A nova subjetividade é coletiva.

Ando querendo silenciar tudo aquilo que me estressa. Admito e tira-me do sério ter de conviver com opiniões que são baseadas em ofensas. O que quer dizer qualquer opinião conflitante. Sejamos francos. É difícil porque eu me irrito fácil e não vou ser hipócrita de não dizer isto. (Ainda há mais este problema). Sendo assim, muitas vezes pensei e ainda penso em dar um fim ao meu Facebook e todas as minhas redes sociais para poder me libertar desta necessidade de redes sociais, de dizer, de compartilhar, de procurar pessoas como eu. Seria loucura não querer isso? Seria loucura dizer que não me agrada nem um pouco tentar fazer contatos com pessoas virtuais porque eu ainda não me acostumei ao que é a rede social e, possivelmente, nem quero fazê-lo?

Dentro desta era de ‘extimidades’ — termo cunhado em um estudo da autora Paula Sibilia sobre o fenômeno de se expor os mínimos detalhes de sua vida íntima aos outros-; o maior medo é não ser notado. Isto porque a intimidade está em vias de extinção pela progressão das coisas. Ao menos, aquela intimidade que serve apenas para n´so e não pode ser compartilhada. Os desejos inconfessáveis, os modos de se ver idiotas ou as suas peculiaridades e sua identidade deixam de ser importantes para dar vazão à um tipo de identidade muito parecida com a identidade de grupos e o individuo se infla em seus relatos pessoais.

Há um esvaziamento da discrição como coisa indesejável e um pouco estranha, até perturbadora diante do que seria a vida alheia. Todos lemos, sabemos e exploramos aquilo que os outros postam. A intimidade não é algo que possa mais existir em uma era de conexões e espaços que mudam pela arquitetura da cidade cada vez menos pomposa e menos fechada. Tudo faz com que se contactem os seres humanos, mas não de uma forma integral e nem com a identificação absoluta, mas por meio de vozes conflitantes.

Assim se identifica com os outros por meio de grupos, ao mesmo tempo que a dita intimidade é sempre compartilhada. O que é um paradoxo porque deixamos de delinear claramente o que é nosso ou público. Aos meus olhos isto não é levemente perturbador, isto é, talvez, o problema central das relações nesta era digital. Tudo se mistura: trabalho, papel social, identidade familiar. De modo a não podermos ter uma vida nossa e apenas nossa que não interessa aos outros. Ao menos, quando não estamos nos esforçando por desligar o computador, nos concentrarmos em tarefas outras que não sejam de escrever ou expor opiniões.

Este inchaço do Eu que se expande aos outros, mas continua mesquinho e humano como sempre toma proporções estranhas. Tentamos nos policiar em várias maneiras e policiamos os outros em busca de algo aceitável aos olhos de todos. Esta era em que o ser humano precisa ser enquadrado em padrões sociais, grupos posições políticas ou leitura fica mais e mais bizarra e incomoda. Cria-se um mal estar pela política de ‘austeridade fiscal de pessoalidades’ enquanto faz-se um tipo de ‘delação premiada’ das opiniões alheias.

Aos olhos alheios — dos que nos leem como usuários convictos e viciados em internet e daqueles alheios aos modos de ser na internet -; nós nos fazemos ‘ficção’. Parece, portanto, um ato de coragem tentar fazer o contrário. Tenho tentado me esforçar em recuperar o exercício quase agônico — de tão surrado e maltratado como o patinho feio da opressão — da intimidade burguesa. E, que ao meu ver (e pela minha formação pessoal e idade) faz muito bem em certas horas. Deste modo não tenho suportado e nem dado nenhuma abertura às outras intimidades conflitantes de ficarem à cada minuto jogando lixo psicológico no meu espaço pessoal. Sei do quanto é quixotesco o esforço de fazê-lo e parece antiquado não querer se expressar, afinal, parece-me um truísmo engendrado pelo hábito que se expressar em meio digital sempre faça bem.

O texto parece incompreensível à vós?! Pois, bem, que seja. Espero dos meus leitores um dicionário em mãos e um aplicativo de significados. Afinal, somos todos estrelas possíveis e escritores em potencial segundo o hábito consolidado à forma de cacoetes de expor cada unha do pé torta ou mínima insatisfação ou ‘opressão’ pelas redomas de vidro que são a internet. A internet, é sim um espaço de saco de bolha que sufoca a vida pessoal de quem consegue se recolher aos seus aposentos. Até mais porque, por mais incríveis serem suas possibilidades, ela ( a senhora dona internet) não altera o modo como se vive uma vida pela força do relato ou da contestação.

Do mesmo modo, mostrar as partes grotescas de sua intimidade não deveria ser glória à ninguém. Ao mesmo tempo, poder denunciar algo que nem sempre acontece (tudo pode ser um conto da carochinha ou verdade, a fabricação de opiniões absurdas e relatos fantasiosos é algo constante neste meio como se sabe) e não gera mobilização em qualquer medida real de muitas pessoas. A rede social é um tipo de entretenimento que se assemelha ao complexo da Caverna de Platão em um sentido tão literal que chega a ser ofensivo em seus modos de criar realidades. E os culpados? Nós mesmos criando uma rede de modos poéticos e comprometidos com a política, fantasiando uma vida que não necessariamente é aquela que levamos.

Existe muita hipocrisia por aqui ao contrário do que se postula aos brados por meio de estudos, mensagens e modos de se dizer que a internet permite aflorar todo o ser humano em suas partes mais recônditas ou mais escancaradas, o seu desejo reprimido etc etc. Sabe como é o que me parece ao dizer-te que há uma mensagem verdadeira em cada teclada, em cada toque ou letra e que as lutas de classes todas estouram aqui? Uma imensa falta de senso considerando que internet é um serviço pago e que costuma ser caro aos bolsos terceiro-mundistas.

Me assusta demasiado que tenhamos um mundo sem urbanismo, arquitetura toda desconjuntada em espaços saudáveis de convivência e uma explosão populacional — que segundo alguns vem diminuindo -; mas independente deste ambiente real sejamos obrigados a nos concentrar em um espaço outro. Afinal, o exterior já não nos basta. Não que estejamos falando de propriamente algo sobre a situação natural, de plantas, pandas etc. Apenas estamos constatando que uma cidade como São Paulo tem suas peculiaridades de construção e é erguida por uma expansão geométrica em suas proporções.

De outro modo há modos pouco saudáveis de se enxergar a vida que vem se configurando como coisas normais ou desejáveis e que, por vezes, são admitidos apenas pelos mais parvos ou dos modos mais toscos possíveis. Onde ter um teto é menos importante que ter um jogo eletrônico de última geração. Porém, estes fenômenos tem pouco a ver com a internet, na verdade. Eles só se oficializam de forma escancarada neste ambiente. Afinal. toda a ‘diversidade’ desponta por aqui. Embora eu ache quase venenoso falar de diversidade em um ambiente tão marcado por atitude identificáveis como é o espaço virtual.

Like what you read? Give Pedro Centurión a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.