdos, manda correspondentes descabelados, tatuados ou esquisitos para a frente de batalha, excetuando Gianna Toboni, uma espécie de musa do Vice. Um dos repórteres, Simon Ostrovsky, estava entrevistando ucranianos no conflito com a Rússia no ano passado, atravessa o campo minado de franco atiradores e aparece do outro lado, batendo papo com inimigos russos. Sobreviveu mas, tempos depois, acabou sendo sequestrado e libertado.

O desafio agora é que Shane e seus sócios estão ficando ricos, e o dinheiro, como todo mundo sabe, acalma a irreverência — marca registrada da turma — e aproxima-os dos grandes players do mercado, pelos quais sempre nutriram desdém. Segundo estimativa da Forbes, Shane — sozinho — vale meio bilhão de dólares, mora num flat em Tribeca, no sul de Nova Iorque, e recentemente foi visto de terno de gravata no Kremlin.

Por isto mesmo seu Vice News, a cara mais visível do conglomerado e uma espécie de Fantástico do futuro — no formato de magazine eletrônico — é alvo de tentadoras ofertas da Disney, HBO e da Fox, comandada por Rupert Murdoch, que literalmente bateu às portas de Vice ano passado e comprou uma pequena participação.

Todo mundo aposta nele porque vê nele o futuro da mídia: multi-facetária, onipresente em qualquer tela, a qualquer hora e lugar, numa tendência que eles chamam de “agnosticismo de plataforma”. Estando em todos os aparelhos e aplicativos possíveis, sem acreditar particularmente no domínio de um ou outro, produzem e transmitem conteúdo que ninguém nunca tinha visto algo semelhante, e que conquista quem está matando a TV tradicional, aquele pessoal que, como eu e você, não tira dos olhos dos smartphones.

- No antigo paradigma, me disse Sterling Proffer, Diretor Digital do Vice, o termômetro do sucesso era o maior número de pessoas atraídas para o website — cujo número de visitas vem caindo historicamente. Agora você tem de prover conteúdo para todas as plataformas possíveis neste jornalismo de rede. Se você não fizer isto, outros vão fazer e roubar sua audiência”.

Shane entende como ninguém estes millennius, principalmente porque emprega centenas deles. “Estes meninos estão sendo alvo do marketing desde que nasceram”, explicou uma vez à revista de propaganda Adweek para mostrar como é difícil conquistar a sua atenção. “Eles desenvolveram o mais sofisticados detectores de merda em toda a história (da humanidade)”.

Vice se intitula como um “grupo global de mídia para a juventude”, uma mistura de 10 canais digitais (reportagens, música, comida e outros assuntos), produção de TV, revistas online, gravadora e até uma agência de criação. O grupo já está em 36 países, inclusive há oito anos no Brasil, onde lançará em breve o Vice News.

Vice também acaba de fechar um acordo com a HBO para fazer um telejornal diário, “sem ser escravos do ciclo noticioso”, batendo de frente com quem está no ramo desde que a TV foi inventada, como NBC, CBS ou ABC, produtores de telejornais que eles consideram distantes da realidade, maçantes e principalmente “secos”, sem a devida carga de emoção ou profundidade.

Quem comprar o Vice, hoje a menina mais bonita do baile, terá que desembolsar pelo menos 2,5 bilhões de dólares, ou o correspondente em participação societária. E, o grande desafio, manter o círculo vicioso criativo e insurgente da casa, que dá menos valor à tradicional hierarquia da mídia, semelhante à militar, para colocar fogo na capacidade criativa de repórteres, designers, webmasters, especialistas em database e redes sociais, num sistema que eles descrevem como “intensamente colaborativo”.

“O jornalismo está renascendo com o Vice”, emociona-se Sterling Proffer ao ser entrevistado por mim. “Nossa responsabilidade como empresa de mídia da nova geração é ter uma presença inteligente em qualquer plataforma — pois o novo jornalismo vive a era das redes, não se reduz à visão única dos antigos jornais”.
Sterling lembra que, nos últimos 15 anos, o jornalismo passou por diversos modelos de negócios: conteúdo original, depois conteúdo livre, depois agregador de conteúdo e hoje vive “uma total desagregação”. Ou seja, a exemplo de Jeff Bezos, que está trazendo a tecnologia da sua Amazon para o Washington Post, o conteúdo é tão importante quanto a análise do tráfego on line, aprimorando os algoritmos para atingir o maior público.

-O futuro do jornal não está apenas nos smartphones. Cada vez mais, segundo me disse Daniel Victor, do New York Times, produtores de conteúdo estarão debaixo de redes sociais. “No início foi o Google, depois veio o Facebook, hoje a maior fonte de notícias do mundo e, em breve, teremos outra rede social que dominará o mundo digital.

O Vice, neste sentido, é tudo o que o resto da mídia quer ser. “Nós trazemos a Geração Y (Millenniuns) , nós trazemos mobilidade, nós trazemos social media, nós trazemos tudo que os outros não tem”, disse Shane recentemente sobre o seu negócio. Trazem, também, inovação. Em janeiro deste ano, foi transmitido pela primeira vez na história um documentário em realidade virtual em 360 graus sobre a marcha em Nova York contra a violência policial. Através do aplicativo VRSE, já disponível no Itunes, um sistema de câmeras foi mantido em constante movimento, de forma que a audiência pudesse “ver, escutar e sentir as notícias”.
No Vice, o jornalismo está mais vivo do que nunca. 425 profissionais (idade média: 28 anos) se amontoam no prédio na antiga fundição, em redações que ocupam vãos imensos, ocupadas por também imensas mesas onde todo mundo faz tudo: para cada unidade de produção, seja conteúdo web ou jornalismo no aplicativo Snapshat, há um grupo de profissionais que reverberam o conteúdo nas redes sociais ou debruçam-se sobre análises de audiência, especialmente no Facebook e no Google, para o que eles chamam de bombar o conteúdo.
Mais ainda, o resultado do trabalho é divulgado por assessores de imprensa em cada unidade. “É parte do trabalho da mídia achar seu próprio público”, explica o diretor de Comunicações Jake Goldman, que até pouco tempo assessorava o bilionário e ex-prefeito de Nova Iorque Michael Bloomberg.

