Meu último ensaio sobre (aquele) amor

Eu escrevo. Não disse que o faço bem, mas estou seguro de que todos os merecedores deste nobre elogio são justamente aqueles que escrevem. Como se fosse possível dizer-lhes em uma linha minha motivação para escrever, lhes digo: quero expandir minha capacidade de dizer, nas linguagens as quais eu possa experimentar, saborear. Para que um dia, quem sabe, consiga esclarecer o motivo pelo qual escrevo por mais do que em algumas pobres e repetitivas frases, como estas que apresento. Sem delongas, o assunto que desejo tratar não é bem um assunto, é sobre uma menina. Minha ex-namorada, para ser mais preciso. Fiz alguns versos para colocá-los em música. Antes que você desista desta breve leitura, quero demonstrar minha empatia com vocês, caros leitores: tema fajuto, de romances pequenos, concordo. Embora não possa me esquivar deste clichê, peço que apreciem minha inocente tentativa.

A poesia:

Sábia e solta feito um sabiá
Sabe que sobra sabor pra quem saborear
Já faz dois anos desde a última chance
Ainda sinto o gosto do nosso romance na ponta da língua
Novas andanças, novos tropeços
Se me esqueceu, me despeço, mas eu não te esqueço
Avesso ao inverso, fim do recomeço
Não sei se estou certo mas ainda permaneço errando
Passos embriagados, coração sóbrio
Aguardo ansiosamente o próximo episódio
Não é questão de sim ou não, a vida não é binária
O lance é que eu sou o bicho e você a veterinária
Amor é uma disputa, então dispute
Pode me evitar mas quero que me escute
Não queria resposta chorando ou sorrindo
Mas que você se ouça até quando seu ego não estiver te ouvindo
Não existe silêncio, a não ser no fim da linha
E muitos surdos realizam a morte em vida
Pra isso a gente tem virtude
Mas me falta atitude, não fiz tudo o que pude
Nunca fui de romantismo barato
Você pediu uma flor azul; me arrependo de não ter dado
Quis ir pro Grajaú e eu podia ter levado
Você, um dia, quis voltar, e eu podia ter voltado
São só escolhas, talvez não as melhores
Mas nenhuma história é só de acertos, a priori
Sigo versando sobre Nêssa sábia e solta
Se eu não posso voar com você é saudade que ecoa

Meu último ensaio sobre (aquele) amor

Me parece óbvio que a menina a qual me inspira a escrever estes versos não existe. Vocês também enxergam? Não quero dizer que minha ex-namorada não existiu, nem que meus escritos não possam coincidentemente se parecerem com ela; é como quem encontra círculos na natureza. Não esqueçam: O círculo tem data de nascimento, ou melhor, de criação, e não foi descoberto, de modo algum, mas, sim, inventado. A nossa mania de enxergá-lo por aí é um mero engano tão ingênuo quanto minha poesia. É evidente que há utilidade nessas errâncias puramente formais, mas não há verdade, absolutamente. E isto me incomoda. Quando se trata de uma pessoa, a verdade ou o que é palatável me é importante; qual é o lugar do amor se este for simples devaneio? A menina a qual me direciono é tão somente um personagem. Eu morro de amores por um personagem. Patético!

Para que me entendam melhor, cito outros versos: “Tão leve quanto uma bolha/ ao mesmo tempo, tão vazia/ te tirei da depressão/ você me tirou tempo de vida”. Ressalvo que este é sobre a mesma pessoa e compartilham do mesmo escritor. Ao invés de círculos, perfeitos, agora enxergo talvez um paralelepípedo. Não sei… o autor desses versos não parece estar falando da mesma menina que aparece nos primeiros. Ou mentiram para nós e, na realidade, são dois autores diferentes. Há quem diga “Os dois são verdade, são só recortes do mesmo relacionamento”. Estritamente à vocês, peço que releiam a primeira poesia e o segundo trecho, mais de uma vez, se necessário.

Visitarei um texto de Borges, um caro amigo, onde ele conta a história de Funes, o de memória prodigiosa. Devo ressaltar que a veracidade desses relatos é incontestável, e você pode lê-los por completo no conto “Funes, o memorioso”. Este homem sabia dizer a hora com precisão cirúrgica, e na rapidez e tranquilidade de quem responde um “bom dia”. Sem consultar o relógio, nem as estrelas, etc. Isto, entretanto, era dentre seus feitos o menos importante. O que me interessa neste conto, agora, é a reflexão sobre a noção de identidade. Como o Pedro das três e catorze (visto de perfil) tem o mesmo nome que o Pedro das três e quatro (visto de frente)? Qual é a identidade de Pedro, ou como podemos identificá-lo de uma mesma maneira em momentos tão expressivamente díspares? — questionaria Funes. No próprio conto: “Duas ou três vezes [Funes] havia reconstruído um dia inteiro, não havia jamais duvidado, mas cada reconstrução havia requerido um dia inteiro.” Ora, é isto! Se você diz lembrar de um dia inteiro mas esquece-se de um segundo sequer, acabara de criar um personagem. É o que fazemos o tempo todo. Igualmente se você diz lembrar de um relacionamento inteiro com um só sentimento, numa só poesia ou frase. O que me incomoda profundamente é a potencialização dessa narrativa novelesca quando se trata de um romance que fica cada vez mais distante no tempo e na experiência possível. Notar esta obviedade me deixou atordoado. Este é meu último ensaio sobre aquele personagem.

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