Globalização e as novas formas de preconceito


A globalização é um conceito bastante amplo que surgiu no final do século XX, a partir dos anos 70-80, quando o neo-liberalismo ganhou força e impulsionou um processo econômico globalizado. Alguns especialistas, porém, dizem que isso ocorre desde as grandes navegações dos séculos XV e XVI. De fato, esse termo não está associado somente à questões financeiras, mas, também, à cultura e sociedade.

Então, surgiu como uma necessidade do capitalismo de expandir. Hoje, o consumidor têm acesso à produtos importados com mais facilidade e mais baratos, além de atrair investimentos internacionais, incentivar mais as trocas e melhora o relacionamento entre países. Há meio século, a tecnologia de hoje poderia ser considerada ficção científica! E boa parte da responsabilidade por esse avanço é do fenômeno citado. As próprias empresas ditas “multinacionais”, as quais nós estamos bem familiarizados, denunciam a existência da globalização. Infelizmente, o custo ambiental proveniente desse avanço desenfreado e irresponsável, talvez, seja irreparável.

Na música “hipócritas”, do grupo de reggae Ponto de Equilíbrio, um verso pode nos ajudar a pensar sobre uma unificação que envolva aspectos culturais: “O Pobre quer ser rico/ mas o rico não quer ser pobre”. Em um primeiro contato pode parecer óbvio, mas paremos para pensar: o pobre é a base da sociedade brasileira. A matéria-prima de tudo que se constrói, o plantio de tudo que se come, quem levanta e derruba os muros, a costura de tudo que se veste… é responsabilidade do pobre. O rico, ao invés de “sustentar” o pobre com o salário que lhe oferece, na realidade, o explora — e sem eles é capaz de a elite não saber sequer cuidar dos próprios filhos. A globalização, no fim, acaba intensificando este cenário não somente com relação aos produtos, mas também à mão-de-obra (barata). O fluxo migratório da África, Ásia e América Latina para a Europa e EUA cresce exponencialmente. Além de aumentar a concentração de renda, trago outra reflexão, pensando em uma unificação cultural: é mais provável vermos cada vez mais o branco europeu usando turbante ou afrodescendentes alisando seus cachos?

Grupos de extermínio como os Nazistas, Fascistas, Ku Klux Klan, a Ação Integralista Brasileira, entre outros tem o mesmo objetivo: tornar uma sociedade antes diversa, mais homogênea. Não esqueçamos da inquisição e da catequização dos indígenas… A globalização exerce função parecida, porém, com a maquiagem e o intuito de avanço tecnológico e comercial. Quando existem culturas oprimidas, os preconceitos se tornam intrínsecos à esse processo. Voltando ao tom musical, o rapper Emicida, na música Boa Esperança, canta: “Tempo doido onde a K.K.K. veste Obey” — onde “K.K.K.” é um símbolo de discriminação racial e “Obey” uma marca de roupas multinacional. Esse verso em particular resume de forma explicativa e potente a forma como o racismo se adaptou às novas tecnologias e como está arraigado no fenômeno da globalização. Além disso, o aumento da xenofobia também é notório. As nações cada vez mais perdem um pouco de sua identidade.

Com uma overdose de informação, de fluxos migratórios e expansão comercial, os países que deram o pontapé inicial, hoje, também sentem as consequências. A saída da Grã-Bretanha da União Europeia e as pérolas/medidas do presidente estadunidense Donald Trump têm motivações parecidas: com xenofobia, visam recuperar valores e a identidade nacional, investem em políticas contra imigração, procuram repatriar empresas e resgatar empregos perdidos. Em sua campanha, Trump disse:

“Temos de proteger nossas fronteiras da pilhagem de outros países, que estão fabricando nossos produtos, roubando nossas companhias e destruindo nossos empregos.”

Os países pobres, que são invadidos por indústrias e culturas diferentes, hoje são alvos dos ataques dos próprios causadores de todo distúrbio.

Esse quadro nos ajuda a perceber o quão a cultura é inerte a cada sociedade e, ao passo que a globalização me assusta, a impossibilidade de enxergarmos um cenário onde todos os seres-humanos convivam em harmonia também é de se assustar.