Mas onde está o segredo do sucesso do Vice? Basicamente, a criação de um nova estética de documentários, baseada em colaboração, fim de hierarquia, caos criativo e gente louca para mostrar serviço onde os fatos acontecem.

É uma nova versão do ter uma idéia da cabeça, uma câmera na mão, no estilo chamado de D.I.Y — faça você mesmo, em inglês, de forma de todo mundo arregale os olhos antes que a audiência se disperse no WhatsUp, passeie pelo Facebook ou se perca no Youtube.

O repórter, ao contrário da TV tradicional, não é o apresentador da notícia, e sim mais uma testemunha da realidade que está passando em frente às câmeras, como se dividisse com a audiência o que está sendo visto.

A TV, que segundo eles está mais viva do que nunca, é ainda a grande referência. “Nossas operações online e na mobilidade crescerão exponencialmente”, previu Shane recentemente, “mas queremos uma operação baseada num banquinho de três pernas, e a terceira pena é a TV”, diz Shane.

Na parte on line, é fazer matérias baseando-se (também) nas ferramentas de SEO, ou Search Engine Optmization, de forma a atrair mais leitores escrevendo sobre temas que estão “trending” (fazendo sucesso) na internet. O Huffington Post iniciou esta onda, chamada aqui de data-driven journalism, substituindo palavras nos títulos das matérias com termos que as pessoas mais estão procurando na web, de forma a obter mais audiência.

Embora seja uma empresa privada, sem ações na Bolsa, calcula-se que Vice vai faturar 950 milhões de dólares em 2015, boa parte (não oficialmente revelada) de conteúdos “nativos”, ou “white labels (os antigos infocomerciais, despistados) que levanta a bola de empresas como AT&T, Google, Levi’s e Intel. A audiência está em 850 mil pessoas por programa original, segundo Brad Adgate, da Horizon Media. E 2,8 milhões incluindo repetições on line ou on demand.

Vice diz que faz sucesso entre os millenniuns, atingindo fortemente a esfera entre 15 e 34 anos, segundo eles, mas pesquisas mostram que a idade média alcança até 50 anos, enquanto que os programas tradicionais de notícias chegam a ter audiências médias acima de 60 anos.

Diz-se que, se a Time Warner comprá-los, Vice poderá atingir um público de 100 milhões de lares nos Estados Unidos. Se for comprada por qualquer uma das grandes — Fox, Time Warner ou Disney -, Vice ficará menos dependente da publicidade — e das agências de publicidade — e irá evoluir para a simples produção de conteúdo.

“Você não pode subestimar a capacidade deles de chegar a audiências difíceis de serem atingidas” analisa a CEO da rede A&E, Nancy Dubuc, que ano passado investiu meio bilhão de dólares no Vice em parceria com a firma de venture capital Technology Crossover Ventures.

Embora em seus conteúdos apareçam coisas do tipo “eu fui num blowjob bar — bar onde se chupa o pênis dos fregueses em Bangkoc, na Tailândia” ou “nós convidamos viciados em drogas para dar notas a músicas na estação de Conpenhagen”, Vice continua atraindo mais e mais anunciantes.

“Nossa fórmula é simples: criar bons conteúdos, ter o maior número de olhos espantados com o nosso conteúdo e fazer dinheiro para que possamos prosseguir fazendo o nosso conteúdo”, diz Shane. Concorrência? Para Jake Goldman, não há propriamente concorrência, mas gente que também está tentando fazer coisa nova, como o Buzzfeed ou Vox News, mas nada que se aproxima do modelo de negócios do Vice.

Para Michael Lombardo, executivo de programação da HBO, a idéia do Vice é deixar gravado na mente da audiência notícias e reportagens que não sejam enlatadas, pré-produzidas, apresentadas por uma pessoa atrás de uma mesa, mas que tragam opinião e não o simples relato dos fatos.

“No final, tudo o que a audiência quer é um retrato fiel da realidade, e contar histórias é a forma mais básica e autêntica de fazer isto”, me disse a correspondente Gianna Toboni numa conversa na redação. “Muita gente está desencorajada com as constantes demissões, mas o jornalismo, como serviço de utilidade pública, continua mais revelante do que nunca”, diz ela, que recentemente foi convidada para fazer uma palestra no TED sobre a razão de ter deixado o jornalismo das grandes emissoras, ¨comandado pelos índices de audiência, e não pelas histórias que contam. O que está mudando são os meios de fazer jornalismo, desde a crianção de blogs até pacotes em diferentes formatos, como nos aplicativos web”.

“Percebemos claramente o conceito de troca de guarda na mídia”, diz o CEO da Vice no Brasil, Daniel Conti, que lançará ainda este ano novos canais (inclusive o Vice News) no Brasil. “É evidente a busca por uma produção jornalística mais original, orgânica, imersiva, criativa e verdadeira”. Para Conti, “o próprio conceito de concorrentes é relativo — podemos dizer que nossos concorrentes são empresas produtoras de conteúdo, publicidade nativa ou formatos audiovisuais orientados para o ambiente digital, mas ao mesmo tempo muitas delas participam conosco no ambiente digital — o ambiente da mídia definitivamente mudou”, completa.