O labiríntico velhote da praça Honold

Pedro de Aquino
Jul 27, 2017 · 10 min read

Ouvi (não tenho o direito de dizer este verbo sagrado, só um homem poderia dizê-lo e ele está morto) certa vez sobre um velhote, que para muitos parece ter se entregue aos desvios da loucura, mas para quem soube levá-lo a sério pôde experimentar uma espécie de prólogo daquela mente prodigiosa e um tanto inacessível. Seu nome é Nilo, e você pode encontrar outros escritos sobre ele como “Nilo — ou sobre o dom de ouvir”, de Daniel Gaivota, um caro professor e amigo que conheci há pouco mais de três anos. Então, não espere encontrar aqui uma história inédita, de modo algum, porque todos os felizardos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo escreveram sobre ele. Ao mesmo tempo não desejo fazer repetições do que já fora realizado; pretendo trocar a precisão cirúrgica de Daniel, de Bruno ou de Fernanda Campos (os três que falaram do velho os quais tenho conhecimento, mas, certamente, não os únicos), pelos espantos enigmáticos que vivenciei. Não creio ser necessário colocar em voga a veracidade deste conto, entretanto já adianto que devo ceder à tentação literária de acrescentar alguns detalhes.

Nilo vive em Búzios, no Rio de Janeiro, onde eu só pude ir por duas vezes. Em ambas, o seu nome chegou aos meus ouvidos. O motivo que me levou até lá pela primeira vez foi um evento de experiência filosófica promovido pela minha escola — aos meus dezessete anos, e estavam comigo cerca de vinte amigos. Nossa ida, de ônibus, foi um tanto turbulenta: enfrentamos uma madrugada bastante chuvosa e mais escura que as outras, além do pormenor, talvez irrelevante, de ninguém saber ao certo o caminho. Bruno, quem dirigia, é justamente o autor do outro conto citado sobre o velho. Quando estavam todos dormindo, a insônia e minha mania já conhecida de conversar com desconhecidos me fizeram ir até à cabine do motorista. Ficamos conversando por cerca de quatro horas, ou talvez mais. Quanto mais conhecemos uma pessoa, mais misteriosa ela fica; pouco sei sobre ele. O assunto foi, em suma, suas experiências de viagem e seu amor por cavalos (deixo para falar sobre eles em outro conto). Bruno já trabalhou em todos os transportes possíveis: táxi, caminhão, ambulância, etc. Em quase todos os estados do país. Um de seus relatos, entretanto, me chamou mais a atenção. Evidentemente estou falando de Nilo, mas como ele é bom contador de histórias, não entregou o que há de valioso logo no início. Inesperadamente Bruno me entrega uma carta. Me fez um elogio muito generoso, algo sobre eu ser aberto a entender (ou acreditar) em fenômenos extra-sensíveis. Em suas palavras, “ouvir a sensibilidade que a razão esconde”. Após esses dizeres, me fez prometer que eu não leria a carta até que chegasse em Búzios. A única coisa que revelou à mim foi que ele havia escrito sobre tal experiência, a qual agora estava sob minha responsabilidade. Também me fez prometer que eu a abriria somente se eu estivesse preparado. Para que? Como vou saber se estarei preparado para algo que não conheço?— eu perguntei. “Esteja preparado para o desconhecido”. Dali em diante tinha eu uma carta que guardava mais mistério do que se pode imaginar.

Chegando em Búzios, ainda de madrugada, com chuva, frio e despedida, aquela carta me intrigava. Tive resiliência. Meditei um pouco antes de dormir; foi um desafio suportar o frio dolorido com simples respiração. Concentrei-me sobre o que deveria fazer, e passadas algumas dezenas de inspirações, resolvi, então, esquecer a carta, ou só abri-la quando estivesse me sentindo preparado. Assim o fiz.

