Ilha de edição: por que recebeu esse nome?

Os montadores trabalham na chamada “ilha de edição”. Sempre achei esse nome super maneiro! E também sempre me perguntei o porquê não se chamava estúdio, sala ou escritório. Talvez realmente seja o nome mais adequado e condizente com a função. Mas será que faz sentido alguém precisar ir à uma ilha para trabalhar no computador?

“Ilha” no dicionário: 2 — p.ext. ou p.metf. aquilo que, por seu isolamento ou incomunicabilidade, se assemelha a uma ilha.

Não acredito que esse nome seja por conta do isolamento do editor. Até porque nem sempre estamos sozinhos; às vezes o diretor ou outros montadores acompanham. E, claro, o intuito dessa ilha é comunicar, é contar uma história, então não faria sentido ser reconhecido por incomunicabilidade. Há algo curioso que acontece nos filmes e se constrói na ilha de edição: os cortes. A experiência de vida humana não nos dá base o suficiente para entendermos os cortes em um filme. Nada se assemelha à isso; estamos em um momento no tempo com uma série de coisas acontecendo e, num estalar de dedos (ou em um corte), estamos em outro ambiente, em outro momento e com outras pessoas. É uma mudança abrupta demais para que a gente consiga reconhecer uma conexão. Mas milagrosamente isso funciona. Até mesmo a história da filosofia nos diz que temos dificuldade em reconhecer grandes diferenças e tendemos a buscar identidades.

Faz parte de uma certa concepção estável que nós queremos ter das coisas, de que elas permaneçam as mesmas e mudem muito pouco. E principalmente aquilo que elas venham a mudar não prejudique aquilo que são essencialmente. […] Na verdade, a diferença, a mudança radical de uma qualidade para outra, de um estado para outro, de um momento no tempo para outro seria, então, um fato primordial que nós procuramos escamotear.
Frannklin Leopoldo sobre Deleuze e a filosofia da diferença.

Ao menos uma coisa em nossas vidas poderíamos relacionar com a experiência de um filme, como bem apontou o montador Walter Murch: o sonho. É o único momento em que vivenciamos conexões abruptas no tempo e espaço sem aparente perda de sentido. Para além disso, existem pessoas especializadas em traduzir o significado dos sonhos— não que isso seja de fato possível. De qualquer maneira, o filme pode ser uma experiência de quase sonho. O meio termo entre a viagem e o sonho; talvez seja realmente necessário quase-viajar para a ilha de edição e produzir novos quase-sonhos.

Ao mesmo tempo é revelador pensar que a frase usada pelos pais para acalmar seus filhos assustados com um pesadelo- “Não se preocupe, querido, é apenas um sonho” — seja praticamente a mesma que a usada para tranquilizar uma criança assustada com um filme — “Não se preocupe, querido, é apenas um filme.”
Walter Murch no livro “Um Piscar de Olhos”.

Há quem relacione sonhos com viagens. Uma viagem se diferencia do turismo: não sabemos o que vai acontecer, nem exatamente que lugares iremos conhecer, de fato. Assim como o sonho. E não necessariamente gostamos de todas as viagens! Mas quando não se têm prévias ou expectativas (ou quando não é possível tê-las), tudo se tornará uma vivência a mudar sua visão de mundo. Porém, de que maneira a experiência de um filme se assemelha a de uma viagem? É uma comparação justa?

Quando foi que o olho foi substituído pela objetiva, que a percepção foi substituída pelo ecrã, que a memória foi trocada por imagens pálidas de um rosto em primeiro plano, de costas para uma paisagem?
Daniel Gaivota em sua dissertação de mestrado.

Como havia dito, o filme é (ou pode ser) uma experiência de quase viagem. O trecho de Daniel Gaivota se refere às fotos de viagem, mas os filmes podem ser enquadramentos menos pálidos, onde podemos mergulhar nas entrelinhas de uma obra. Onde no começo não sabemos o que está por vir e não é garantia de que entenderemos o final. É uma experiência-viagem, talvez. Ou uma quase-ilha. E, mais importantes que uma experiência-viagem, é a viagem por si só.

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. […] Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.
Amyr Klink

Talvez seja um pouco pedante chamar o ambiente de edição de um filme como ilha, porque não viajamos de fato até ela. O nome poderia ser “quase ilha de edição”, mas é pouco prático. A palavra “ilha” vem do latim (insula). No português também temos a palavra “ínsula”, de mesmo significado. Dois elementos latinos juntos, por sua vez, “paene ou pene” (que significa quase) e a “insula”, formam uma quase ilha: a península. Talvez um nome mais adequado seria “península de edição”. Ou “península de quase-viagem”. Ainda não sei… e esse é o melhor lugar para terminar uma definição que começou nesse mesmo lugar: no desconhecido.