Monogatari: o repositório do Kitsch japonês.

O primeiro ponto a se notar sobre os detratores de Bakemonogatari: eles tem uma percepção da série como um todo reservada aos fãs mais atentos. Os caras pensam milhares de vezes em seus argumentos para rebater apenas um dos aspectos da série. Qual é esse aspecto? Simples: Monogatari Series é pretensioso. Sim, é pretensioso e, por vezes, ele tem a profundidade de um pires. É diversão pseudo-intelectual, mas ainda sim é diversão e que dá o que falar em aspectos polêmicos.

Também é coisa de tarado e tem muito fã-service velado, (eles dizem). Eu acho que é descarado mesmo: ou alguém acha que Monogatari Series tenta tanto assim disfarçar seu aspecto comercial e de mau gosto?! Há outros elementos muito característicos de Monogatari Series. Primeiramente: sua identidade visual minimalista.

Em segundo luar, mas não menos importante: sua característica sumamente literária. Resultante, em grande parte, de ser a adaptação a adaptação de uma obra de Light Novels (romances ilustrados) do autor Nissio Issin. E a que é o foco do nosso texto aqui: outras marcas que lembram a alta cultura misturada com um gosto popularesco mais voltado ao pop que o popular de raiz. Especialmente no que diz respeito ao mau gosto da série.

Monogatari Series é, ademais, conhecido por seus longos diálogos e cenas pesadas misturadas com fã-service gratuito e outras coisas menos apetecíveis mesmo ao público japonês mais preocupado com a etiqueta do bom-gosto. Coisa que certamente não deve afetar as vendas de Monogatari Series: os BD de Bakemonogatari e suas outras temporadas tiveram vendas expressivas.

É sempre bom lembrar que Bakemonogatari em 2009 teve expressivos 39 mil BDs vendidos e a as vendas totais (BD + DVD) chegaram ao patamar impressionante de 58 mil unidades vendidas. Sendo que seu primeiro volume havia vendido ao total 56 mil cópias. Isso se restringindo ao mercado nipônico. Parece que a série tem um enorme apelo comercial por lá.

Antes de passarmos ao texto em si temos mais umas informações interessantes: Bakemonogatari é uma série que os japoneses tem vergonha de admitir que assistem. Estando em nono lugar segundo uma pesquisa feita com o publico nipônico sobre quais séries seriam as mais constrangedoras de admitir que acompanham. Logo acima do moe blob genérico Girls und Panzer. Vai entender?! Se bem que é compreensível. Bastante compreensível até.

Bakemonogatari , pela lógica dos fãs japoneses, é um guilty pleasure. E que, pelo meu argumento, dá para assumir como gosto pessoal sem passar por punheteiro, na maioria das vezes. No máximo te faz o “diferentão” e chato do grupo de amigos nerds. Assim anuncio orgulhosamente que farei (finalmente) uma resenha completa criticando Monogatari Series em todas as suas partes ruins, mas isso não faz dessa série excessivamente longa menos prazerosa de se acompanhar. Ele continua sendo um produto comercial acima de tudo.

Há algo interessante sobre crítica de arte: seja ela feita pelos consumidores diretos ou por críticos especializados: as pessoas acham que os aspectos comerciais são sempre denegridores dos bons aspectos da obra. Na verdade, este é um truísmo e dos piores e mais sedutores do que se chama de crítica. É uma sina da crítica de alta cultura que passa até mesmo para séries mais comerciais possíveis. Coisa que grudou na obra em questão como chiclete.

Para falar a verdade, por mais que essa crítica tenha sua razão de ser, em geral, o que se utiliza é apenas o superficial disso tudo: o julgamento de valor puro com intenção de denegrir algo por ser pouco apreciável aos espíritos mais delicados e sensíveis. O aspecto vendável não há de ser eterno. Onde existe maldade em querer vender um produto com claras intenções comerciais? Isso me confunde bastante. Não necessariamente um produto de qualidade razoável, boa ou algo criativo precise ser algo eterno. Daí outro problema com quem curte e com quem critica. Todo mundo assume que isso seja verdade imediatamente. Não é.

A verdade é que este é um outro ponto muito polêmico e chato de se discutir e eu não pretendo girar minha discussão em pequenas minúcias de alta-cultura e bom-gosto. Pretendo apenas apontar como o mau gosto é elemento intrínseco da série. Assim, esta crítica é mais uma análise da experiência em assistir Bakemonogatari e seus derivados como consumidor e espectador.

