Sobre a questão nickhornbyniana

"Did I listen to pop music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to pop music?"

Um dia desses (já faz um bom tempo) eu voltava de Minas num final de tarde, dirigindo com os vidros abertos. O Mathias, austríaco que passou uns tempos por aqui, fechava a porta com tanta brutalidade que o vidro do passageiro saiu dos trilhos. Eu tava lá, ouvindo O Inimitável, do Robertão, o Rei, no máximo volume, e a pergunta central do Nick Hornby, do Alta Fidelidade, veio com força na minha cabeça. Cacete. A educação sentimental que essas músicas nos passam (desde sempre, aliás) é lamentável.

Depois de quase abrir a boca a chorar cantando a plenos pulmões umas 3 reproduções consecutivas de As canções que você fez pra mim no repeat, eu decidi ouvir o disco inteiro, e fiquei meio chocado com a mensagem que esses jovens tipo o Roberto Carlos passam pros nossos jovens de hoje em dia. Fiquei chocado com a letra de É meu, é meu, é meu. Possessivo, o cara? Magina.

Não vou nem entrar no mérito de que a cultura pop de maneira geral faz as pessoas criarem expectativas irreais sobre a vida, mas você assiste um vídeozinho que tá viralizado de uma monja falando sobre amor genuíno, e romance, e desapego, sei lá, agora ouvindo o Sky Blue Sky do Wilco, que é foda demais, diga-se de passagem, dá uma vontade louca de simplesmente ouvir algo etéreo e alienante pra variar um pouco. Ou não.

Acho que meu bode repentino com a cultura pop pode ser explicado pelo simples fato de que ontem eu assisti os dois primeiros episódios da série Blackmirror . Que isso, galera. Simplesmente assistam essa bagaça. Olha o mote do primeiro episódio: uma princesa inglesa é sequestrada, e o sequestrador diz que vai matá-la se o primeiro ministro não fizer sexo com um porco em rede nacional às 16h do dia que está começando. Cada episódio é uma reflexão meio sinistra, o segundo é uma distopia num futuro próximo, uma metáfora que dá um golpe muito forte no jeito que a gente vive em sociedade, impossível não ficar incomodado. E por isso, genial demais. Assistam os dois primeiros episódios, tem no Netflix, mas só no dos americano, aí você baixa um app que te libera as séries que tem lá no americano, a tecnologia é fascinante, subversiva e absorvida ao mesmo tempo pelo próprio sistema que rege a porra toda.

E agora eu vou terminar issaqui com um trecho de um artigo do Adorno de 1941, em inglês, sobre a música popular da época. Lembremos que nem existia Elvis, Beatles, Elis Regina, ou Chiclete com Banana quando ele escreveu. Um abraço sereno.

“The so-called releasing element of music is simply the opportunity to
feel something. But the actual content of this emotion can only be
frustration. Emotional musical has become the image of the mother who
says, “Come and weep, my child.” It is catharsis for the masses, but
catharsis which keeps them all more firmly in line. One who weeps does
not resist any more than one who marches. Music that permits its
listeners the confession of their unhappiness reconciles them, by
means of this “release,” to their social dependence.”

Ai, ai, papai. Que sexta-feira.

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