Eu sou

Aquele mendigo ali na esquina, esquecido e leproso socialmente, deitado num monte de sujeira e lixo, em meio aos ratos e baratas, eis meus animais de estimação. Sou aquela vagabunda ali daquele beco escuro e deserto, nem a lua ousa iluminá-lo, com doenças venéreas; com vergonha por ser vil e acabada, sem forças para fingir um sorriso. Sou o hipócrita que finge rir, mas por dentro vulcaniza lágrimas amargas e invejas. Sou aquele homossexual soropositivo do ponto de prostituição perto daquela casa de show.
Eu sou aquela criança cheira-cola na beira da avenida que espera o engarrafamento para pedir quaisquer tostões aos motoristas; aquele desonesto que coloca gato na luz, água e televisão para dar conforto aos filhos.
Mais uma vez sou o faminto que pede um pedaço de qualquer coisa nas ruas do Centro. Talvez até mesmo um cracudo, tem um trocado aí? Sou aquela travesti que tem nome de puta e às vezes esquece o próprio nome, porém nunca a própria história.
Sou aquele que cata latinhas e vai ao lixão buscar o almoço. Quem sabe também o tratante que enrola qualquer trouxa por uma nota de cinquenta reais. Aquele que enrola um baseado, e se enrola, e se entrega ao senhor vício; aquele que é um algoz para com os outros e defunto consigo próprio. Aquele que se deita com qualquer um sem nem mesmo cobrar um real, lascivo e cobiçoso com o corpo alheio. Aquele sedento por amor, paz e graça, entretanto empanzinado de preconceitos, injustiças e orgulhos. Aquele que anseia por forças aos soluços, nem aos gritos sabe como afastar os próprios medos. Aquele que afia uma faca nos próprios pulsos, afogado em meio às gotas rubras. 
Em verdade, sou vazio e sem forma, cheio de trevas. Um fugitivo da sina e da realidade, quem suporta sua própria realidade inglória? Quem enxerga na escuridão, em meio ao breu, numa noite densa, sem lua nem estrelas? Quem se enxerga na própria escuridão? Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?

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