Eu não sei, mas eu acho que ficar analisando o estado de arte de um desenho desperdício de tempo total e energia que poderiam ser investidas em coisas mais concretas como: para quem a obra se dirige?; ela é uma obra divertida?; ela pode me ofender?; eu devo assisti-la, mas por quê?!; etc etc. Qual o objetivo em falar de filosofia em cima de um desenho? Pagar de intelectual? É meio bizarro isso.

Talvez, isso demonstre pouca aptidão ou inclinação para ler um livro como A Montanha Mágica e/ou Ulysses , ou seja, a falta de vontade total em explorar estes “produtos” mais antigos e de alta cultura real que foram feitos para serem eternos. Não entrando no mérito da questão do ensino, o foco aqui é entender como um mero produto feito para vender e sustentar um autor pode ter valor tão absoluto. É até absurdo pensar que ambos fãs e detratores valorizem tanto uma obra que é feita de forma a vender acima de tudo. Li as mais loucas teorias sobre o assunto, mas retomemos o foco do texto.

Basta dizer que classificar algo como desconstrução ou obra literária ou artística dá status para o que consumimos. A questão aqui é mais: é divertido? É bom como entretenimento? E não tanto as questões mais recorrentes para o extrato mais intelectualóide da otakada que adora dar uma classificação baseada em crítica literária ou de cinema aos seus desenhos. Certo, a arte sequencial e seus derivados podem ser arte, mas dá para apreciarmos obras para além de suas pretensões mais sérias. Do contrário, qual o prazer em ver um filme ou ler um livro?

Eu não sou destes relativistas que gostam de enxergam posições geopolíticas em uma obra como Senhor dos Anéis e explicar a posição dos países da guerra por meio das alianças de Valfenda, Mordor, etc. Por mais interessante que esse tipo de análise seja vou usar o velho clichê de que se uma obra pode ser resumida ao seu significado alegórico estamos perdidos. Este é um elemento apenas de uma obra. Do contrário estaremos enredados em textos políticos disfarçados de contos, crônicas, etc. O valor de um texto tão intrinsecamente alegórico e fechado em seu santo-e-senha dá a dimensão de um discurso mais político que artístico.

Não estou sendo tradicionalista ao dizer isso. Nem nego o valor deste tipo de análise, mas aponto para o compromisso mais social do que de fruição da obra. É um tipo de apropriação da obra como disse Ítalo Calvino em seu romance Se um viajante numa noite de inverno (Companhia das Letras, 1999). É um pensamento enviesado para lançar luz sobre um modo de se ver o mundo à partir da obra dos outros. É mais uma justificativa para ler do que a fruição da obra em si. A leitura descompromissada pode ser mais frutífera que a mais acadêmica das leituras. É esta a argumentação de Calvino.

Eu não diria que é covarde fazer esse tipo leitura comprometida com idéias e não com a obra em si, mas eu diria que é desonesto esse tipo de atitude. Fora que mata o fator mais importante de uma obra: seu prazer estético e de entretenimento. Literatura e arte são entretenimento segundo os teóricos mais sérios, pasmem.

Além do que, o que esse tipo raciocínio faz é negar o valor intrínseco da obra de arte como símbolo plurissignificativo. A atitude quase científica de destrinchar uma obra conforme uma visão política tem vontade de dar uma interpretação absoluta de uma obra por enredá-la em um tipo de classificação e taxonomia. Ela vira reforço de um grupo ou um modo de vida. Daí a literatura ou a arte perde seu valor de obra e vira panfleto.

Daí que surgem as críticas mais expressivas e desconcertantes ao tipo de obra que Monogatari Series representa. São análises morais comprometidas com uma boa ou má mensagem política. Um bom ou mau exemplo. É tentador e é seguro. É um tipo de educação à serviço de um tipo de pensamento e moral. Não vou dizer que é perigoso. No espectro da educação dos filhos pode até ser válido dar um livro de contos de fada com finais modificados ou ler apenas aquilo que reforça nossa crença em um determinado modo de organização política e social.

Muito do movimento feminista fez isso de forma genial reescrevendo histórias do folclore para dar maior representatividade feminina. É reconfortante e dificilmente lemos literatura que possa destruir ou abalar nossas convicções. Simplesmente é mais seguro e dá um papel prático para uma obra. Mas e quando essa obra só se importa com os aspectos fúteis da estética ou do entretenimento?

Continuam sendo opiniões. Este tipo de discurso sempre existiu e naturalmente vai existir. É um tipo de auto-afirmação de identidade. A questão é que quando falamos disso estamos dando valor ao produto como possível corruptor de uma pessoa ou um determinado grupo. Queremos fechar os olhos dos outros à algo que nos parece monstruoso.

