O trânsito suburbano e o sorriso do porteiro

A engenharia de trânsito no Rio de Janeiro não parece muito inteligente ou não recebe investimento suficiente, e a gente acaba vivenciando com certa frequência os problemas de transporte. Como bom suburbano —capixaba, filho de potiguar e morador da zona norte carioca — a migração pendular é uma parada bem sofrida (o trajeto que fazemos todos os dias pra ir e voltar do trabalho). Mas já que passamos horas no caminho (ou horas parados), as lembranças e pensamentos vem mais rápido que motoboy no corredor. Estava no ônibus indo pro Grajaú, um lugar mais residencial e bastante arborizado. Os íntimos chamam de “Grajamaica”. Logo lembrei da minha ex-namorada, ela ama esse lugar. Tava um calor danado dentro do busão, mas me veio à cabeça o jeito como ela sorri. Do jeito como ela sorri, nem parece que tá calor.

É curioso parar pra analisar o que a gente pensa nesses momentos porque sempre são coisas improváveis pra situação. E com aquele sorriso também não parece que o Temer é meu presidente. Crise? Só quando ela não sorri. Não é possível que com tanto problema, alguém sorria daquele jeito — só ela consegue. Ela não é a solução pros meus problemas, mas conseguiria resolver os problemas do mundo só com um sorriso. Inclusive resolveria a chacoalhada que meu ônibus tá dando. Se o mundo fosse como ela seria despido de preconceitos, seria mais puro, com mais amor à natureza e aos animais, e nesse mundo as pessoas seriam sexualmente mais felizes. Não teriam sinais vermelhos, nem trânsito. Mas como o mundo ainda não é como o sorriso dela, agora pouco, o ônibus parou em frente à seu condomínio por conta do trânsito. O porteiro, que nunca foi de falar comigo, retribuiu um olhar amigável e sorriu. Mesmo depois de anos, além de me reconhecer, sorriu! Ele, sim, me ama de verdade — ela, não. O mundo poderia ser como o sorriso do porteiro.

Do jeito como ele sorri, não parece que o síndico reclama sempre do jardim. Também não parece que o portão da garagem tem dado problema ao abrir. Se o mundo fosse como ele, seria mais introvertido e estaria sempre aperfeiçoando seu próprio silêncio. Inclusive, nesse mundo, jovens namorados quando estiverem sozinhos no elevador poderiam se beijarem despreocupados porque o porteiro, por entender a rapidez e intensidade dos primeiros-amores, faz “vista grossa” em seu mais sincero gesto de empatia. Teria algo curioso: os porteiros fariam cara feia para os atuais parceiros de seus moradores e sorririam de um jeito gentil para os ex-parceiros e ex-frequentadores do prédio. Ironicamente, essa minha sucessão de reflexões-sorriso foi interrompida por uma gargalhada criminosa do motorista do ônibus ao celular. Do jeito como ele sorri, nem parece que eu passei do ponto que devia descer. Aliás, tá um calor danado aqui dentro.

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