O Daniel me perguntou como foi a conversa com o Bruno, motorista do ônibus. Naquele momento eu não sabia do que se tratava a carta, nem de que relacionava-se com um velho, e tampouco que os dois (o Daniel e o Bruno) tinham-no conhecido e escrito sobre ele. O professor parecia esperar mais, além de minha demora para responder. Foi bem! — eu disse. Hoje, imagino que esta pergunta tenha sido capciosa. Aliás, apesar de ainda não ter confirmado, estou certo de que os dois sabiam do que estava acontecendo. A experiência filosófica que fora proposta para os alunos continuava. Dentre oficinas de fotografia, de silêncio, de caminhares e outras bizarrices geniais durante o dia, ao fim, todos se encontraram em um luau. Foi bastante tempo andando até chegarmos à Praia dos Ossos (nome um tanto estranho). O tempo nos guardava uma outra madrugada de chuva, frio e despedida: de todas as dezenas de colegas de diferentes escolas, restou só uma parte de nós, dez ou quinze amigos, para enfrentar o escuro que quase nos acalenta — se não fosse pelo já conhecido frio dolorido. Foi uma das noites mais inesperadas e alegradoras da minha juventude. Tremendo de frio, todos molhados pela chuva forte, eu e Daniel nos olhamos, depois ao mar, algumas repetidas vezes. Em um sorriso, fomos correndo pra água — imensuravelmente gelada. Fiquei até onde meus pés podiam sentir o chão de areia. O professor deu continuidade às braçadas até que encontrou um barco perdido no breu; subiu nele, e em uma pose bem patriota gritou “eu sou o rei!”, e pulou de novo na água. Momento tão inexplicável quanto divertido, confesso, ainda mais dada nossa sobriedade. Ao sair, pude sentir o frio mais congelante de minha pouca vida. Não tinha casacos, cachecóis, nem abraço que me esquentasse. Só o vento de maresia que me faziam quase gemer de dor. Era inverno. Ainda faltavam alguns meses para o verão, algumas horas para o amanhecer, e pouco mais de uma hora de caminhada para que chegasse onde estávamos hospedados. Precisávamos resolver de imediato aquele incômodo gélido.

O Lael, amigo e também aluno, sugeriu uma fogueira (das grandes). Tentador. Saímos da praia para procurar pedaços de madeira, buscar inflamáveis, etc. Depois de um tempo, nos encontramos novamente, de mãos vazias e frustradas. Antes que pudéssemos falar o que já era evidente, um senhor de idade surge no canto das nossas vistas, claudicante, e aponta com sua bengala meia dúzia de madeiras, uma garrafa de álcool e um isqueiro, que estavam apoiados em pallets no pé de um poste de luz. Ali! — disse o velhote, sem sequer precisar perguntar a nós pelo o que procurávamos. Agradeci. Tão estranho quanto ter um kit perdido para acender uma fogueira, era um senhor estar sozinho em meio à uma madrugada chuvosa. Depois não o vimos mais. A mim passou despercebido, mas o Lael me disse, surpreso, que não entendia como o velho poderia saber das nossas ambições sem que ao menos tivéssemos contado. Eu mal podia saber que futuramente iria conhecê-lo.

Umedecemos as madeiras com álcool, fizemos um amontoado delas por sobre a areia e acendemos o fogo. Logo ele apagou com o vento forte. Acho que ninguém ali tinha antes acendido uma fogueira naquelas condições (ou em nenhuma outra), então, a inexperiência nos levava sempre ao fracasso. Trocamos toda aquela bagunça de lugar, mais próximos da orla, onde não soprava tanto vento. Ainda assim, sem sucesso. Ficamos cerca de vinte ou trinta minutos tentando acendê-la, e foi tempo o suficiente até que a outra metade do grupo chegasse para nos buscar e voltarmos juntos até nossos quartos. Eles, por sua vez, trouxeram casacos. Voltamos. O frio passou. Saímos de Búzios um ou dois dias depois. Infelizmente não foi o Bruno quem dirigia, e desta vez o motorista não parecia gostar muito de conversar. Nós sabemos o que poderia ter sido feito — estamos ansiosos para ler a carta, mas eu, caros leitores, não sabia de nenhuma destas palavras esclarecedoras.

