Pena na mão, ódio no coração:

Estava fazendo um texto ontem que gostei muito e que ia continuar hoje. Talvez, por melhor que ele seja eu o deixe no meio e, quem sabe, eu o apague. Embora, eu ache que o texto tenha algo de bom, pelo visto, não há porque escrever quando as pessoas sabem o que você está escrevendo. A sabedoria de quem escreve muito começa a me mostrar que vale mais um texto na gaveta como projeto para refazer à vontade do que publicá-lo. Às vezes a gente espera compreensão das outras pessoas. (Ledo engano, eu deveria lembrar o que o colégio me ensinou sobre como ninguém em absoluto merece confiança em qualquer nível, especialmente aquela de um confessor). Novamente, cumpre o papel mais importante é o sentimento e não a racionalidade em dizer quando não vale dizer, escrever e nem compartilhar as coisas. (Digo isso enquanto teclo nervosamente as letras do alfabeto). Eu teria mais o que dizer neste caso, mas eu acho mesmo arriscado mostrar as coisas para os outros. Acho que não devo desculpas a ninguém (especialmente quem sabe do momento delicado pelo qual estou passando e faz questão de agir de má-fé para não ser perturbado). Quem sabe (oras!) nada do que eu faça preste mesmo e eu finja saber escrever. Ao modo de Emily Dickinson — “Finge ser poeta, mas não é!” -; ninguém a considera sem um pouco de desgosto pela sua pretensão do que não é.

É quase certeza que sim. “Nem boa pessoa, nem bom escritor sou, já lhes disse.”. Batuco a mesa com frustração e experimentando meu novo estilo: “Moda passageira à maneira muito pessoal de achar que uma nova expressão cumpre o confessional de maneira poética. Desisto de sentir e pensar que as pessoas sentirão ou se importarão. Não importaria tanto se eu pudesse não me importar. Tenho esperança e fé que algum dia as pessoas se importarão um mínimo com as coisas e me lembro de que isso é ledo engano. (Lembro de um catador de papel contando sua história para mim, enquanto eu olhava o meu relógio. Ajudamos ele a recolher o lixo, mas não importava o que ele dizia. Importava minha impaciência, tão real). Talento é algo que me falta no mais simples dos gestos”. ‘Conto de terceira categoria’; ‘texto excessivamente longo e espremido nos olhos de tantas letras’; ‘complicador de textão’. Só para enumerar o que me vem à cabeça sem terem dito, mas tenho certeza que pensam. “Ah, como as pessoas são generosas em manter seu silêncio” (ouro!). Movimento a cabeça em cumprimentos de desculpa e perdão, mas paro o meu pescoço quando lembro da frustração pessoal e da falta de empatia dos outros. Lembro que não tem nada melhor do que foder outra pessoa para garantir seu espaço. Rio com uma maldade característica de uma confiança mambembe e penso destruir algo meu de valor só pelo impulso masoquista de me provocar prejuízo e ferir uma parte qualquer do meu corpo. Afinal, eu preciso pedir para que os outros leiam. Ou quem sabe ler não valha à pena, assim como escrever seja uma perda de tempo. (Só sei que tenho ódio).

Não basta dizer que tenho a força de mil homens quando mal aguento o peso da consciência. (E ela pesa mais de uma tonelada, por vezes. Outras ela não existe [a consciência]). Dizer ser adulto para se desculpar das faltas é fugir ao estado das coisas. ‘Recolher os sentimentos’, além de clichê, é um problema de confecção de uma imagem que me faça palpitar ardentemente como as coisas estão e serão. (Eu acho!). As certezas são uma efemeridade; fútil é aquele que acredita na permanência de trovões e pássaros ao se movimentarem por aí. Observe o céu de São Paulo um dia destes e veja como ‘o seu sonho mais intenso se desfaz’. (“Ao modo das nuvens”, devo dizer para facilitar a compreensão?). Cumpre dizer (devo dizer, aos leigos do meu coração) como uma fogueira se desfaz com água, com o pé de um elefante vestindo um calçado humano e com qualquer coisa bruta que cumpra o papel contrário, porém, potente de uma pedra a acender uma fogueira. O processo reverso se faz na mesma base. Basta dizer que um sílex cumpre o papel de fazer uma fogueira pegar fogo com potência e o medo (ingrediente indispensável à infelicidade e à paralisia pessoal diante do ‘eu’ e que desvela-se como texto aos nossos olhos); àquilo que se faz de texto. Como apagar um texto da existência? (Queria saber, talvez, não escrevesse caso soubesse de todo). Saber que não valha à pena se escrever, morrer um pouco mais do que se morreu nessa caminhada. Acho que a única arma que tenho é a ‘letra e a canção’ ou melhor: ‘a pena do alazão’, já que não sei nem ensaiar um acorde de três tons ou fazer valer uma melodia das mais simples sem arruinar seu ritmo. (Sou uma cacofonia ambulante, por isso não danço nem canto).

Para dizer a verdade, o que mais quero é casar com minha produção todo dia que estou cambaleando pelos fatos esmagadores e não tenho força de fazer valer minha vontade. Mesmo que ninguém ouça (Quem dera!) ainda quero fazer valer minha existência para mim. Consigo mesmo é o que vale fazer acontecer. (Será?) Colocar um terno de giz-riscado ou amarelo-banana, junto com um sapato de apresentador ou dançarino. Cantar uma canção brega só para fazer um flagelo se cumprir (essa mania masoquista minha) e, quem sabe, fazer com que as luzes se apaguem de vez. Ou, ainda, fechar o bar e o karaokê pelo acorde malfeito, pela voz de taquara rachada e a mão pesada da raiva. Fazer um verdadeiro arrasa-quarteirão do mau-gosto próprio e da falta de amor pessoal. (Dizer que compaixão me basta a da Bíblia que apenas li as passagens iniciais do velho testamento). Terminar uma festa e arruinar a vida de alguém, quem sabe seja bom. (As pessoas parecem gostar bastante, até demais). Nunca experimentei. Tenho medo de sair de terno, assim escandaloso como estou (sou), levando dois CDs em baixo do braço e um laço na mão apertado. Sapatear na noite de São Paulo seria ser vítima da violência de uma borrachada na cara e no baço, e no saco (para deixar de ser ‘viado’). Agonizar no meio-fio sozinho seria bom assim?! “Só sei que cantei mal”, digo com um misto de amargor e resignação antes da ambulância me levar.

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