Reflexão brasilianista: O Dia do Fico

No último 09 de janeiro de 2017, passou-se completamente despercebido os 195 anos do “Dia do Fico” — data esta que deveria ser cara e preservada na memória nacional.

Logo após a Revolução do Porto (1820), o recém instaurado governo revolucionário convoca as Cortes Gerais e Extraordinárias com vistas a compor uma comissão para elaboração de um texto constitucional para o Reino Unido de Portugal, Algarves e Brasil.

Em 1821, é promulgado o texto “Bases da Constituição” (link) e a Família Real retorna à Portugal, deixando D. Pedro como regente no Brasil.

As posições para reduzir a autonomia concedida ao Reino do Brasil ganham preponderância. Naquele mesmo ano, são editados os Decretos das Cortes de 29 de setembro visando o retorno do Príncipe Real e a extinção dos tribunais.

Nos artigos 128 a 132 da Constituição Portuguesa, aprovada somente em setembro de 1822, portanto posterior aos eventos descritos, vê-se de forma clara como a administração executiva do Reino do Brasil estaria completamente submissa ao governo português — link.

Diante disso, a elite brasileira passa a se organizar para prevenir o regresso à condição colonial. O Clube da Resistência é criado por José Joaquim da Rocha, com apoio dos Andrada.

Jornais e folhetos passam a criticar as resoluções das Cortes e conclamam a permanência de D. Pedro.

José Bonifácio escreve a D. Pedro, com vistas a convencê-lo a não acatar a exigência das Cortes, dizendo que “além de perder a dignidade de homem e de príncipe, tornando-se escravo de um pequeno número de desorganizadores”, seria responsável “pelo rio de sangue que decerto vai correr pelo Brasil com sua ausência”.

Ainda, notando que seu marido se decidia por partir, Dª Leopoldina passa a integrar as articulações, com apoio da Corte de Viena, para garantir a permanência de D. Pedro, entendendo se tratar do “único meio de preservar a monarquia portuguesa de seu total colapso”, como escreve ao Marquês de Marialva.

Pressionado, D. Pedro contraria as Cortes e decide pela permanência no Brasil, culminando na primeira vitória daquele ano em favor da independência e da soberania nacional.

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A imagem abaixo consiste na reprodução do quadro “Sons do Hino da Independência”, de Augusto Bracet, encomendado em razões do Centenário da Independência. Nele consta D. Pedro I executando no cravo o hino que compôs em parceria com Evaristo da Veiga (ao fundo).

Este último, nos versos originais do Hino (mutilado após os eventos de 07 de abril de 1834 e da proclamação da República), mencionava os eventos do Dia do Fico: “O Real Herdeiro Augusto / Conhecendo o engano vil / Em despeito dos Tiranos / Quis ficar no seu Brasil”.

“Sons do Hino da Independência”, de Augusto Bracet