Meses se passaram antes que eu pudesse ouvir novamente sobre o velhote. A carta ainda continuava intacta: prometi ao Bruno que só a abria em Búzios, e a mim, somente quando eu me sentisse preparado. Disseram-me que um senhor, o qual conhecemos de vista e de chapéu naquela experiência filosófica, estava quase cego e quase surdo. Ainda preservava um certo nível de independência, mas doravante precisaria de acompanhamento. Fiquei intrigado com a notícia pois não me lembrava deste senhor. Entretanto, já comecei a desconfiar de que, para além das Moiras, alguém cismava em tramar meus próximos passos, como quem pacientemente escolhe como os fios se entrelaçam num tricô.

Enfim, na virada de um ano para outro, cinco amigos (que hoje já não me fazem caso) convidaram-me para ir à São Pedro da Aldeia — próximo de Búzios. Fiquei deveras feliz com o convite, e aceitei-o antes de que pudesse lembrar de minhas pendências. Por pouco, ou por muito pouco, quase esqueci a carta em casa. Esta foi uma das melhores viagens que pude experimentar, ao lado de amizades tão passageiras quanto potencialmente calorosas. É difícil descrevê-la, então peço licença para me adiantar ao que realmente interessa: madrugada chuvosa, a insônia era mais uma vez presente. Escolhi, como de costume, meditar. Somente desta maneira eu consigo finalmente compreender as perguntas que ecoam, mas que soam incompreensíveis. A carta! — me lembrei. Me sentia desta vez preparado para abrí-la. Não poderia ser em outro momento senão aquele. Aquele papel já quase amarelado me frustrou e fomentou o mistério ao mesmo tempo. Havia nela somente um endereço e uma breve indicação: “Praça Honold, Praia dos Ossos. Estarei te esperando nas madrugadas chuvosas. Pacientemente, Nilo.”

Onde eu estava, em São Pedro, era beira de estrada e perigoso o suficiente para que eu não tivesse feito o que fiz; chegando na praça Honold, rodeada por belas e nobres casas de veraneio, não encontrei ninguém. Depois de procurar Nilo algumas vezes, desisti. Fiquei sentado por alguns minutos num banco desconfortável de praça, esperando o meu limite de incômodo e frio até que pudesse retornar para onde estava. […] Pude ouvir uma chamada por detrás, longe; Era uma jovem moça na janela de uma das casas. Você procura por Nilo? — ela me perguntou. Ela, sua neta, me atentou para que eu falasse mais alto que o comum; nos meus primeiros passos na bonita residência da família, pude perceber que esta era bonita somente na fachada. As paredes não estavam pintadas, úmidas, a sala era escura e grande, mas quase vazia. Próximo à parede, uma poltrona acomodava o velho que estava de costas para a porta. A única luz próxima à ele era de uma vela (pensei que ele desgostasse de luz, mas, na verdade, tem apreço pelo fogo). Havia um só livro em toda a casa, logo ao lado de Nilo, que folheava-o. Era grande, aparentemente pesado. Até pouco depois da metade pude perceber letras góticas, miúdas, e alguns textos em grego, além do português. As demais páginas foram escritas a mão, e algumas centenas delas ainda estavam em branco. Olá, Pedro — disse uma voz trêmula. Toda a nossa conversa parecia já programada, ou talvez ele conseguisse ouvir os meus pensamentos imediatamente anteriores a fala. No começo, pensava que o velho era um prodigioso filósofo da linguagem. Ele usa as palavras com tanta propriedade que parecia ele mesmo tê-las criado, num tom de puro desdém. Entretanto, descobri que é somente um bom ouvinte do mundo — ou talvez um dos únicos. Era a audição o seu dom, e soube que, por isso, foi diagnosticado (injustamente, tenho certeza) com esquizofrenia. Nilo havia ficado quase surdo e cego pois se arriscou a sair da solidão de sua sala e das madrugadas chuvosas, pequeno fardo para seus prodígios, pois o mais singelo movimento do vento já lhe soava como um berro; os bandos de pessoas que berram durante o dia forçaram demais seus olhos e tímpanos assustadoramente aguçados e sensíveis à ouvir. Justamente quando observei mais atentamente ao livro pude escutar um silêncio ensurdecedor... “Que poético!” — diriam meus pequenos leitores. Não há poética (no sentido corrente), mas, sim, absurdo. Repito: não quero aqui florear uma experiência com meras palavras bonitas, me ensurdeceu e foi o absurdo que vivenciei de modo que não poderia descrevê-lo diferente.

