Como foi fazer um TEDx

Fazer um Tedx foi um dos grandes momentos da minha vida, e foi porque vivenciei um dos maiores aprendizados que tive até o momento. Tinha que falar em até 18 minutos sobre um assunto que eu dominava e que pudesse deixar algum aprendizado ou lição. E a pergunta que me martelou e me martela até hoje é: “o porque eu?”. Depois de ter feito o Tedx, quis compartilhar a jornada de como foi montar um Tedx do zero.

Toda apresentação começa ao receber o convite, e esse momento foi quando recebi uma ligação do um amigo de Uberaba, pedindo indicações de palestrantes para o Tedx. O único direcionamento foi “alguém que inspire e tenha passado por uma metamorfose”. Ao terminar a conversar mandei uma lista com alguns nomes que achava legal. Não tive nenhum retorno dos nomes indicados.

Duas semanas depois esse mesmo amigo liga mais uma vez e faz algumas perguntas sobre mim. Quando acabei de falar, ele me perguntou “E quero que você seja um dos Speaker do Tedx de Uberaba. Anima?”.

Nada passava em minha cabeça a não ser “O porque eu?”

Perguntei várias vezes para ver se minha ficha caia ou para ver se não era engano. Antes de desligar fiz uma última pergunta: “ Você tem certeza que eu sou quem você procura?.” A resposta foi imediata, “Tenho 100% de certeza de que você é a pessoa certa”. Depois dessa resposta fiquei mais tranquilo. E tinha dois meses para criar um Talk de até 18 minutos.

A pergunta “O porque eu?” ficou na minha cabeça por muito tempo. Não tinha nenhum sentido eu estar no círculo vermelho falando diante de várias pessoas. Eu não era merecedor de estar diante da câmera. Eu não tinha nada para falar. Não tinha passado por nenhuma metamorfose, não tinha superado nenhuma deficiência, nenhuma condição sociocultural, não sofri nenhum tipo de preconceito, não inventei nada. E aquela pergunta não saia da minha cabeça.

Diversos assuntos passaram por minha cabeça para falar, porem nenhum deles eu tinha propriedade suficiente para falar. Durante uma conversa com um Professor da Perestroika — escola onde eu trabalhava — e um grande amigo, falamos sobre vários assuntos que eu poderia falar no palco. A ideia final foi juntar millenials, jornada do herói e minha história pessoal. Adorei, mesmo sem saber com ia unir todos esses assuntos.

Conhecia diversos assuntos, porem não tinha profundidade em nenhum deles a não ser minha historia para poder falar em público. Para ver se meus pensamentos e conceitos estavam no caminho certo marquei um papo com o meu mentor. Ele focou muito pouco no raciocínio, e me mostrou muito mais sobre como fazer um Tedx e o que estava por trás do processo de construção de um talk.

Fiquei de definir uma linha mestra em duas semanas antes do próximo encontro. Todas as associações que tinha feito entre millenials e jornada do herói eram ruins, nada fazia sentido. Nem estava pensando ainda como colocar minha historia em tudo isso. Confesso que bateu o primeiro desespero/frustração.

Até no domingo antes da reunião não tinha nada legal para apresentar. Aí decidi estruturar meu processo criativo. Peguei post it, caneta, musica clássica, e comecei a escrever tudo que tinha pensando até então. Coloquei o Golden Circle em prática, desenhei todas as etapas da jornada do herói e comecei a formar umas teorias, meio bizarras no começo, mas que no final convergiram em algo legal, ou pelo menos tinha um sentido.

Depois de processar tudo que tinha pensado, achei a linha mestra que estava buscando. Tudo estava pronto na minha cabeça; só precisava fazer o ppt. Mas me contive em abrir o PowerPoint e só usei o bloco de notas. Anotei tudo que pensava, e ia me forçando para conectar tudo que ainda estava sem amarrar. Até que no final tive um primeiro esboço do que seria minha linha mestra.

Apresentei tudo que tinha feito para meu mentor. Tinha certeza que ele ia adorar o conceito e, portanto, estava super animado. Ele gostou bastante, porem queria ver mais teorias. Era muito arriscado trabalhar em cima de uma linha só. O melhor dos mundos seria ter pelo menos umas quatro ou cinco linhas mestras para poder escolher, juntar, convergir e montar a melhor apresentação possível.

Fracasso, tudo que passava na minha cabeça. Tanto com meu mentor quanto na esperança de ter um Tedx foda.

