Funcionário Notável — 4. Infortúnio


– Rapaz, vem cá — chamou de lado o Flávio — Parece que a Fabiane está com um problema de saúde e não vai poder vir hoje. Você quer fazer a apresentação da área pro Rasmussen?

Glício até se beliscou. Quando menos esperava, veio a melhor oportunidade. Tinha se enganado sobre o chefe. Podia sentir as ondas de confiança que emanavam dele. Que momento! “Falar em história da Milompas é um pouco demais, mas se pensar na Milompas Brasil, acho que é bem marcante…”, ponderou. Sentia-se pronto.

Contudo, uma gota de suor frio correu por sua têmpora quando o executivo escandinavo entrou na sala. Para Glício, era o próprio Deus Sol. O poder emanava de seus pelos loiros, seus dentes e abotoadeiras brilhavam como diademas milenares e não havia nada que lhe fosse impossível naquela sala. Dentro de sua cabeça, ocorriam as decisões sobre o futuro da 54ª marca mais lembrada pelos consumidores na América Latina. Suas mãos assinavam papéis determinantes para a vida de milhares de funcionários. No topo da pirâmide dourada, Rasmussen-Hütz olhava por todos.

Confortável em sua poltrona, testou o tradutor simultâneo e lançou um olhar simpático para Glício: podia começar. Brilhava na tela a projeção do slide amarelo, com o logo da empresa. “Marketing, branding & communication for pet food”, avisava o subtítulo. Flávio esfregava a sola dos sapatos no chão ao lado do presidente, com o resto da equipe logo atrás. O rapaz da T.I. murmurava zangado, e a luz do projetor cegou Glício por um milésimo. Ele sabia a primeira palavra. Na tela, o slide amarelo-mostarda.

– Bom dia.

E todo o resto sumiu, dando lugar a sílabas desconexas.

MRH franziu a sobrancelha. Um raio atravessou o estômago do assistente, que podia jurar que desmaiou por uma fração de segundo, só não a tempo de cair. Balbuciava, gago, palavras incoerentes. Percebeu que não poderia continuar. Como uma debutante humilhada em sua própria festa, cobriu o rosto e correu trêmulo para fora do auditório. Flávio juntou as mãos e murmurou algo sobre alguém parindo.

Demoraram a acudir o Glício, escondido numa cabine do banheiro masculino. Ali, lavou a alma. Chorava de soluçar, rebaixado, perdido, em dúvida de si mesmo. Não lembrava-se de tragédia maior em sua vida, e agora tinha certeza de que atingira o ponto mais baixo em sua trajetória na Milompas Adnardes. Embebido na desonra, poetizou: “pobre de mim.”

Acabou resgatado pelo estagiário e voltando em silêncio para a sala, onde a Camila fazia a apresentação, tensa. Evitou o contato visual com os colegas e segurou o choro em momentos especialmente emocionais da reunião. Durante o almoço, desmoronou. O refeitório parou para ver a choradeira e a chefe quis poupá-lo:

– Vai pra casa descansar, Glício. Amanhã você volta melhor.


A história do Glício é contada em 5 partes. Não perca o fio da meada!

Parte 1: http://bit.ly/1FnXvfd

Parte 2: http://bit.ly/1FnXVCk

Parte 3: http://bit.ly/1AnoyZ2

Parte 5: http://bit.ly/1FQNXg4