O teor filosófico das falas e prodígios do velhote são incontestáveis e densos, então, peço que leiam com atenção quando o que descrevo se trata de seus feitos. Naquele livro ele criou uma linguagem única e impossível, que pretendia corresponder perfeitamente com a natureza (logo entendi que ele considera a linguagem atual totalmente incongruente com a natureza). Uma linguagem imperfeita-perfeita, inacabada-acabada, que muda para referir-se ao mesmo objeto sem que haja uma lógica própria. Não poderia ser escrita da esquerda para a direita, nem o contrário; que não nos obrigue a dar gêneros às coisas; que não haja diferença quantitativa, ou não haja a contagem; etc. Nilo definiu esta linguagem como o exercício da escuta, e estava sendo anotada à mão no final do livro. Perguntei-o sobre do que se tratava, então, a primeira parte. Era sobre o obstáculo para que a tal linguagem seja compreendida. Sobre os surdos, os ignorantes! — ele havia respondido. Em suas palavras: “É bem necessário investigar muitas coisas para os homens serem amantes do saber. Sem isso, resta mera incompreendência, a dos homens surdos”.

Disse ainda: “Ignorantes: ouvindo, parecem surdos; o dito lhes atesta: presentes, estão ausentes”; Perguntei-o sobre a não literalidade dessa surdez a qual ele fala. Seria uma metáfora? O que ele quer dizer ?— eu pensei. Logo ele respondeu que “não há diferença entre o que eu quero dizer e o que eu digo”, e completou “o meu único erro é a inevitável arrogância, me perdoe”. Me perguntei se esta arrogância era perdoavel ou sequer necessitava perdão. “Perdoar é absolver; confundem sentença com justiça, o bem com o mal, o fogo com o húmido”. Ele disse também muitas coisas sobre o fogo, algo sobre ele sentir “reacender a chama que chama pra vida; a voz que chamou no deserto manteve a chama do Espírito perto!” Além desses, também me dedicou ditos tão obscuros quanto.

Em dado momento me parecia inútil falar. Pensar era o suficiente para que conversássemos, mas eu quase não o compreendia — e provavelmente vocês também não. Seu objetivo era reunir aprendizes para disseminar aquela linguagem, sem que ele se retirasse da solidão. Se não me falha a memória, procurava por doze pessoas. Eu era uma delas. Merda! Tinha esquecido de uma coisa. Imediatamente depois o velho, num tom incrédulo, disse que eu deveria ter aberto a carta somente em Búzios… A chuva parou no momento em que a vela se apaga. Você precisa ir embora! — disse Nilo. Ressaltou que eu teria acesso ao livro no momento certo, quando pudesse exercitar o dom da audição — o que teoricamente me fez merecedor de receber a carta de Bruno.

Estive tentando exercitar esse dom, mas não consigo. Talvez me falte o livro. Meses depois descobri, só então, que o Daniel havia conhecido Nilo e escrito sobre ele. Conversamos como quem podia ler o pensamento um do outro.

O velhote morreu em junho de 1989, de pneumonia.

    Pedro de Aquino
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