Quem perguntou?

Letreiro neocolonialista ianque que eu li num banheiro público tupiniquim. (26–04–15)

Ninguém me perguntou, mas assisti “A Viagem de Yoani”. Achei que seria um retrato, quiçá até um perfil da controversa blogueira cubana, daqui e dali, de uns e de outros. Mas seria chover no molhado, né? Afinal, tudo é simplesmente aquilo que enxergamos, e depois nos projetamos em cima. O filme é um registro bem amplo da primeira viagem de Yoani após um longo tempo sem que o governo cubano a deixasse sair da ilha. Aliás, Cuba. Ilha em vários sentidos. Qualquer coisa, bem no meio da América Latina, e todo mundo está cansado de saber o que ela representa. O Eduardo Galeano até morreu disso, dia desses aí. Mas não vamos entrar nesse mérito. O filme apresenta muito bem a ilha e a personagem, mas o documentário é sobre o Brasil.

Mais específico: sobre a bipolaridade histérica (e sexagenária!) de um cenário político inteiro. Yoani chega no Brasil e já dá de cara com uma galerinha da pesada chamando ela de ianque vendida da porra, agente da CIA, mercenária, traidora da pátria e daí pra baixo. É uma intervenção agressiva, passional mesmo. Aquelas pessoas estão realmente comovidas, nervosas com o fato de Yoani se pronunciar contra o regime de Fidel. Recebe dinheiro estadunidense. Pode ser, mas isso não está em discussão. O que chama atenção é o nível da paixão dessas pessoas. Com tanta coisa errada dentro de casa, a simbologia evocada por Cuba levando um monte de gente pra esbravejar, encher o saco, não deixar ninguém falar. Compram briga até com o Suplicy, que é o Suplicy.

Do outro lado, o aproveitamento bizonho e exagerado que figuras políticas tacanhas (Bolsonaro) fazem de sua visita ao Congresso . De um lado parecido, a galerinha do "Vai pra Cuba", que vai pro choque com a rapeize de vermelho, aquela que eu descrevi ali em cima. É sério, eles ficam ali, frente a frente, os dois lados, vermelhos e azuis, engajados na emoção e na neurose, síndicas de condomínios em Santa Cecília espumam para estudantes de humanas da Unesp, todos com seus cartazes em riste… e se provocam. Muito tenso. Patético. E Yoani já foi embora faz uns 20 anos a uma hora dessas.

Eu não entendo. Qual é, hein? Qual é a de repetir o mesmo discurso de 60, 70, 80 anos atrás, de qualquer um dos lados, que seja? Pior que isso, qual é a da galera que parece que se interessa mais em destruir o discurso do outro do que construir qualquer coisa? Cadê a troca?

Eu não entendo mesmo. Cuba de Fidel ou Cuba de Miami? Pessoas com pouco mais de 80 anos morrem, sabe? Discursos ultrapassados de até 120 anos de idade sobrevivem, sãos e salvos, embalsamados, quase que inteiramente preservados, que nem o monge hibernante da Mongólia.

Eu não entendo, e seria raso resumir o cenário político inteiro de um país em imagens de um filme. Mas o que é que temos além disso? Imagem é o que todo mundo tem. E é o que se vê. Num dia, selfies com a PM na zombie-walk-pró-impeachment-da-Dilma, no outro, professores tomando porrada e gás de pimenta no Paraná. Eu não entendo, e entender é limitado. Isso tudo é gente que entende demais das coisas. Mas eu discordo.

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