A jornada continua: Pokémon faz 20 anos ainda com bastante gás

Lá em 27 de fevereiro de 1996, eles eram apenas 151 em um par de jogos para Game Boy (“Pokémon Red” e “Pokémon Green”). Hoje, são 721 criaturas em seis regiões, quase 900 episódios do anime, 19 filmes, 52 volumes de mangá, mais de 50 jogos, milhares de produtos e um império que chega a cerca de 40 bilhões de dólares desde sua criação. A franquia “Pokémon”, idealizada pelo japonês Satoshi Tajiri comemora 20 anos em 2016 e se mantém como uma das bem sucedidas da história do mundo geek. Inovações, estratégias e as múltiplas possibilidades de diversão possíveis amparam os negócios e a legião de fãs continua a querer capturar cada vez mais os monstrinhos.

Desenvolvida a partir do passatempo de criança de Satoshi — capturar e colecionar insetos -, a ideia original foi aprimorada e gerou a base de grande parte da franquia: o jogador deve passar por oito cidades de uma região, desafiar e vencer os líderes de ginásio, depois derrotar a Elite dos Quatro (os mais fortes combatentes daquela localidade) e pegar todas as criaturas, chegando ao grau de Mestre Pokémon. O interessante é que no jogo, o usuário tem a possibilidade de se sentir como um verdadeiro treinador e, apesar, de haver um roteiro a ser seguido, ele tem a liberdade e decidir como montar seu time de batalha ou qual Pokémon evoluir.

Ash Ketchum e Pikachu surgiram quando o anime foi lançado em 1997. Eles, Misty, Brock, Enfermeira Joy, Squirtle, Charmander, Bulbassaur, a Equipe Rocket, entre tantos outros personagens se tornaram febre mundial. Muitos se despediram ao longo da jornada do protagonista pelo anime e filmes, mas a relação que os fãs criaram, muitos desde bem criança, com a dupla é de amizade e parceria.

Imagem comemorativa dos 20 anos da franquia Pokémon. O personagem mais famoso, Pikachu, e os pokémon iniciais das seis regiões existentes na história (Crédito: Reprodução Internet)

Para todas as idades e gostos

“Pokémon” chegou até para os que nem eram nascidos quando este universo surgiu. Cauã de Brito Chaves tem 11 anos e é muito fã dos personagens. Sua mãe, Maira Brito, de 34 anos, conta que ele conheceu a história pela Internet há uns três, quatro anos. “O Pokémon favorito dele é o Rayquaza. Ele assiste aos desenhos e também joga. Muito mais do que eu gostaria, aliás”, conta ela rindo.

Maira não considera os jogos e os desenhos violentos, até acha “fofinhos os bichinhos” e que o sucesso pode vir exatamente daí. “Tenho a impressão de que isso meio que encanta as crianças e os adultos também”, analisa ela, que tem uma irmã de 40 anos que ama “Pokémon’.

Ao longo de todos esses anos, foram muitas as complementações e discussões em relação à história em si: novos tipos de Pokémon, novas gerações, as mega evoluções, entre outros adendos, o que trouxe (muita) polêmica, discussão e, acima de tudo, mais atenção ao jogo. Quem não se lembra do caso de epilepsia fotossensível que ocorreu durante a exibição do capítulo 38 (banido até hoje) e afetou cerca de 800 crianças? Existe até um grupo de fãs conhecidos por “genwunner” (algo como geração um em inglês), que só gosta das criaturas da primeira temporada e costumam criticar muito os outros 571 restantes.

O youtuber e designer gráfico Ethan Bridges, de 27 anos, não liga para as mudanças, acreditando que o êxito nesses 20 anos estão na renovação e adaptação às novas gerações de seguidores. Segundo ele, as estratégias mudam e isso faz da produção atemporal, viva e instigante. “Gente que fala “ah, mas tá muito Digimon isso” ou “preferia os 150 originais”, claramente são pessoas que só acompanharam alguns episódios do anime e nunca se entregaram ao jogo em si”, ele defende. Em se tratando de debates acalorados e questões de conflito, o cenário dos animes, inclusive “Pokémon”, sempre tem assuntos interessantes.

“O importante é se sentir parte daquilo tudo”, fala youtuber sobre Pokémon e suas propostas

Em seu canal no Youtube (o “Culpa do Ethan”), o designer gráfico costuma falar de diversos assuntos e por algumas vezes, a pauta foi representatividade de gêneros e homofobia, entre outros, e, em outras, os animes marcaram presença. No mundo (de fantasia) dos heróis japoneses, não há tanto espaço assim para preconceito, mas, muitas das pessoas que acompanham as séries acabam tendo atitudes extremas, falando da sexualidade de personagens e até de fãs também.

“Sailor Moon”, por exemplo, tem um casal assumido de lésbicas. “Saint Seiya” e tantos outros animes têm guerreiros com toques de feminilidade. O Japão é muito sutil em tratar assuntos assim em suas produções, até certo ponto. Até em “Pokémon”, no episódio 18, James, vilão da Equipe Rocket, usa um disfarce de mulher, reproduzindo até seios. Por conta de se achar que as cenas não eram apropriadas para o público infantil, houve censura. Aliás, há outros capítulos e em tantas outras animações, há casos como este, abordados de modo bem menos crítico do que por aqui.

Sobre estes temas em comum, Ethan comenta que a proposta dos animes e games é promover um mundo onde você possa escapar um pouco da realidade e se tornar alguém especial, alguém com uma força capaz de mover mudanças, seja homem, mulher, guerreiro, paladino. Para ele, o importante é se sentir parte daquilo tudo. Em contrapartida, o youtuber relata que há grande parte da comunidade gamer e até os otakus (fãs de cultura japonesa em geral, incluindo animes e jogos) que são extremamente dotados de preconceitos e pensamentos retrógrados, como achar que mulheres gamers não são tão boas quanto os homens.

“Apesar do avanço da luta contra o preconceito em todos os seus aspectos, ainda encontramos pessoas com pensamentos pequenos como esses”, diz Ethan, explicando que até no universo dos cosplayers (pessoal que se fantasia de personagens), muitos desmerecem a arte de quem se apresenta como um herói do sexo oposto. Com monstrinhos que trazem certa delicadeza em suas existências e não tem gênero definido, como Mew, Celebi, Jirachi, Shaymin, Xerneas, entre tantos outros e, simultaneamente, estão entre os mais poderosos, “Pokémon” mostra que para ser forte, nem sempre é preciso ser másculo.

Um futuro ainda sem pressa para terminar

“Pokémon” sempre se renova e muitos se perguntam até quando e aonde toda esta criatividade vai. Entre as atuais novidades, há “Pokémon GO” e sua proposta de realidade aumentada, trazendo as criaturas para o mundo real, o lançamento do 19º filme no meio do ano no Japão (“Pokémon the Movie: Volcanion and the Ingenious Magearna”), o anúncio de dois novos jogos (Sun e Moon) para o final de 2016 e possivelmente, a sétima geração de mascotes.

O tempo traz mais novidades para um universo extenso que não para de crescer. O fascínio que a franquia causa em seus fãs, dando-os a possibilidade de ser um herói e batalhar para ser um Mestre Pokémon parece estar longe de acabar. Ouve-se dizer muito que em time ganhador, não se mexe. Com “Pokémon”, mexe-se no time, na jogabilidade, em tudo, e o faturamento e a diversão continuam.


Originally published at www.satisfashionbrazil.com.

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