Requiem para uma bolha


Pirou!/ Minha cabeça/
E o coração/ Feito bola de sabão/
Me desmancho por você

Babado Novo


Adalberto havia terminado de se masturbar e já ia levantar-se da cadeira para seguir em direção ao banheiro. Estava tranquilo, o nojo-de-si que surgia de modo recorrente a cada nova masturbação não havia se manifestado dessa vez. Adalberto nunca soube se o nojo-de-si surgia sempre e com todo mundo, ou se aparecia apenas com ele, que usava como motor para estimular o tesão imaginações violentas, ou, no limite, pouco ortodoxas. Enfim, levantou-se lentamente e seguiu para o banheiro. Abriu as torneiras, ensaboou suas mãos e começou a limpar-se. Enquanto se ensaboava, entretanto, foi surpreendido. Uma bolha de sabão saltou de suas mãos. Uma pequena bolhazinha, que ia subindo de tão leve, saiu de por entre seus dedos ensaboados e ficou pairando sobre a pia. Nunca antes isso havia acontecido, pensou Adalberto. Havia algo a ser apreendido daquilo, algo de lírico, talvez. Uma bolha! Uma pequenina bolha, tão bonitinha e tão frágil, saindo dessa mistura de sabonete e porra, exibindo ao mundo todo sua cremosidade revestida por um brilho perolado onde, caso se esforçasse, Adalberto poderia enxergar seu próprio reflexo. Concluiu: era bela, a bolha! A bolha, por sua vez, logo estourou, como de praxe para todas as bolhas.

Saiu satisfeito do banheiro, Adalberto, pensando na beleza e na fragilidade da finada bolha. Ao chegar em seus aposentos, notou que deixou gotas de esperma caiíem por todo o trajeto. O nojo-de-si, então, finalmente chegou, e, súbito — assim como veio — se foi, mas se foi levando com ele a bolha.