Nada me Faltará — a fuga de Lourenço Mutarelli (resenha)

fonte: http://www.vortexcultural.com.br/images/2016/06/Louren%C3%A7o-Mutarelli.jpg
Acho bom você ficar sabendo que não pretendo ficar muito tempo nesse emprego.
É mesmo?
Pode apostar.
E você tem alguma coisa em vista?
Tenho.
É segredo?
Eu não vou retomar a vida que vocês querem.
Como é?
Eu vou retomar a minha vida, não a que vocês dizem que eu tinha.
Não sei se estou entendendo.
É só isso.
Nada me Faltará, Lourenço Mutarelli.

Nada me Faltará é o sexto romance do paulistano Lourenço Mutarelli. Foi publicado em 2010, cinco anos antes do seu último livro - O Grifo de Abdera - ser lançado. É uma história para se ler em duas horas (sério), enquanto tomamos um espresso bem forte para que possamos solver toda a intensidade desta pequena-grande obra — o melhor livro do autor, na minha humilde opinião, apesar de pouco conhecido.

O livro conta a história de Paulo, que, após ter desaparecido por um ano junto com a esposa e a filha, retorna inexplicavelmente para casa como se nada tivesse acontecido. Paulo, porém, volta sozinho e não se lembra de nada do que lhe aconteceu durante o período em que esteve ausente. Entregando-se a um estado de apatia e desinteresse, Paulo se vê cada vez mais cobrado e julgado por todos à sua volta - o que se resume à sua mãe, alguns amigos, seu terapeuta e um investigador da polícia.

Vamos lá. Foram basicamente dois os fatores que fizeram com que eu me apaixonasse por esta obra, e é minha intenção compartilha-los com vocês nas próximas linhas.

A temática. Mutarelli é uma fábrica ambulante de anti-heróis. Todos os seus protagonistas encaixam-se no mesmo perfil: suburbanos fracassados, frustrados, de moral questionável e cheios de problemas psiquiátricos. Paulo não é uma exceção. O seu desaparecimento seguido de amnésia não é apenas coisa criada pela cabeça de um autor maluco, mas tem nome e precedentes na psiquiatria: chama-se fuga dissociativa.

A fuga dissociativa é um transtorno raro, em que um indivíduo viaja grandes distâncias e esquece-se temporariamente da própria identidade (às vezes, inclusive, criando uma nova) como resposta a grandes traumas ou estresse.

O trecho do livro com o qual iniciei esta resenha trata-se de um diálogo entre Paulo e seu melhor amigo, Carlos. Nele, fica bem claro o motivo do estresse que gerou a fuga — Paulo vivia a vida que os outros queriam que ele vivesse, não a que ele gostaria de viver. Este é o grande pilar da trama e motivo para uma série de reflexões. Até onde a vida que levamos reflete tão somente aquilo que os outros esperam de nós?

Mas, afinal de contas, Paulo não tinha um emprego estável, amigos e família? Não seguia todas as regras e convenções sociais? Não era o respeitável provedor de uma família tradicional brasileira? O que havia de tão errado então?

Segue abaixo o trecho de uma das sessões de Paulo com seu terapeuta:

[…] Não vejo mal nenhum nisso de ficarmos desmotivados. E eu não estou falando só de mim, acho que essa coisa de ficar sem vontade, desmotivado ou cansado, não tem nada a ver com depressão. Isso é uma coisa corriqueira. É o preço disso tudo, dessa estrutura que criamos e que acaba nos consumindo.
E o que seria essa estrutura?
Você sabe do que eu estou falando. Falo da forma como a sociedade se construiu. Falo de nossas rotinas, dos compromissos, e até mesmo da vida em família. Tudo isso é muito desgastante.
Nada me Faltará, Lourenço Mutarelli.

Paulo, portanto, vivia o sonho da “vida perfeita”, mas na realidade estava morrendo por dentro. Quando ele finalmente retorna e vai morar com a mãe, há uma cobrança constante de todos à sua volta para que ele retome a rotina de onde parou, volte a trabalhar, reveja os amigos e não descanse enquanto não reencontrar sua família. Mas, como Paulo mesmo fala em outra sessão de terapia, ele sequer consegue sentir afinidade ou emoção em relação a qualquer criatura. Paulo finalmente estava sendo ele mesmo. Mas ser ele mesmo não era bem o que os outros esperavam.

A estrutura. Nada me Faltará é construído exclusivamente com diálogos. Isso mesmo, nada de narrador explicando coisa alguma, nada de descrições — apenas fechamos os olhos e escutamos o que os personagens têm a dizer. Construir um romance dessa maneira, convenhamos, é coisa de gênio. E Mutarelli não é apenas um gênio, mas também um dos escritores mais autênticos da atualidade, reinventando-se a cada romance.

Essa estrutura faz com que o texto flua numa velocidade vertiginosa e torna o livro ainda mais gostoso de ler. Ficamos presos, desta maneira, ao que realmente importa na história — as relações humanas e todos os conflitos gerados por elas. Pois não importa a cor da parede do quarto onde Paulo dorme, não importa se faz sol ou chuva lá fora, Nada me Faltará é um romance essencialmente humano, e Mutarelli fez questão de excluir toda e qualquer distração.

Pascoal Farinaccio publicou um artigo dissertando sobre a importância e os significados dos lugares fechados e a sensação de claustrofobia que eles geram na obra de Lourenço Mutarelli. Em Nada me Faltará, entretanto, a sensação de claustrofobia não vem dos lugares fechados — o não significa que não esteja presente. Pois, apresentando-nos apenas os diálogos, é como se Mutarelli colocasse uma venda nos nossos olhos e nos obrigasse a sentar e ouvir atentamente cada palavra. Não importa o quão incômoda, angustiante ou cansativa esteja a conversa, não nos é dado sequer o direito de sair para tomar um ar e observar os pássaros — ficamos apenas sentados e ouvindo, ouvindo e ouvindo…

A ausência do narrador também cria outro problema: podemos confiar naquilo que está sendo dito? A resposta é: não, não podemos. Isso faz com que todas as personagens (inclusive Paulo) sejam sempre suspeitas quanto às suas intenções. Até onde os amigos e a mãe de Paulo realmente se importam com ele? Até onde Paulo está falando a verdade sobre o que aconteceu? Será que ele realmente não se lembra de nada, inclusive de onde foram parar sua esposa e sua filha? As suposições são muitas, mas não espere respostas definitivas, pois Nada me Faltará é como a vida real — você acredita naquilo que lhe é mais conveniente.

A união destes dois fatores faz com que este seja um livro único, daqueles que a gente lê numa tarde e passa o resto da semana refletindo. É denso, apesar da linguagem simples e corriqueira. É engraçado, apesar de tocar em temas tão delicados.

E o desfecho, cheio de sugestões, é elegantemente desnorteante.

Desnorteá-lo, diga-se de passagem, é a especialidade de Mutarelli.

E o cara é muito bom no que faz.