Como me tornei um libertário?

Depois da reeleição de Dilma Rousseff em 2014, muita gente buscou respostas para a seguinte pergunta: é assim mesmo que funciona? Uma única pessoa arruina a economia de um país continental e engana 50 milhões de brasileiros, que por sua vez obrigam os outros 150 milhões a sofrerem as consequências… E é isso? Não há outro jeito de organizar a sociedade?

A partir de 2014, muita gente, como eu, começou a descobrir que este outro jeito existe: o libertarianismo, a doutrina filosófica que defende que é imoral iniciar agressões contra pessoas pacíficas.

Até entender que a sociedade anarcocapitalista é a única moralmente aceitável, decorreram-se dois anos. Como você, em 2014 eu também achava democracia uma palavra bonita, achava normal pagar impostos, achava razoável pessoas votarem para escolher quem vai gerenciar a vida pessoal e financeira delas e das outras…

Achava.

Plotei no diagrama de Nolan a transformação que aconteceu comigo desde 2014:

Um gradiente descendente no espaço de visões políticas descrito pelo Diagrama de Nolan. A função de otimização buscou otimizar a coerência lógica, ética e moral.

Durante as eleições de 2014, um entendimento mínimo da realidade apontava para o óbvio: o Estado brasileiro estava gigante demais, intervindo demais, tributando demais, e reeleger Dilma Rousseff aprofundaria ainda mais estas políticas.

Desde 2014, quase todo mundo que eu conheço — mesmo os mais socialistas — migraram, em variadas intensidades, para a direita no diagrama de Nolan. Isto é, perceberam que o Estado brasileiro exagerou no controle e intervenção nas trocas voluntárias entre as pessoas e isso estava diretamente ligado à péssima situação econômica do País.

Muita gente, como eu, começou a ler mais sobre economia e descobriu que, como regra geral, quanto mais livre economicamente uma região, mais próspera ela tende a ser. E entendeu que, como consequência de suas políticas socialistas, o Brasil vem sempre ocupando baixas posições no ranking que mede o grau de liberdade econômica entre países (hoje a 122 dentre 154):

Quando adolescente, eu achava que um país era capitalista se existisse dinheiro circulando. 20 anos depois, o óbvio: o Brasil é um país socialista, integrando o grupo dos países que menos permite trocas voluntárias entre seus cidadãos. (http://www.heritage.org/index/ranking)
Como esperado, as pessoas migram dos países menos capitalistas para o mais capitalistas: http://liberalismoeconomico.org/o-liberalismo-economico-prejudica-os-mais-pobres-heritage-2014/. Os países mais capitalistas do mundo são aqueles em que a gente gostaria de morar, e para onde as pessoas se mudam. Será que um dia o capitalismo vai chegar no Brasil?

“Correlação não implica necessariamente causa”, você pode e deve questionar; mas as evidências de que liberdade econômica causa prosperidade são colossais.

No meio de 2015, então, eu já tinha consolidado meu argumento utilitarista pró-capitalismo: os lugares mais prósperos são aqueles em que as pessoas são mais livres para produzir riquezas e em que há menos espaço para uma pessoa ganhar uma eleição, e, sozinha, destruir tudo, como aconteceu no Brasil e na Venezuela.

Por volta de 2015, eu estava abrigado dentro da filosofia liberal e defendia o minarquismo, ou seja, o modelo de sociedade em que existe um governo central que provê o mínimo para que as pessoas sejam livres para produzir riqueza e serem felizes: justiça e segurança. Parece bem razoável, não é mesmo? E foi neste ano que o Partido Novo e o Partido Social Liberal emergiram como representantes do liberalismo, o que não deixa de ser um marco em um País cujo espectro político são 50 tons de vermelho. Em 2015 eu comprei uma camiseta do Partido Novo.

