"Fiz tudo certo e perdi"

Confesso que desde que o Rio foi escolhido como sede dos Jogos Olímpicos 2016 até a abertura oficial eu não tinha me empolgado com o fato do maior evento esportivo do mundo estar acontecendo no nosso país. Sem entrar no mérito de patriotismo ou se estamos ou não fazendo bonito, uma coisa me chamou muito a atenção nessas Olimpíadas: a entrega e dedicação dos atletas em prol de um objetivo único: fazer o seu melhor para conquistar uma medalha. Em alguns casos são 4 anos, em outros uma vida inteira. Não importa. Foi uma escolha: representar seu país, se dedicar de corpo e alma para conquistar o direito de participar da competição, lidar com a pressão e se esforçar loucamente — em alguns casos em menos de 10 segundos — para meter um pedaço de metal no peito. Toda essa entrega vem de uma motivação, uma persistência, um desejo sobrenatural de querer alcançar um objetivo. Algo nobre, em alguns casos até emocionante.

Conversando com a mamy num almoço sobre tudo isso acabamos falando sobre determinação/persistência. Fui pesquisar sobre e li uma definição muito interessante: “Determinação é um sentimento emocional positivo que envolve a perseverança para alcançar uma meta difícil, apesar dos obstáculos. Determinação ocorre antes da realização de um objetivo e serve para motivar o comportamento que irá ajudar a alcançar a meta. Tem a ver com decisão, resolução, firmeza e arrojo. É característica própria de pessoas intrépidas e corajosas” [acabou combinando bem com o que escrevi sobre Motivação]. Só que em meio as pesquisas acabei encontrando um outro conceito: obstinação — que acabou confirmando o que escrevi no parágrafo acima: “uma pessoa obstinada é aquela que insiste, que tem objetivos claros e que não desiste de alcançar esses objetivos. Ser obstinado é se agarrar firmemente a uma ideia, mesmo que ela esteja errada e em alguns casos é ser relutante, teimoso e inflexível”. Ixi. Insistir para alcançar seus objetivos é legal, ser teimoso, relutante e inflexível, não.

De qualquer forma, ambos os conceitos têm uma interseção: estão ligados a alcançar um objetivo. Algo que você definiu, se dedicou, se esforçou, se entregou de corpo e alma, abriu mão de muita coisa, em alguns casos passou por cima de mantras/padrões, conviveu com uma pressão interna e externa... Mas e quando não dá certo? Nú! Forte, né? "Poxa, mas eu fiz tudo certo e perdi?". É a primeira pergunta que a gente se faz — e imagino o quanto os que participaram das Olimpíadas não fizeram essa mesma pergunta durante esse mês. É doído. É frustrante.

E além de ter que lidar com essa dor e com a frustração, acho que a parte mais complicada é enfrentar a síndrome do "se". "Se eu tivesse feito isso, ou aquilo, ou deixado de fazer aquilo outro". Não precisa ser atleta Olímpico para já ter vivido essa situação. Adicione qualquer palavra ou termo a frase: "Se eu tivesse _______ teria conseguido". Pronto! Você tem uma paranóia para chamar de sua. Não é fácil. Não mesmo. É uma descarga emocional, uma pressão e um peso enorme caindo nas suas costas. Acho que frustração está nos sentimentos mais difíceis de lidar nesse mundão. Frustração com você, com um amigo, com um familiar, com um relacionamento…

Nessas horas vem mil perguntas na nossa cabeça. Mas a mais constante e presente é "por quê?". Por quê eu não consegui? Por quê tem que ser assim se eu me dediquei? Por quê se eu fiz tudo certo? POR QUÊ?! Ah, como eu quis ter essa resposta zilhões de vezes — algumas em situações mais antigas, outras bem recentes. Mas não tenho. Fato é que temos que aceitar que as vezes o adversário era melhor, as vezes as circunstâncias não favoreceram, as vezes realmente você não se dedicou o suficiente, as vezes o timing não era o ideal, as vezes você chegou tarde demais, as vezes não era o momento para você. Difícil tentar entender tudo isso. Temos raiva, tristeza, angústia, medo, sentimento de impotência.

