Com todo o respeito, Pedro, e acho que o debate está sendo maravilhoso nesse sentido, mas eu não…
Bruno Vieira
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Antes de mais nada, achei maravilhosa a colocação. Ainda mais por você ter citado um dos meus postulados favoritos do Friedman :). Mas acho, de novo, bom por alguns conceitos no lugar que lhes cabe. Começando por:

“Se o liberalismo é uma doutrina ou um entendimento ou um pensamento que visa convocar à não intervenção do Estado na organização da sociedade…”

Não. Para nós, o estado DEVE intervir para garantir aqueles quesitos que listei ali em cima (e a propriedade, a ideia de que você é arbitro de si mesmo e ninguém tem o direito de lhe ditar como deve viver, somente de impedir que você dite como outrem deve). Vou por um exemplo que acho que capta a coisa na mesa: um grupo espanca um casal homossexual na rua. Crime de ódio, uma barbaridade. Aqui, para o pensamento liberal, cabe uma intervenção veemente do estado na organização social. Antes de mais nada, oferecendo atendimento policial de qualidade (o que envolve desmilitarização, reformulação do papel da polícia — acho verdadeiramente triste o que entendemos como polícia no Brasil, que mais serve para um protogenocídio de negros e pobres do que qualquer outra coisa), oferecendo indenização (não precisa ser dinheiro, bom lembrar) aos agredidos e punindo os agressores. Como disse ali em cima, “garantir a segurança”. Uma intervenção na ordem social no sentido de garantir que alguém possa viver de maneira segura sendo quem é e podendo se expressar livremente é não só desejável, é necessária para os liberais como um todo. Infelizmente, a intervenção depois do acontecido não resolve o problema, por isso, a ideia de que cabe à autoridade máxima completar os vácuos educacionais e fornecê-la aos pobres. Acho que você concorda comigo que educação é maior arma contra qualquer tipo de preconceito, por cortá-lo na raiz.

Você disse que “não é possível pensar em liberdade sem igualdade de fato, sem possibilidade de que, a priori, haja uma garantia do exercício da liberdade” e isso está conversando muito bem com a filosofia liberal. Partindo do pressuposto de que existem populações marginalizadas, a proposta social-liberal é ajudá-las a chegar em pé de equidade com as não-marginalizadas. Educação e saúde para os que não podem pagar por ela, cotas para os marginalizados e segurança para que todos possam ser da maneira que vieram ao mundo ou mesmo da maneira que desejarem ser… Não acho frutífero debater se isso é “mínimo” ou não. O importante é que penso ser o certo, com todos.

Então, quando você pensa que uma intervenção na ordem social que esteja promovendo equidade é para nós, sociais-liberais, “excessiva”… Pode apostar que não. Talvez o que lhe cause essa impressão (que é bem difundida, infelizmente) é o modo como defendemos planejar políticas públicas. A maioria prefere uma abordagem baseada em dados e temos muito cuidado em diferir boas intenções de bons resultados. Temos a dolorosa noção de que muita coisa que se faz em nome de populações oprimidas só piora a situação delas, como por exemplo, a guerra às drogas.

Parafraseando o próprio Friedman, não nos atribua as suas concepções de um conservador, acreditamos em liberdade e garantias delas para todos (e nada no sentido de garanti-la, por parte do estado, será excessiva para nós), não só para os amigos do rei e grupos que se apoderem do maquinário estatal. Quando falamos de não-intervir, estamos falando de absurdos como o projeto Escola Sem Partido. Quando falamos de não-intervir, falamos de não confiscar o sustento e a vida de tanta gente, que são os camelôs. Quando falamos de não intervir, falamos que é imoral o estado ditar que tipo de substância você pode consumir. Ou mesmo, se pode abortar, com quem casar, como viver. A intervenção, para nós, deve ser no sentido de impedir que alguém interfira na vida de outra pessoa e de permitir que todos tenham uma largada justa, entende? No resto, achamos que as interações voluntárias e a livre-associação são traços de uma sociedade justa e livre.

Se me permite perguntar, leu o manifesto do Instituto Mercado Popular? Se sim, o que achou? Com o que discorda? Acho que uma passagem muito boa é: “ A verdadeira escolha não é entre violência e não-violência; é entre não-violência e inexistência. A verdadeira liberdade é uma crença na dignidade humana, de que todo indivíduo tem o direito inalienável de escolher seu próprio destino [e o estado de lhe assegurar que ninguém poderá interferir nisso]”.

Se você já não é um social-liberal e nem sabe, tem um pensamento bem próximo do nosso, acredite.

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