Bom, então o meu processo de transformação ideológica meio que podia parar por aí, certo? O fato é que o excesso de governo no Brasil destruiu a economia, e a muita gente ainda não havia percebido isso. O jeito então era tentar contar isso para mais e mais pessoas e tentar mudar o rumo do Brasil via eleições. Se virássemos liberais amanhã, daqui a 20 anos seríamos prósperos como a Austrália e quadruplicaríamos a renda per capita. Nada mal. Se não ocorresse assim, então não teríamos conseguido convencer a maioria e, na democracia, a maioria manda. Então a mim restaria lamentar e aceitar.

Em diferentes graus, muita gente chegou até aqui. Eu continuei… Para continuar a percorrer o diagrama de Nolan rumo ao ponto extremo libertário, é preciso trazer argumentos morais e éticos. E foi aí que meu caminhão percorrendo o espaço bidimensional das liberdades de Nolan perdeu os freios completamente:

Veja se concorda com a seguinte afirmação:

Não devemos iniciar uma agressão contra não-agressores.

Se você concorda, bem-vindo, você é anarcocapitalista. O termo, cunhado pelo economista Murray Rothbard na década de 1940, afirma que as pessoas são donas do seu próprio corpo e donas de suas ações; portanto, elas não podem iniciar agressão contra pessoas pacíficas, ou estariam ferindo a auto-propriedade das outras pessoas. Resta aos indivíduos, então, cooperarem de modo voluntário, buscando maximizar sua felicidade individual.

Quem viola este princípio? O Estado, um agressor por natureza. Se você concorda que uma pessoa é dona do seu corpo, então automaticamente você sabe que o Estado não pode existir, pois ele faz tudo que faz por coerção — valendo-se do monopólio (ilegítimo) da violência que ele diz que tem.

Imagine que eu te diga que há uma galera que confisca seu salário, decide se você pode consumir sal, rouba cobertores de pobres, cobra aluguel de uma casa que já é sua, extorque sua família e decide quanto do seu trabalho você tem que dar pra eles todo mês. Se você não é um psicopata, você vai achar isso inaceitável. “Que horror! Onde está essa gangue criminosa?”, você vai perguntar. Bom, ela tem uma sede… E no Brasil ela é o Palácio do Planalto. Para a maioria das pessoas, roubar é inaceitável… Mas se a pessoa disser “sou do governo”, magicamente isso se torna algo moral.

A forma mais fácil de perceber o quanto o Estado é imoral é pensar o que as pessoas achariam de uma certa ação do Estado caso não fosse ele o autor desta ação. Suponha fque você chegue em uma casa e cobre aluguel do dono da casa, e ameace a pessoa de violência caso ele não pague. Loucura, né? Mas o Estado faz isso — é o que chamamos de IPTU.

Comecei a perceber que havia algo errado em relação a existência do Estado quando notei isso: certo e errado não pode ser algo tão frágil que “se 25% das pessoas concordam comigo então é moral e certo, se não concordam, então eu serei preso se fizer isso”. Usei 25% porque é a fração de brasileiros que elegeram o governo atual. Pode notar que se você faz algo que o Estado faz, especialmente cobrar impostos, você será: preso. Então pensei: deve ter alguma filosofia moral mais sólida, e realmente tinha — o liberalismo.

Se você acha o Estado legítimo, então a sua noção de aceitar algo como certo ou errado depende do que uma quantidade de pessoas pensa. É uma visão muito perigosa, ao meu ver.

Aproveitando que estamos falando de quantidade de pessoas, na última fase da minha conversão ao ateísmo politico, veio a aversão ao Deus Democracia. Que sistema é este em que maiorias podem mandar na vida das minorias? Se há um grupo formado por 10 pessoas, caso elas conduzam uma votação e 7 decidam que vão tomar o dinheiro das outras 3 (ou seja, escravizá-las pelo tempo que elas levaram para ganhar este dinheiro), isso está: errado. Se você é “democrático”, isso significa que você aceita o processo em que maiorias votam e decidem como deve viver a minoria. Bom, se o Congresso Nacional votar amanhã que todos os negros devem ser executados, você vai discordar da decisão, mas terá que aceitar o processo que a produziu, que foi perfeitamente democrático.