Mas é justamente nessa hora que é importante saber lidar com a situação, ou seja, ter: Inteligência Emocional. Essas duas palavrinhas separadas já querem dizer muito, mas juntas têm uma força ainda maior. Segundo o Wikipedia esse é um conceito de psicologia que descreve a “capacidade de reconhecer os próprios sentimentos e os dos outros, assim como a capacidade de lidar com eles”. Lembro quando eu tinha uns 8 anos e a mamy estava lendo um livro grosso sobre isso [sempre perguntava pra ela quantas figuras tinha o livro…]. Já mais velho fui ver que aquele era o livro do Daniel Goleman, um dos pais desse termo [infelizmente ainda não li o livro, mas está na minha lista. Falando desse assunto, o Fernando Pacheco escreveu um artigo brilhante sobre inteligência emocional no trabalho. Vale a leitura]. Goleman diz que IE é “a capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos.” Olha que interessante: saber gerir as emoções dentro de nós.

Como você lida com a frustração — ainda mais a frustração de quando você fez "tudo certo"? Tem raiva? Tristeza? Paralização? Aprendizado? Impossível generalizar ou mesmo dar uma receita de bolo. Só que como já diziam meus ídolos do Revelação na música Conselho: “É que em cada experiência / Se aprende uma lição” [tava faltando um pagode aqui, né? ;)]. O segredo é tentar entender o que essa experiência quis dizer para você. Fácil chegar aqui e escrever isso, né? Também acho. Mas se você não tiver resiliência, saber controlar/gerir suas emoções e tentar aprender com o seu fracasso ninguém vai fazer isso por você — podem até fazer "com" você (sempre importante o apoio e ajuda da família, amigos, treinadores…), mas nunca "por" você.


"Fiz tudo certo e perdi". Péra. Mas será que você fez tudo certo mesmo? As vezes não, as vezes sim. Fato é que aconteceu, você perdeu. E a partir daí você só tem duas escolhas: saber lidar ou desistir.

Pode acontecer de não ser a sua hora e realmente você ver que o melhor caminho é desistir. Se você tiver a consciência de entender isso você conseguiu ser determinado — e não obstinado. Mas por outro lado, se você está convencido de que ainda dá pra chegar ao resultado e que aquilo é o certo a fazer, você vai ter que exercitar o "saber lidar". E aí isso envolve aceitar, trabalhar os sentimentos (com inteligência emocional), aprender a lição (ter resiliência) e seguir em frente — seja na mesma batalha, ou em novas empreitadas [dava até mais uma equação, mas chega de matemática por aqui].

Acaba sendo curioso falar de sentimentos e emocional numa competição 100% física como são dos Jogos Olímpicos. Mas talvez seja esse o segredo dos grandes atletas: trabalhar tanto o corpo quanto a mente [Ryan Lochte que o diga, principalmente quando falamos de "mente" ;)].

Bora aprender com eles? ;)

Na formatura da Juju, comemorando com ela a sua determinação em não desistir da Medicina

PS1: Se já tivemos histórias de superação e determinação nas Olimpíadas imagina nas Paraolimpíadas?

PS2: Ganhamos o Ouro no Futebol — e contra a Alemanha! #chupamundo #nãofaltamaisnada

PS3: Vi no Facebook do meu amigo e profissional brilhante da CBF, Fabio "Mano" Moraes — um dos responsáveis por ajudar a profissionalizar os treinadores no Brasil — um depoimento sensacional do atleta Caio Bonfim sobre o orgulho que ele teve de ter conquistado o quarto lugar na marcha atlética, mesmo com o preconceito e mesmo sem ter subido ao pódio. [Veja a entrevista completa. Vale a pena].