Reza Aslan: Não existe cisão entre o Islã e a cultura americana

A religião aparece em diversas formas, dependendo do solo do qual ela surgiu e do solo no qual ela é plantada. O que chamamos de Cristianismo nos Estados Unidos não é o que guatemaltecos chamam de cristianismo, nem o que iraquianos chamam de cristianismo. O que chamamos de Islã nos EUA é bem diferente do Islã no Irã, na Arábia Saudita, na Nigéria ou na Indonésia.
A noção de que a religião entra em conflito com a cultura parte de um mal entendido sobre o que é a religião, mas, especificamente, a ideia de que o Islã é conflitante com a cultura americana é simplesmente tolice, ingenuidade e mentiras. Não existe esse conflito. De fato, esse conflito entre religião e cultura não existe porque as duas coisas são intrinsecamente ligadas.
Pense assim: a cultura é um vasilhame, religião é como a água — simplesmente toma a forma de qualquer vasilhame em que for derramada. É por isso que a teologia da prosperidade, a noção de que Jesus realmente quer que você dirija um Bentley, pode existir nos EUA enquanto a teologia da libertação, que coloca Jesus como alguém que lutou contra a opressão e a pobreza, existe em El Salvador. Ambas as versões do cristianismo são igualmente válidas e dependentes da cultura das comunidades às quais pertencem.
Quando se observa o Islã nos EUA, o que se vê é uma visão majoritariamente moderada do Islã, mas o que chama a atenção é a predominância de uma versão altamente individualista da religião. No geral, o Islã privilegia a comunidade em sua doutrina, mas nos Estados Unidos — onde existe uma sólida cultura individualista — não é isso que se vê. O que se vê é um islã inovador, não necessariamente conectado ao consenso dos acadêmicos e escolas de pensamento muçulmanas. Temos aqui uma versão bastante feminista, um islã que promove a espiritualidade de gays e lésbicas. Uma versão que é bastante pluralística e democrática. E em cada um desses casos, é possível ver uma versão da religião que busca se incorporar totalmente à cultura.
Os primeiros muçulmanos vieram para a América como escravos e são parte do tecido social desse país desde seu começo. O Islã chegou aos EUA antes mesmo que existissem os EUA. É bem verdade que nos últimos 50 anos houve um influxo de imigrantes ao país, e que eles trouxeram consigo suas próprias normas culturais. Mas dentro de uma geração, vemos seus filhos adotarem e reconciliarem seus ideais religiosos com a cultura americana na qual cresceram.
Quando as pessoas falam de um conflito entra religião e cultura, em geral a razão é ideológica. Ideologias dependem de certos absolutos, que dão alguma confiança a respeito da identidade das pessoas e onde elas pertencem no mundo. É a forma como as pessoas constroem suas compreensões do universo. Ideologias podem incluir religião, nacionalismo, cultura e raça. Pessoas tendem a se apoiar em ideologias para criar um senso de estabilidade a respeito de quem elas são e de como elas se vêem no mundo.
Os conflitos que vemos são criados por pessoas, não pela cultura ou pela religião. Quando alguém diz que o Islã não se encaixa na cultura, o que ela realmente quer dizer é que não se encaixa em seu senso de si mesma enquanto “americano(a)” ou na concepção dela sobre a identidade americana. Não tem a ver com a visão que elas tem do significado do Islã. Mas o que elas fazem é o que a maior parte das pessoas faz quando tenta se definir — se definir a partir da oposição a um “outro” — e, para muitos americanos, esse “outro” é o Islã. Essas pessoas não sabem nada a respeito de muçulmanos ou do Islã ou sobre a história. O que acontece é que “Islã” virou um código para tudo aquilo que não é americano.
É uma emoção que não se baseia em fatos ou qualquer tipo de informação. É uma emoção que se baseia em uma tentativa de encontrar a si mesmo.
Traduzido de: Reza Aslan Argues: There Is No Divide Between Islam and American Culture, publicado em: https://foreignpolicy.com/2017/07/24/reza-aslan-argues-there-is-no-divide-between-islam-and-american-culture/amp/