Peço desculpas (ou A carta do imperador)

Não consigo começar este texto fazendo outra coisa que não pedindo desculpas. Peço desculpas porque sou incapaz de escrever algo que não seja sobre mim. O meu ego se impõe sobre o meu texto e escrevo com fôlego, com imaginação, com amor, somente se for sobre mim. De qualquer forma, de alguma forma, sempre sobre mim.

Liguei para o meu pai para pedir dinheiro, numa dessas ligações que representam imediatamente o deparar-se com a humilhação. Eu odeio fazer isso, e imagino que, para a maioria das pessoas, isso não seja fácil também. Desliguei o telefone sabendo que o decepcionei mais uma vez. Mais uma de tantas outras.

Decepcionei meu pai por ser gordo, por não gostar de esporte algum, por não querer andar de bicicleta, ou jogar tênis. Decepcionei meu pai por gostar mesmo é da Whitney Houston. De ficar gritando a tarde inteira para conseguir alcançar as mesmas notas que ela. Decepcionei meu pai por sempre ser um aluno nota sete. Por odiar matemática, física, química, e qualquer uma dessas matérias da escola que, supostamente, podem ser convertidas em dinheiro no futuro. Na vida estável que não tenho.

Gostava de ler e li um monte de bobagem na minha infância. Li e amei alguns dos livros do Harry Potter. Li e amei alguns livros das Desventuras em Série. Também li e amei coisas melhores. Amei Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Li um pouco de Edgar Allan Poe, li uma peça do Chico Buarque, li coisas boas. Sempre gostei e para sempre vou gostar.

Sobre as coisas ruins que li, antes pedia desculpas a mim mesmo por tê-las lido. Achava que tinha sido um desperdício de tempo. Poderia ter trocado as tantas páginas de J.K. Rowling, por páginas de Dostoiévski, mas não consegui. Não conseguia sequer entender porque eu não conseguia ler, acho que hoje, isso está mais claro para mim.

Não lia porque, desde criança, quando eu leio, eu leio. Leio “com tudo” e uma grande amiga minha me disse que é uma honra me ter como leitor. Que sou “leitor aberto, leitor interessado, leitor empático e leitor inteligente. Leitor prontíssimo e disposto a encarar coisas que ele não quer muito encarar”. Hoje, sei que o sou e me perdoo por não ter tido força para ler a demência de Raskólnikov na época de Harry Potter.

Meu pai ainda não me perdoou. Ou, se perdoou, não me disse e nem mostra para mim que me perdoou.

Desliguei e celular e dei scroll no meu feed do facebook. Encontrei, sem querer, um vídeo engraçado. Hoje é aniversário do Zeca Pagodinho e Maria Bethânia postou um vídeo dela cantando “Esse Cara”, na versão do Drama 3º ato, no quintal do pagodeiro. Apesar da situação cômica, ela está cantando lindamente. A voz ressoa e, por isso, como todas as vezes em que a ouço, as palavras calam fundo no peito. Como um tiro. Fico impressionado. Como elas ainda conseguem me atingir com tanta facilidade? Já ouvi tantas vezes essa mesma música…

“Mora comigo na minha casa um rapaz que eu amo. Aquilo que ele não me diz, porque não sabe, vai me dizendo com seu corpo que dança pra mim. Ele me adora e eu vejo através de seus olhos o menino que aperta o gatilho do coração sem saber o nome do que pratica. Ele me adora e eu me gratifico só com os olhos que vejo. Corto todas as cebolas da casa, arrasto os móveis, incenso… Ele tem medo de dizer que me ama. E me aperta a mão, e me chama de amiga.”

É com este texto de Luiz Carlos Lacerda que Maria Bethânia dá início a uma sequência intensa de canções que falam sobre amar e ser subjugada a quem se ama. Transcrevi o trecho declamado na íntegra, porque sinto que esse texto, apesar de não tê-lo escrito, é meu. Fala comigo e é falado por mim. Tenho ele decorado, inscrito na minha memória, no meu corpo, no meu sangue e acima de tudo no meu amor.

Quando o ouvi pela primeira vez, de imediato, tive a sensação de que ele sempre esteve dentro de mim. Tive a sensação de que eu nunca tive a coragem de tirá-lo do peito e transformado-o em palavras. Bethânia arrancou-o de mim com a sua voz grave e, desde que me encontrei com ele, sinto que toda vez que o ouço, vou me reconhecendo mais.

Ele veio, à princípio, para me falar de uma situação que me pareceu óbvia. Na minha casa, já aqui em São Paulo, morou comigo um rapaz que eu amava, mas que não me amava da mesma maneira. Me amava e me chamava de amiga. No entanto, depois desta ligação percebo que este texto, e esta sequência de canções, não falam sobre os meus amores de hoje. Falam do meu amor maior: a carta do imperador.

Recentemente, essa mesma amiga que me convenceu de que sou leitor aberto, também me apresentou o tarô. Tirei inúmeras cartas desde então. No entanto, uma delas me persegue: a carta do imperador. Ela se repete sempre que o assunto é amor. Eu pergunto ao baralho o que é o amor, o que é o meu amor, o que é o amor maior, e essa carta se repete constantemente.

A carta do imperador é uma das figuras paternas mais fortes (se não a mais forte) do tarô de Marselha. Ela é a carta da exatidão, da organização, da precisão. É a carta dos metódicos, dos controladores… É o arquétipo do pai. É uma figura masculina e barbada sobre um trono, com um cetro na mão.

O rapaz que sempre amei e que, na maior parte da minha vida, morou na minha casa é meu pai. Meu pai não me dizia que me amava, e se dizia, não me convencia. No entanto, o seu corpo trabalhava para mim, para dar tudo o que eu precisasse e, na medida do possível, tudo o que eu quisesse. Ele me adorava, como se de alguma forma eu representasse tudo aquilo que um dia ele quis ser e não foi. Eu me sentia agradecido por estar em uma posição tão alta, mas sabia, sempre soube, que jamais seria capaz de corresponder as suas expectativas. Eu via, através de seus olhos, um menino que disparava o gatilho do coração sem saber o nome do que praticava. Eu percebia a nossa relação como um grande ensinamento do que é o amor. O amor, para mim, tornou-se um jogo onde eu tenho que me desfazer e me refazer para cumprir a ordem do outro que eu amo. E o amor por este outro me prendia, e talvez ainda me prenda, nesta situação em que eu vou me anulando pouco a pouco.

Por isso, amor próprio, para mim era uma revolução. Uma revolução tão intangível quanto essas utopias de um mundo justo e igualitário que a minha geração e seus textões de facebook insistem em fazer. Amor próprio era o idealismo ridículo. Digno da minha gargalhada e somente disso. E mais nada.

Veio a terapia.

Com ela, fui escavando o que havia dentro de mim. E hoje, até posso dizer que estou aprendendo a me amar. Estou aprendendo a enxergar a possibilidade de uma revolução dentro mim.

Desliguei o telefone sabendo que hoje perdi a batalha. A guerra continua.

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