Confesso que fiquei meio sem norte, mas não podia perder muito tempo, porque estava correndo contra o relógio. Numa quarta-feira a noite, peguei meu caderno e começar a anotar todos as frases de impacto que me passavam pela cabeça sobre millenials. Consegui fazer uma lista de umas 14 frases. Tinha volume, mas não qualidade.

No sábado me tranquei no quarto e comecei a fazer outro processo criativo. Agrupei as frases que faziam sentido estar juntas. Com os grupos definidos, fiz um brainstorm baseado naqueles conceitos. Não tinha ideia aonde ia chegar, se é que ia chegar a algum lugar. Só confiei no processo.

No começo estava divertido, tudo fluindo às mil maravilhas e com muitas esperanças que dali ia sair alguma coisa. Quando foi chegando na décima à cabeça, já não estava funcionando como eu esperava, e nada de uma luz no fim do túnel. Ao fazer o penúltimo conceito, me veio uma frase que me marcou bastante. “ Não temos que ter o foco no jogo, temos que olhar para o jogador”. Daí tudo fez sentido.

Ficou tudo tão claro, tão obvio que não podia acreditar. Terminei de organizar tudo e liguei para um grande amigo para apresentar o que estava pensando. Por sorte, conseguimos encontrar meia hora depois da ligação.

O processo de contar, tirar as ideias da cabeça e colocar num papel foi incrível, tudo se encaixava perfeitamente. Tudo que eu tinha me proposto a falar estava ali. Ia poder falar sobre os millenials, jogar um jogo como a jornada do herói e a história que eu ia jogar era sobre a minha vida. Tudo tão simples e ao mesmo tempo não era banal.

O jogo ia ser uma mistura de RPG (jogo que tem em sua essência contar uma historia e resolver desafios) coma um jogo de tabuleiro, tipo Banco Imobiliário. O principal objetivo é passar de nível sendo que cada personagem escolhe o desafio daquela fase. Cada jogador pode escolher uma decisão ou, caso não saiba qual decisão tomar, ele pode escolher uma carta do maço com uma decisão aleatória.

Com o desafio em mãos ele conta uma historia de como vai superar; se for convincente ele passa, se não for ele fica e espera a próxima rodada. São doze etapas ou níveis. Este era um esboço do jogo. Ele é bem mais complexo do que eu expliquei, porem mais simples do que parece. Todos os conceitos que tinha agrupado viraram regras ou dicas do jogo.

Tive uma oportunidade de encontrar o meu mentor pessoalmente, e mostrei para ele o que tinha criado até então. Durou 13 minutos. Ele gostou do conceito. Sugeriu algumas alterações, mas tinha gostado do que tinha visto. Fiquei aliviado.

Estava a duas semanas da minha apresentação, tinha um conceito, mas não uma apresentação. Por isso, decidi marcar um evento teste com alguns amigos que dominavam os conceitos do Tedx para me ajudarem. Tive que correr para ter a apresentação a tempo.

Não tinha tido muito tempo para me preparar, mas como eram amigos, não me preocupei tanto. Foram seis pessoas, sendo que uma delas eu não conhecia, porem era uma coordenadora de outros eventos do Tedx. Apresentei duas vezes para eles terem certeza do que eu estava apresentando, já que a primeira eu estava bem nervoso.

Assim que eu acabei de falar, eles começaram com os feedback. Eu só escutei. Queria saber tudo que passava pela cabeça deles, fiz algumas perguntas para poder explorar mais o raciocínio deles. Foram muitos e dos mais diversos, porem de alguma forma eles convergiam. Em conclusão, pediram para eu simplificar tudo, literalmente tudo.

Tinha saído as 13:00 de casa no sábado e voltei as 23:00 depois de acabarem os feedbacks. Não queria mais saber sobre Tedx naquela noite. E decidira que no dia seguinte ia correr a volta da Pampulha. E acho que foi uma das melhores decisões que tomei neste processo. Sair do problema por horas permitiu olhar tudo com mais clareza e conseguir ver os próximos passos.

Estava a menos de uma semana do evento e precisava mandar meus slides prontos na segunda feira para a organização. Não sabia o que fazer.

Na segunda de manhã, apresentei meu Tedx para o pessoal da Perestroika. Pessoas da área criativa e com pontos de vistas muito diferentes uns dos outros. Os insights foram muito bons, e muito diversos mais uma vez. Anotei tudo e ao chegar em casa, processei todos os feedbacks que tinha tido até então.

