A mania de ter uma vida cercada de hábitos

"Nossas crenças se transformam em pensamentos, os pensamentos em palavras, as palavras se tornam ações e estas ações repetidas se tornam hábitos. E estes hábitos formam nossos valores e nossos valores determinam nosso destino" — Mahatma Gandhi

Você já parou pra pensar quais são seus hábitos? Eu também não [até escrever esse artigo]. Na verdade, por não gostar de rotina sempre achei que tinha poucos hábitos — e quase nenhuma mania. É engraçado como as vezes nos relutamos ou somos displicentes em observar os nossos próprios comportamentos… mais engraçado ainda é como um momento de reflexão pode ser revelador.

Acordar e ir direto pro banho, tomar shake, escovar os dentes e ir pra Samba; ligar e desligar o carro sempre fazendo as coisas na mesma ordem; carregar minha caneca de água em todos os momentos; entrar na empresa fazendo sempre o sinal da cruz; andar pra cima e pra baixo com meu Moleskine; ficar mexendo na barba de forma irritante; amarrar o cadarço sempre de "borboleta"; chegar em casa e ir direto lavar a mão [obrigado por me ensinar esse hábito, mamy!]; dormir sempre com o celular debaixo do travesseiro; o domingo "sagrado" em casa (que é motivo de piada entre meus amigos, né Lucas?)… Ufa! Segura aí essa listinha de hábitos e manias, amigo! (Se espremer mais um cado ainda saí um tanto).

Joia! Mas mais do que simplesmente escrever esse tanto de coisas aí acima, esse exercício me fez pensar: qual a diferença entre hábito e mania? Foi aí que fui pesquisar sobre mania, já que em hábito fiquei expert depois ter lido The Power of Habit do Charles Duhigg [Vale bem a pena, viu?].

Pra começar já com os pés no peito a primeira coisa que li sobre mania foi: "originalmente, a palavra 'mania' surgiu a partir do grego manía, que pode ser traduzido como 'estado de loucura' ou demência". Ní! Uma definição menos trágica conseguiu ser mais didática: "como 'mania' entende-se um comportamento involuntário, mas com uma frequência exacerbada como, por exemplo, lavar as mãos várias vezes. Nesse estágio há um sentimento de controle, angústia e sofrimento, diferente do hábito que é natural".

Meio tenso ainda, né? Mas essa aí já deu a deixa para falarmos de hábito: "hábito é um comportamento aprendido. Como todo comportamento, envolve um estímulo externo e uma recompensa para sua criação e manutenção". Não vou entrar muito no livro, porque o objetivo desse post nem é ser um resumo, mas Duhigg fala que os hábitos surgem porque o cérebro está o tempo todo procurando maneiras de poupar esforço. Um hábito começa com uma escolha consciente e depois acaba virando uma ação rotineira que acabamos fazendo sem pensar.

Segundo o livro, basicamente o hábito funciona como se fosse um loop:

  • Começa com uma Isca: estímulo que manda o cérebro entrar em modo automático, e indica qual hábito deve ser usado;
  • Leva à uma Rotina, que é a forma de executarmos o que foi ativado pela isca para não nos sentirmos decepcionados;
  • Atrás de uma Recompensa: que ajuda o cérebro a saber se vale a pena memorizar este loop para o futuro;
  • E ligando tudo isso vem a Expectativa: desejar muito a recompensa a ponto de realizar novamente a rotina que foi criada.

Já que esse post está com uma pitada de "tapas na cara", segura essa: Os hábitos não podem ser eliminados, apenas modificados. "Então quer dizer que eu nunca vou conseguir parar de fumar?" [ou usando um exemplo meu: mexer na barba de forma irritante]. Calm down! Segundo nosso amigo Charles Duhigg é preciso encontrar uma rotina alternativa que nos dê a mesma recompensa.

E tudo isso passa pela força de vontade, em alguns casos se apegar a fé (sim, é verdade!) e pelo auto-conhecimento sobre cada uma das etapas que compõe o hábito. O próprio autor fala de fazer experimentos para identificar qual a sua isca, recompensa, etc. [Se você quiser saber mais sobre o livro, o site 12min tem uma resenha maravilhosa sobre ele].

Bom, depois dessa "aula teórica" sobre os conceitos, o que ficou claro pra mim é que mania e hábito são bem parecidos e mais uma vez eles acabam esbarrando em conceitos de psicologia e filosofia [aí, mamy… mais uma, hein?]. A grande diferença na minha opinião é que mania acaba sendo algo um pouco mais intenso e "incontrolável", mas assim como no hábito acabam sendo automáticos e constantes. Meio filme do Almodóvar isso tudo, né?

Enfim, o mais interessante é que eu acabei percebendo que, de fato, sou uma pessoa que tem vários hábitos e manias — e que como disse Gandhi [que eu descobri que morreu no dia que eu nasci!] — que moldaram meus valores. O próprio exercício de fazer minhas metas todos os anos é um hábito que cultivo há um tempo.


No post sobre motivação eu escrevi que: "[…] suas metas são você. É o que te guia no mundo e define suas ações. Ainda acredito nisso, mas adicionaria mais duas palavrinhas nessa frase: motivação e persistência". Mas olha que interessante: se colocarmos hábitos e manias nessa equação vamos ter um equilíbrio maior [segura essa, Andre Horta!]. Com motivação e persistência você vai acabar atingindo suas metas, mas o que acaba definindo quem você é são os seus hábitos e rotinas que fazem parte do seu cotidiano — e que vão contribuir com ações para você chegar nos seus objetivos.

Você pode ter maus ou bons hábitos (e manias), mas fato é: eles fazem parte da sua vida. Em alguns casos você pode nem saber que eles existem… até olhar pra si mesmo e ver que precisa mudar alguma coisa da sua rotina. Já que nosso querido escritor Duhigg falou que não dá pra mudar os hábitos, só substituí-los, o primeiro passo é de auto-conhecimento. O segundo de força de vontade. Já sabe que o hábito quer mudar? Ótimo: você já largou na frente. Agora mãos à obra!

Quem sabe você não cria o hábito de mudar maus hábitos, ou melhor ainda: transforma em hábito as suas ações de sucesso? ;)

Escrever minhas atividades diárias (e milhões de outras coisas) no Moleskine: um dos meus hábitos do dia a dia
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