Capitalismo tupiniquim

Eu sei que parece bem intuitivo pensar que corrupção é fruto de cultura no Brasil, mas deixe-me apresentar uma outra abordagem

O capitalismo daqui é de compadrio, Sérgio Buarque de Holanda já mostrou isso e com sobra. Ponto pacífico não só aqui, mas também que isso é uma merda.

Agora, por que é de compadrio? Ok, concordamos que em algum ponto virou parte da usual interação entre setor privado e público, mas existe algo pro trás disso. O que é? Acho que cabe ser curto e grosso. O governo tem o poder de conferir essas vantagens. E os mercados são coisas fodas para o bem e para o mal, se existe uma parte com o poder de oferecer algo e outra com interesse nesse algo, elas logo vão trocar voluntariamente, em nome de interesse mútuo. Para acabar com esse negócio imoral — e vamos abrir mão da profundidade nesse breve texto, logo aviso — então, é só tirar dele essa capacidade, não?

Não gosto de falar de diminuir o “poder do estado”, e sim de tirar a capacidade dele de fazer merda. Quando não existe mais BNDES, não tem quem subornar para garantir o crédito subsidiado. Quando não existe mais o Fundo de Investimento do FGTS, não tem mais quem comprar na câmara para ganhar um aporte. Quando não existe mais Anatel, não tem mais quem pagar para garantir que aquela competidora estrangeira fique de fora.

E eu entendo que você possa pensar que ricos podem explorar pobres, mas eu entendo que eles não podem, não ao menos da maneira que se pensa que aconteceria se não houvessem certos poderes regulatórios. Acho inclusive, que quem mais sofre com uma Anatel da vida é quem paga uma conta fodida na telefonia e quem se dá bem com ela, é quem suborna algum gerente.

Não to falando de desregulamentação completa, liberou geral, uhul, fúria ancap. Sim de regulação inteligente. Punir propaganda enganosa, fraude empresarial e outras más práticas de serviços é altamente desejável. Precificar poluição também. Padrões de higiene em restaurantes e Vigilância Sanitária? Por favor.

Eu quero é que seja mais barato abrir um negócio, que a estrutura tributária não puna a pobreza (sim, pobre paga mais imposto e não é taxar grande fortuna que resolve isso), que o governo não fique dando dinheiro pra rico e sim pra pobre, que eu não precise de 50 viagens a um cartório para validar um documento. Melhor ainda, que eu não precise de tantos documentos. Afinal, burocracia pesa mais em que não pode pagar um otário para resolver esse tipo de merda.

Junta Comercial existe para que? A justificativa é para controlar a entrada no mercado, para “proteger os comerciantes”. Quando eu falo que tem que salvar o capitalismo dos capitalistas, é dessa merda. É da FIESP. É das montadoras que pegavam dinheiro no BNDES e isenção fiscal, juntavam com IPI reduzido e imposto de importação pra carro estrangeiro. Quem gosta de governo com esse tipo de poder é milionário, não pobre. Nas palavras de Jeremy Weiland:

Deixe o livre-mercado devorar os ricos