Você percebe que democracia é algo ilegítimo quando se pergunta: se eu não tenho o direito de cobrar impostos de você e nem de te proibir de andar de Uber ou de ser gay, como que eu posso votar e dar esse direito para um político? Eu acabei de dar para alguém algo que eu não tenho.

O Governo postou um lembrete nas redes sociais: ele “permite” que você faça compras para sua casa! Porém, interagir voluntariamente com outras pessoas é um direito natural seu e ele não deveria estar sujeito a votação democrática.

Uma lacuna de entendimento que eu tinha e foi preenchida recentemente foi: se o Estado é ilegitimo, imoral e rouba as pessoas, por que 99% das pessoas gostam, aceitam e apoiam o Estado? Bom, um motivo é que a maioria tem a ilusão de que é beneficiada pelo Estado e tem a sensação de que ele está roubando mais os outros do que ela. Mas uma observação fundamental a se fazer é: o Estado monopoliza o ensino nas escolas. No Brasil, o MEC decide o que você vai aprender e principalmente o que você não vai aprender. É o Estado quem treina os professores que vão te ensinar. Então, todos nós fomos treinados por anos por uma escola cujos professores foram treinados pelo Estado a nos ensinar um currículo definido pelo Estado que nos ensina como funciona o Estado. Existe alguma possibilidade de você achar estranho existir o Estado? Nenhuma.

Existe alguma chance de críticos do Estado como Mises, Hoppe, Rothbard, Friedman e Hayek serem ensinados nas escolas? Nenhuma. Aos 30 anos de idade, eu jamais tinha sequer ouvido falar nesses caras. Quantas escolas ensinaram os trabalhos acadêmicos de Mises que mostram que o socialismo é impossível?

Imagine um estudante que foi pra escola aos 5 anos e depois cursou Humanas. Este ser humano foi treinado por 20 anos a amar o Estado. Imagina se você diz pra ele que o Estado é imoral e ilegítimo. Ele vai achar você completamente louco. É como tentar explicar para alguém que estudou em uma escola controlada pelo ISIS que o ISIS é uma organização terrorista que faz o mal.

O condicionamento das pessoas a obedecerem políticos é tão grande, que, se você diz que é contra a democracia (um sistema de agressão que permite que maiorias deem ordens e comandem a vida das minorias), você vai receber um olhar torto de volta. Vão pensar que você quer a ditadura; sequer passa pela cabeça delas que ela ser livre é uma opção.

E é por isso que entendo muito bem que as pessoas precisam de um tempo para digerir as ideias de liberdade, pois elas vão de encontro à formação que elas receberam. Me lembro que ouvi a expressão “imposto é roubo” pela
primeira vez em 2014, durante as eleições presidenciais. E lembro muito bem da minha reação: “eita, que pessoal maluco e radical. Como assim, gente. Claro que imposto não é roubo; roubo é outra coisa”. Sabe quanto tempo demorou para eu assimilar que imposto é literalmente roubo, isto é, expropriação da propriedade de alguém sob ameaça de violência? Dois anos!

Dois anos digerindo uma derivação lógica trivial: roubar é pegar algo de alguém à força sem consentimento, o Estado pega suas coisas à força sem consentimento, portanto, ele te rouba. Ok, reconheço que meu raciocínio não é muito rápido, mas se você aceita uma justificativa, releia o parágrafo sobre Estado e ensino.

