Suicidas

Amelie Benoist / Science Source

Sandra tinha treze anos quando seu pai a estuprou pela primeira vez.

Aos quinze ela descobriu que sua mãe sempre soube de tudo, mas nunca fez nada a respeito.

A primeira tentativa de suicídio ocorreu pouco mais de um ano depois. O sol já se escondia timidamente por trás dos telhados alaranjados quando Sandra chegou em casa (tinha passado o dia comemorando a chegada dos dezessete anos assistindo a filmes de terror na casa de uma amiga da escola), pegou a serra de pão numa das gavetas da cozinha e fez onze cortes superficiais no punho esquerdo, como se isso já tivesse dado certo (ou, neste caso, dado errado) alguma vez na história das tentativas de suicídio.

Mas foi aos dezoito anos que ela acertou — tomou três goles da soda cáustica que a mãe usara certa vez para desentupir o ralo da cozinha. Apenas três goles, mas foram mais do que o suficiente.

Vocês tem ideia do que acontece quando se ingere soda cáustica? O líquido corrosivo desce pelo esôfago, queimando-o como se ele fosse feito de papelão, e o processo de cicatrização é tão intenso que o transforma em um fiapo de nada, fazendo com que você não consiga engolir mais nem um grão de arroz.

É, meus amigos, é uma merda.

Sandra teve de ser submetida a três cirurgias. A primeira foi para retirada do esôfago (que, como explicado acima, havia se transformado num fiapo de nada) e confecção de uma gastrostomia através da qual ela passara a se alimentar. A segunda, para estancar uma hemorragia decorrente da cirurgia anterior, e a terceira para drenar quase um litro de pus que havia se acumulado entre o pescoço e a língua.

Apesar de todos os esforços, ela só piorava.

Sandra estava no leito 4 da UTI, e logo ao seu lado havia um rapaz que também tentara se matar. Ele já estava bem. Sandra sentiu uma pontada de inveja no fundo do seu coração, pouco antes do mesmo parar de funcionar de uma vez por todas.


Geraldo nunca fora estuprado ou algo do tipo. Ele tinha uma família que, apesar de pequena, esforçava-se para lhe proporcionar o máximo de bem-estar.

O problema aqui era outro — desde os 16 anos, Geraldo era perseguido pelo fantasma devastador da esquizofrenia (ou pelo menos era isso que os psiquiatras, um mais maluco que o outro, falavam). Vozes malvadas surgiam do nada e sussurravam coisas terríveis no pé do ouvido de Geraldo, enaltecendo o quanto sua vida de merda não valia um centavo e, principalmente, sugerindo (não sugerindo, ordenando) que ele se jogasse da janela, desse um tiro no céu da boca, ou qualquer coisa que o valha.

Seu Diógenes, pai de Geraldo, era um senhor barrigudo, vermelho, bonachão e marceneiro por hereditariedade. Dentre outros instrumentos que lhes garantiam o sustento da casa, seu Diógenes guardava na garagem, em cima de uma estante de madeira que ia de um canto a outro, uma serra mármore circular toda enferrujada.

E as tais vozes malvadas foram explícitas em suas ordens naquela noite quente de novembro, fazendo com que Geraldo as obedecesse à risca: desceu à garagem, ligou a serra na tomada e rasgou a própria garganta.

Graças à sua escassez quase absoluta de conhecimentos anatômicos, as principais artérias e veias do pescoço foram poupadas, mas sua traqueia escancarou-se feito a boca de um peixe fazendo glub-glub e cuspindo fiapos de sangue e catarro, e durante um bom tempo Geraldo teve que respirar pelo pescoço, enquanto seu Diógenes ligava para o SAMU, acudia a esposa desmaiada e tentava estancar o sangramento que jorrava feito cachoeira do pescoço do filho, tudo ao mesmo tempo.

A ambulância chegou em 25 minutos. O médico (no auge de heroísmo de toda a sua carreia) enfiou um tubo na massa disforme em que se tornara aquele pescoço e, por nada mais do que sorte, acertou o buraco certo. Geraldo foi levado ao hospital, submetido a uma traqueostomia de emergência e, dois dias depois, já estava acordado.

Geraldo estava no leito 5 da UTI, e logo ao seu lado havia uma moça que também tentara se matar. Ela estava morrendo. Geraldo sentiu uma pontada de inveja no fundo do seu coração, pouco antes de receber alta e sair daquele hospital de uma vez por todas.