A estrutura e a alma do Tedx estavam ali: só precisava polir. Na verdade precisava tirar umas crostas bem grandes para ser sincero. Confesso que não tinha o começo e o final. Em cada apresentação tentei uma nova versão e nenhum fazia sentido. Isso estava me agonizando porque não tinha mais tempo para ficar criando coisas novas.

Organizei mais uma apresentação, desta vez foi na quinta feira, um dia antes da minha viagem. Tirei a tarde livre para fazer as últimas alterações e, nesse momento, fiz uma amarração que conseguia trazer toda a essência do Tedx. O começo e o final ainda estavam ruins, todos ali me deram esse feedback.

Foram ao todo 8 pessoas ali presentes. Recebi várias sugestões de alterações que precisavam ser feitas. Agora sim, era um polimento o que me deixava mais tranquilo. Mas aquele começo e final estavam desconexos.

Ao final daquele evento, a organizadora do Tedx UFMG me falou “pode ficar tranquilo, você tem um Tedx. E não é qualquer um, é um muito bom”. Fiquei bem mais tranquilo, mas sabia que ainda muitas coisas precisavam mudar nas últimas 24hs antes da viagem.

Ao chegar em casa fiz a apresentação para meu tio por Skype para ele dar algumas dicas. Ele deu os mesmos feedbacks que o pessoal: sinal de que tudo ia para o mesmo caminho. Porem algo que ficou dessa conversa, foi uma analogia que ele usou no final que fechava tudo perfeitamente:

“Se você não tiver um norte, seria como se você tivesse em um veleiro e não soubesse para onde ir. Ventos iriam passar do seu lado e você não iria fazer nada com eles já que não sabe para onde quer ir.” Essa frase era uma excelente analogia para minha conclusão, era o que faltava para terminar de amarrar a estrutura da apresentação.

A sexta feira da viagem e um dia antes da apresentação era feriado, então pude concentrar o dia inteiro nos finalmentes e em escrever o roteiro da apresentação.

Antes de viajar, fiz um último teste com minha irmã e gravei para mandar para o meu mentor e para a organizadora do Tedx UFMG. Assim que acabei a apresentação, minha irmã, sugeriu de começar e terminar com “o porque eu?”, o que fazia sentido tanto no começo como no final. Aquelas palavras se encaixaram perfeitamente na fala. Fui direto colocar no roteiro.

Depois de todas as modificações, arrumei a mala, e peguei o ônibus. Minha irmã foi comigo para me dar apoio e ter certeza de que eu ia subir naquele palco. Não sou daquelas pessoas que dorme em ônibus, mas, para minha sorte, consegui apagar e cheguei inteiro para a apresentação.

Ao chegar em Uberaba, deixei as coisas no hotel e fui direto para o espaço do evento. Ter treinado no auditório e estar no palco, me aliviou bastante. Tive a oportunidade de apresentar para algumas pessoas que não me conheciam e não sabiam nada do meu Tedx. Eles adoraram. O alívio que tive foi enorme. Agora só faltava subir no palco e falar diante de todo mundo.

Eu fui o décimo primeiro de 12 palestrantes, só para me deixar mais nervoso do que eu já estava e eu não lembro nada da minha fala. Tive branco total dos 15 minutos do palco. Só me reconectei quando o apresentador pediu para eu voltar e receber os aplausos.

Uma vez que passou o Tedx, consigo olhar para o processo com mais clareza. O que ficou mais marcado para mim foi o aprendizado. Parece irônico falar disso, porque em teoria, quem está apresentando é quem supostamente ensina, mas na verdade fui eu quem mais aprendeu. O olhar para fora para ver o que eu poderia ensinar, depois olhar para dentro e ver o que fazia sentido para mim e, assim, escolher o assunto, foi uma jornada de autoconhecimento sem precedentes.

Mostrar algo que ainda não está acabado nos coloca em evidência, mostra todas as nossas imperfeições. Por causa disso, nunca gostei de compartilhar o processo. Tudo mudou quando entendi que fazer um Tedx não era sobre o que você sabe, e sim sobre o que você pode aprender. E quando essa mudança de chave veio, foi quando comecei a compartilhar tudo que tinha feito e comecei a escutar. E o que aprendi nessas últimas duas semanas, foi muito mais do que aprendi nesse mês e meio sozinho.

Este foi um pouco do que aconteceu com o meu processo de criação e os aprendizados que tive com um Tedx. Acho que o maior aprendizado não é o que se transmite no círculo vermelho, e sim o aprendizado que se extrai no processo de se chegar até ele. E como ele não aparece no vídeo, quis compartilhá-lo de alguma forma.

Espero que gostem do Tedx.

Beijos e abraços.

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