“Ah, mas ele te rouba para fazer o bem para os pobres”. Dois pontos a comentar aqui. Vamos começar concedendo que realmente o Estado tirasse dos
ricos para dar pros pobres. Então… Ainda assim seria errado. Ricos, a gente se esquece, também são seres humanos. E se o rico não pertence ao governo, isto é, se ele não tem o “direito” (sic) de mandar boletos para a casa dos outros sem que eles concordem, ele é rico porque fez algo que as pessoas gostaram tanto que quiseram voluntariamente dar dinheiro pra ele. Tudo correto e moral. O rico não deve nada à sociedade.

E mesmo não devendo nada a ninguém, como ele não é um Estado, o único jeito dele ganhar dinheiro é fazendo algo de bom pelas outras pessoas. Este é o ponto que o socialista jamais vai entender, imagino. O dono da Ferrari gerou um bem pra todo mundo: pra ele e pras pessoas pobres que vão trocar o pneu da Ferrari, lavar a Ferrari, colocar gasolina na Ferrari. No capitalismo, sua única opção é cooperar e fazer o bem pelas pessoas. Ao contrário do que fomos condicionados a acreditar, a Ferrari não existir não tornaria nenhum pobre menos pobre; pelo contrário. É exatamente a vontade das pessoas em ter coisas que elas queriam é que faz com que elas, egoisticamente, produzam algo e ofereçam para as outras pessoas. É essa vontade egoísta que trouxe a humanidade até aqui; não foram políticos, de saber e bondade superiores.

Salario mínimo é ruim pro pobre, pois torna crime ele trabalhar . E se fosse bom pro pobre? Ainda assim, é imoral uma terceira pessoa decidir quem pode e quem não pode trabalhar.

FGTS é confisco de salário. E se fosse bom para as pessoas terem salários confiscados? Ainda assim, é imoral alguém decidir que parte do salário do trabalhador não pertence a ele.

Como brilhantemente explica o Raphael, do canal Ideias Radicais, não interessa como iríamos viver sem o Estado, uma vez que ele é ilegítimo por iniciar violência contra pessoas pacíficas.

Não existe justificativa para roubo.

O segundo ponto é que o Estado não ajuda os pobres. Universidade estatal, INSS, FGTS, BNDES, Lei Rouanet, Copa do Mundo, Olimpíadas, funcionalismo público com altos salários… A direção do fluxo do dinheiro que passa pelo Estado é predominantemente dos pobres pros ricos, que são quem tem mais condições de parasitar e influenciar o Estado.

Sei que fui altamente superficial em muito dos pontos que toquei aqui, mas meu objetivo neste artigo era descrever o processo pelo qual passei: um dia eu também fui estatista. Hoje, aos 33 anos, eu sei que estive errado em 90% da minha vida sobre o entendimento do que é o Estado.

Uma crítica que frequentemente recebo é que tenho uma posição radical. E é verdade! Bom, agora que sou radical, aprendi algumas coisas sobre posições radicais. A primeira é que uma posição radical tende a ter uma alta coerência e consistência lógica: o radical é aquele que defende um conjunto de princípios e os aplica indiscriminadamente, evitando abrir mão delas por conveniências conjunturais. Veja, por exemplo, os fundamentalistas radicais do Estado Islâmico. Uma virtude eles têm: eles aplicam os mandamentos e lições do Corão de forma consistente. Se o princípio é que o livro sagrado é a palavra divina e deve ser seguido, eles a seguem, mesmo que a instrução seja “apedreje mulheres”. O religioso que não é radical é aquele que seleciona quais partes da religião ele vai seguir e quais não é conveniente seguir. O radical tem a virtude de ser consistente, coerente.

Ser radical só quer dizer que você aplica e segue princípios fundamentais, sempre. Portanto, não há relação entre posição radical e posição correta ou moral. Existe uma crença implícita de que uma posição extremista é intrinsecamente ruim; de que as melhores posições são sempre as posições “equilibradas” e estão em algum ponto intermediário no espectro de posições. Porém, você provavelmente é radicalmente contra o estupro de crianças.

A posição radical, muitas vezes, é a posição correta e moral.