Queremos queimar idéias, afinal, elas tem consequências e negar ideias à literatura seria reduzi-la à mera inocência plácida de produto contemplativo e subversivo separado do mundo. Nem no Romantismo isso se provou uma verdade. A questão é: quem quer saber disso ao consumir um ecchi com longos diálogos expositivos e sugestivos, cheios de gags, truques de câmera e diálogos instigantes. Monogatari Series é jogo, é diversão. Para gente pretensiosa, diga-se de passagem, mas continua sendo divertidíssimo.

Este é um gosto pessoal meu e eu posso ser julgado pelo gosto que tenho, mas eu pouco me importo. Quero ser livre para fazer um rol de obras fundamentais mesmo que elas sejam consideradas de mau gosto ou mesmo que sejam esquecíveis pelo seu valor de obra de arte. Contanto que seja algo que me divirta está valendo. É interessante notar que a crítica mais retumbante à Monogatari Series é aquela que se alia aos princípios do julgamento de valor: do belo e feio, do moral e imoral, do valor verdadeiro x questões fúteis com cara de coisas profundas.

Monogatari dá o próprio estofo de coisa profunda, mas seu interior é espuma de móveis populares. Ele é um tipo de Kitsch. Ele é baseado no mau gosto e na pretensão de ser filosófico, ele reforça tropos ruins e dá mensagens erradas. O valor dele é comercial e é pelo choque. Diga-se de passagem que a cena da escova de dentes(ah, aquela cena!). é apresentada depois de um arco super bem construindo sobre uma personagem interessantíssima só para sexualizar desnecessariamente a personagem em questão.

Não há um significado mais profundo, e se havia profundidade naquilo tudo, dizem os críticos mais virulentos e provocados, é tudo em vão. Essa cena, por sinal, merecia uma postagem inteira só para provar como ela é gratuita e pornográfica. Ponto para os críticos que observaram o anulamento de vários episódios em apenas um. Aliás, esse episódio tem uma cena só e é esse fetiche com uma escova de dentes.

E ainda tem gente que quer levar à sério e se dá o trabalho de ficar criando pelo em ovo para uma cena tão desnecessária. É engraçado como esse tipo de coisa vem aos montes na série, mas a cara-de-pau do autor de mostrar isso provocou os mais sensíveis num ponto meio inimaginável. O episódio todo é um filler desnecessário. Neste quesito fico do lado dos detratores, apesar de saber que essencialmente o diretor sabia o que fazia quando fez aquela cena infame.

Monogatari é fanservice com uma vontade de ser obra de arte. É isso que podemos tirar dessa cena. Ponto final. Válido, mas eu não dou um puto para o fato de ser mau gosto aliado à pretensões intelectuais, com diálogos sem sentido e jogo de palavras. É isso que está no cerne do estilo de Nisio Isin (um acrônimo e não um nome de verdade). Eu gosto desse tipo de diversão. Sou um hipster em essência. A questão é que no Japão Monogatari não é coisa de hipster: é a sensação do momento: é bestseller.

Aqui no ocidente a série é coisa de nerd metido a acadêmico (como eu) que quer discutir o significado da vida diante do intrínseco mau gosto que a série emana em cada um dos seus aspectos. Essencialmente a série não passa moralmente algo positivo e nem nada do tipo. Este é o argumento total e fecha a questão de que Monogatari é SIM Kitsch. Bakemonogatari tem um ótimo desenvolvimento e apresenta os personagens de forma humana, mas Nisemonogatari faz isso parecer absurdo e quebra toda aquela construção e dá o que punheteiros querem ver.

Um resultado de diretores diferentes diante de uma obra tão longa como a do autor discutido. Cada série tem uma direção diferente que é feita por meio de tropos criados no primeiro arco da série. Um estilo minimalista e que tem alguns elementos que lembram o cinema novo mais que outros animês: cortes bruscos, simbologia excessiva, etc. Há quem sustente a influência da Nouvelle-Vague na obra e com excelentes argumentos. A obra está envolta em dubiedades e sinais falsos fazendo-a uma diversão bastante complexa de separar o que é verdadeiramente importante ou não ou simplesmente se deliciar com a obra e experimentá-la.

Antes de prosseguirmos basta elucidar alguns pontos sobre o caráter indubitavelmente pornográfico. Não de sexo hardcore, mas de softporn (ecchi). A obra toda é ótima para uma punhetinha se você for tarado demais. A cena da escova é um ótimo filme de internet para fazer entender que a série apesar dos pesares quer arrancar uma reação física do espectador. Caso o espectador seja depravado o bastante para consumar o ato.

