A fumaça que arde-me os olhos.

Três filhos crescidos, formados. Encaminhados na vida: o mais velho, advogado bem empregado na capital. Sou homem de sorte. Dizem, os vizinhos que, de vez em quando, passam para deixar um pedaço de bolo. Ela fiscaliza, não me deixa comer nada que tenha açúcar demais. Um pouco não faz mal ao velho. Outro dia, comi escondido um pedaço de chocolate; mas o hálito condena e ela acabou por descobrir. A velha sabe das coisas. Anda ansiosa com a formatura do mais novo, o último a sair da barra da saia. Disse, com voz de mãe conformada, “Lá se vai o último, Zé Carlos”, retruquei com os ombros tentando amenizar a conversa. Não sou bom com conversas longas. Dizem, os vizinhos que, uma vez ou outra, passam para deixar uma muda de folhagem que a velha planta na sacada. Desculpe a aspereza das mãos, mas criei três meninos carregando bujão de gás num carro enferrujado. Agora, que o último saiu de casa, iria pegar um carro melhor para passear com a velha. Estava ansiosa para conhecer aquela igreja bonita que fica no alto do morro. “A escadaria é cumprida, Zé Carlos”, disse ela. Os joelhos fracos de apertar o pedal da máquina de costura, anda manca da perna esquerda e a bengalinha de alumínio é quem segura a caminhada. Eu te levo pela mão, mulher — disse para animá-la. Quando falo bobagem, ela ri de vergonha com o canto da chapa branquinha. Foi assim, quando me ouviu dizer que faríamos uma festa para o moço. Nesse dia o sorriso se abriu feito céu de verão, estranhei. Um sorriso aberto e o olho úmido no infinito, igualzinho ao que ela faz na missa. Fora da igreja nunca sorri desse jeito, foi a primeira vez. “Ser feliz demais fora da casa de Deus é pecado, Zé Carlos”, dizia ela, quando eu fazia piada com a vizinha da frente. Os preparativos começaram e a casa ficou uma bagunça. Três irmãos, dela; cinco sobrinhos, cunhadas, netos: os deles. Nós, ainda não tivemos essa alegria. A velha tem medo de ser avó, acho eu. A casa fica cheia e o trabalho dobra. Mas sempre demos jeito; acomodávamos a família com conforto. Dividíamos o pouco, todos recebiam um bocado. Eu faço a carne, ela: mistura e sobremesa. Cuidadosa, fez lista para não faltar nada. A festa chega e quer ver fartura. Véspera.

Começo as compras, o carro soluça. Dia quente, o sol alto castiga as costas dentro da camisa de algodão. Devo emagrecer para os botões não ficarem tão esticados. Meu sobrinho disse, outro dia “A barriga do tio Calo parece uma montanha”, acho graça. A velha diz para aliviar no torresmo, mas não careço. Sempre fui forte, e não é um torresminho com cerveja de domingo que vai me pôr à lona. Prossigo, acumulo sacolas. Confiro a qualidade da carne que encomendei e asseguro a quantidade certa de carvão. O calor esquenta a parte pelada de minha cabeça, esqueci o boné. E a velha diz: “Passa protetor solar nessa cabeça, Zé Carlos!”. Não obedeço. Tenho que manter a ordem dos fatos dentro de casa, obedecer é coisa para moleque. É tarde, tenho pressa. Coloco as compras no carro e dou partida aos trancos. No caminho, lembro de conferir as anotações que estão no bolso da camisa, troco as mãos do volante e tiro os papéis amassados. Descubro que esqueci o leite condensado, e sei; ficará furiosa comigo. Ela gosta de deixar tudo pronto, colocar tudo na geladeira um dia antes. Não quero estragar a festa. Afinal, é o último a sair da barra da saia. A casa será apenas nossa. Um par de baralhos com as bordas gastas, nós dois embaralhados com uma nova rotina sem jogo. Estou namorando um modelo novo, com bancos mais confortáveis e ar condicionado. Meus olhos ardem e por um segundo o som fica longe. Minhas mãos adormecem no volante, o coração soluça como o motor surrado. Estava distraído com as notas, decifrando minhas letras rabiscadas. E, tem essa fumaça que me arde os olhos, de uns minutos para cá. Como se estivesse com a vista nublada; pisquei e o dia mudou. Quando percebi estava aqui, falando com você, de pé ao seu lado. Por favor, leve o recado para a velha. Diga que não sentirão falta da sobremesa. Mas não conte para ela que esqueci de usar protetor solar.