Um breve conto de terror

Mônica e Reginaldo haviam acabado de transar e se arrumavam para dormir — ela de frente para a janela do quarto, ele para o lado oposto.

Reginaldo mal iniciara seu deslize suave em direção à primeira fase do sono quando Mônica lhe deu umas cutucadas.

Amor, ela disse baixinho como se alguém pudesse ouvi-los (ou como se fosse um desrespeito à madrugada atormentá-la com algo que fosse além de um sussurro), olha aquela janela ali!

Hã?! O que… hã?, resmungou Reginaldo, sem muito respeito a quem quer que fosse.

Acorda, dorminhoco! Ali, naquele apartamento com a luz acesa, ela repetiu, apontando em direção a uma das janelas do edifício que ficava logo em frente ao deles.

Virando-se, Reginaldo se apoiou no cotovelo, inclinou-se por cima da noiva e seguiu a trajetória do seu dedo: num quarto mal iluminado, um homem aparentemente velho (corcunda, longa barba branca) estava sentado em um banquinho. À frente dele havia um cavalete sobre o qual o velho apoiara sua tela de pintura; pincelava algo que de longe era impossível discernir.

É só um velho, Mônica, resmungou Reginaldo, olhando para o relógio e descobrindo que já passava das duas. Vamos dormir, pelo amor do bom Deus, amanhã eu tenho que acordar cedo.

Não é um velho, não senhor, ela retrucou, tem uma modelo pousando para ele no sofá logo ali, ó.

Reginaldo suspirou e virou-se novamente para aquela merda de janela.

Sim, estou vendo, ele disse, estreitando os olhos. Me parece uma velha enrugada pousando nua para um velho gagá. Titanic versão geriátrica. Me acorde quando chegar a ambulância do asilo de onde eles fugiram, ha ha ha, virou-se para o outro lado e começou a roncar em menos de trinta segundos.

Mas Mônica não conseguia tirar os olhos deles… ou melhor, não conseguia tirar os olhos dela. Velha enrugada?! Reginaldo só podia estar louco. A modelo parecia ter cabelos negros e compridos como o seu, e…

Mônica sentou-se na beira da cama e se aproximou da janela. Não saberia dizer o motivo, mas algo naquela situação inusitada a deixava cada vez mais desconfortável. Era como se uma mão tivesse rasgado seu tórax e apertasse seu coração com uma força crescente — a mão tentava avisá-la, preveni-la de alguma coisa…

Mas… o que é… aquilo? Mônica aproximou-se ainda mais da janela, e só não embaçou o vidro com sua respiração porque ficara completamente sem ar. Será que… meu Deus!

Mônica levantou-se de supetão, fazendo com que Reginaldo parasse de roncar e resmungasse algum xingamento ininteligível. Pegou o iPhone de cima do hack da televisão, sentou-se novamente e apontou a câmera do celular para a modelo. Não tinha a intenção de tirar fotos, filmar, ou coisa do gênero — queria apenas usar o zoom para vê-la mais de perto.

A resolução não era das melhores, mas… será que é possível?… A modelo de fato parecia jovem, só que havia algo de muito estranho: ela estava completamente imóvel, seu corpo estirado no sofá numa posição esquisita, como se ela tivesse sido jogada ali de qualquer maneira e… sim, caralho, agora Mônica tinha certeza: seu rosto estava sangrando!

Puta merda, puta merda! Amor! Acorda, porra! Ela remexia o corpo flácido de Reginaldo, que só resmungava e xingava e gemia, provavelmente sonhando com trabalho ou com qualquer uma das putas que ele andava comendo por aí.

Ah, seu bosta, ela desistiu, virando-se novamente para a janela.

E foi então que seu sangue congelou.

O velho barbudo estava olhando diretamente para ela. Seus olhos eram claros e penetrantes, injetados de ódio e, de alguma maneira, familiares. Mônica sentiu cada um dos seus músculos enrijecerem feito cimento, o mais puro horror invadindo todos os poros do seu corpo. Aquela mão agora esmagava seu coração com toda a sua força.

Livrando-se da paralisia, seu primeiro instinto foi fechar as persianas da janela e enfiar-se debaixo dos lençóis. Sentiu-se como uma criança novamente, escondendo-se dos fantasmas de Poltergeist depois que seu irmão a fizera assistir àquele filme maldito.

Os minutos foram se passando e ela sentiu o coração e a respiração desacelerarem progressivamente. Sua capacidade de raciocínio havia retornado e, com ela, a razão.

Tudo bem, é óbvio que a modelo não está morta, refletiu, ainda protegida pelos lençóis. Ele não deixaria as cortinas abertas se a tivesse assassinado. Há dezenas, talvez centenas de pessoas que poderiam vê-lo e denunciá-lo. Provavelmente não passa de uma modelo se fazendo de morta, alguma espécie de arte mórbida, e…

Mônica ouviu três batidas na porta do apartamento.

Ai, cacete, é o velho barbudo!

Mônica retesou-se e puxou os lençóis para mais perto de si, sentindo as lágrimas escorrerem pelos sulcos do seu rosto.

Claro que não é o velho, sua louca, era a tal da razão tentando acalmá-la.

E quem mais poderia ser, a esta hora da madrugada?

O porteiro, algum dos vizinhos… qualquer pessoa, oras!

Mais três batidas.

Puta que pariu! Agora seus soluços eram audíveis. Reginaldo se remexeu na cama, claramente incomodado com todo aquele barulho.

Calma, Mônica, fica quietinha… Quem quer que seja, uma hora vai desistir, não é possív…

Desta vez as pancadas foram mais fortes, como se alguém quisesse arrombar a porta e entrar no apartamento à força.

Mônica sentou-se tão rápido na cama que ficou tonta. Apoiou-se no parapeito da janela e respirou fundo para não desmaiar. Estava oficialmente apavorada.

Quando o sangue voltou a circular pelo cérebro, Mônica pensou em fazer aquilo que deveria ter feito desde a primeira batida: abriu um pequeno espaço entre as persianas para espiar lá fora. Se o velho ainda estiver pintando…

Mas o velho barbudo não estava mais lá. Ao invés dele, Mônica agora via a modelo de pé, em frente à janela. No lugar dos seus olhos havia órbitas vazias das quais jorrava sangue coagulado, escuro. Seus lábios estavam costurados e gangrenados, enquanto sua pele bolhosa desgrudava da carne feito couro de cobra, deixando os músculos vermelhos à mostra.

A modelo então esparramou as mãos ensanguentadas na janela. Parecia tentar alertar Mônica sobre algum perigo (preveni-la…), mas àquela distância parecia impossível.

Mônica fechou as persianas, desviando os olhos da janela e da modelo morta (ou quase morta). Chorando e soluçando como nunca, foi com um dos braços em direção ao noivo na intenção de acordá-lo de uma vez por todas. Por Deus, ela precisava de ajuda!

O que sentiu ao tocá-lo, porém, foi um corpo rígido, enrugado e frio (não estava frio, na verdade… estava gelado). Ao invés da pele sempre lisa no rosto de Reginaldo, os dedos de Mônica passaram por entre os fios de uma barba farta e gosmenta.

Mônica não teve coragem de olhar para a aberração na qual seu noivo havia se tornado. Não se virou sequer quando a porta do quarto se abriu, muito menos quando ouviu os passos que vinham em sua direção, vagarosos mas decididos.

Uma depressão se formou no colchão de espuma quando a coisa se sentou ao lado dela.

Acorde, Mônica, sussurrou a coisa, e Mônica pôde sentir cheiro de sangue, pus e carne podre — o bafo da morte. Acorde antes que seja tarde demais…