Mas a doença de quem pratica isso não me interessa aqui. Cena gratuita e de mal gosto com ares grandiloquentes. Puro mau gosto. Repito: pornografia com toques de arte. Não é à toa que o fandom da série é medonho. Por mais que ame a série, não há como defender certos aspectos de Monogatari:

a) Troca de sexos entre personagens só pelo fetiche em si

b) Assédio sexual vindo das duas partes

c) Lolicon que come solto

d) Tsunderes pra todo lado

e) Relações abusivas que são glorificadas

Tem uma infinidade de coisas para o esquadrão dos direitos humanos darem uma olhada e os grupos de representatividade se ofenderem. Desintoxicar o romantismo dessa série é uma trefa árdua e as falsas noções de amor, mas realmente, há necessidade de fazer limpeza moral aqui? A série em si não é uma produção nem obra séria. Nada disso daria mais importância ao fato de que a série fala de estupro, abuso doméstico e outros temas delicados em meio à toda sua loucura e promiscuidade sexual.

E que, aliás, são tratadas de maneira interessantíssima, mas apesar dos pesares o peso destas temáticas fica comprometido com a outra faceta tão criticada da série. Embora, eu ache que o experimentalismo da série provoca mais que as questões morais aos seus detratores. Na mesma medida que ele trata de coisas sérias de forma delicada há o aspecto mais vistoso: as mensagens erradas. O que poderia resultar no argumento de uma série com valor em certos momentos, mas que se perde na sua mensagem. Isso seria levar à sério em demasia Monogatari e seus trocentos livros.

É uma série que apesar das temporadas curtas tem pelo menos 23 novels japonesas listadas na Wikipedia e umas oito temporadas de pelo menos 11 episódios. Ou, segundo a mestra wikipedia, são 3 temporadas. É confuso mesmo. E a confusão dessa ordem dos acontecimentos é proposital. É para vender e dar mais chance de se contar pequenas histórias que não foram contadas antes.

Enfim, tirando os detalhes técnicos é uma série com pelo menos 87 episódios. A série toda é construída de forma a ir fazendo mais buracos que dando respostas e tem uma lógica de consumo pelos detalhes ínfimos. É um planejamento de marketing cabuloso para vender um produto que vai dando mais e mais importância para coisas ínfimas. A história é curta e o autor tira leite de pedra.

A questão é que como produto ela é excelente. Criou-se um culto em cima da série. Ela é mais um cult que um clássico e não para de se lançar coisas para ela. O autor é um verdadeiro monstro de produtividade. Tem um nome pra isso: prolífico. Calcule que a série está sendo produzida em animação desde 2009. A série em si tem muita coisa divertida, mas ela não tem real compromisso com nada.

Eu não recomendaria ela para um ativista, assim como eu daria apenas Nisemonogatari para um fã de ecchi hardcore. Embora. se ele fosse um típico punheteiro ele ia dropar a série pelos enormes diálogos. Não adianta, é uma série de nicho. Ainda assim, ela tem seu apelo comercial forte no Japão por causa de seus fetiches.

E, sinceramente, eu adoro essa série e eu quero que quem não goste, pelo menos, seja decente de entender que há quem goste e tenha ótimos motivos para isso. Bakemonogatari isolado é uma série que dá a dimensão errada da série toda. Ela é a melhor de todas até agora, mas ainda assim é uma série que não tem o mesmo apelo tresloucado do Owarimonogatari e ou o apelo sexual exagerado de Nisemonogatari.

O autor viu que outros aspectos demonstravam melhor o quanto a série poderia vender. Ele mudou seu foco, mas continua sendo a mesma. Ela é a concentração de tudo aquilo que há de mais febril na indústria hoje em dia. Ainda assim, é uma série com suas qualidades. Ela é um pot-pourri de elementos de mau gosto e fetichismo aliados à uma pretensão filosófica de bar.

E ela é ruim por isso? Depende: se você realmente acha que um desenho com lolis, tsunderes, mulheres do espaço, etc com diálogos minimante inteligentes ou demasiadamente longos pode ser levado à sério para ter seu ódio, talvez, não. Se você é um punheteiro ela pode ser bastante frustrante por levar em conta minimamente as garotas como seres humanos e não peitos infláveis em mini-saia. Se você ofende com qualquer coisa de errado, também, é delicado. É uma série que tem potencial pra todo mundo odiar, de fato.

A direção da série muda constantemente e o autor é um dos mais produtivos da atualidade. Fazendo assim um daqueles casos em que a série vende detalhes de uma história que mais ou menos está fechada. Ela está estruturada do jeito que está para ir acrescentando detalhes em cima de detalhes. Sendo este um dos aspectos mais irritantes para quem gosta de histórias sumariamente pelo seu conteúdo e não a sua forma.

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