Calculando o Natal — a história por trás do 25 de dezembro

(por William J. Tighe. Tradução e adaptação: Pedro G. Menezes)

“A Natividade”, Tintoretto

Muitos pensam que celebramos o nascimento de Cristo no dia 25 de dezembro porque os primeiros cristãos se apropriaram de uma festa pagã. Quase ninguém se importa com isso. Somente certos grupos de pessoas se recordam, todo ano, dessa possível curiosidade, geralmente alguns novos ateus ou grupos evangélicos nos extremos da literalidade bíblica, imaginando que diminuem a validade do Natal ao considerá-lo ser, ele próprio, um festival pagão.

O mais interessante dessa história, no entanto, é que a data de 25 de dezembro foi o resultado de uma série de tentativas dos primeiros cristãos para descobrir o dia do nascimento de Jesus a partir de cálculos de calendário que nada tinham a ver com festivais pagãos.

Na verdade, é mais provável que a história tenha sido o contrário do que se conta. O festival pagão do “Nascimento do Sol Invencível” — Natalis Solis Invictus — foi, com quase certeza, uma tentativa de se criar uma alternativa pagã a uma data de certa significância para os cristãos romanos.

Com isso, as origens pagãs do Natal é um mito sem substância histórica.

A ideia de que a data do Natal foi “roubada” dos pagãos remete a dois estudiosos dos séculos dezessete e dezoito. Paul Ernst Jablosnki, um protestante alemão, pretendeu mostrar que o Natal em 25 de dezembro foi uma das muitas “paganizações” criadas pelo catolicismo e adotadas pelo cristianismo a partir do quarto século. Dom Jean Hardouin, um monge beneditino, procurou demostrar que a Igreja Católica adotou festas pagãs como forma de evangelização sem, no entanto, paganizar o Evangelho.

Mas vamos desvendar a história desde o começo. No calendário juliano, criado sob o imperador Júlio César em 45 a.C., o solstício de inverno caía no dia 25 de Dezembro. Era natural, portanto que Jablonski e Harduin encontrassem nesta data um significado pagão anterior ao cristão.

Porém, antes do tempo de Aureliano, que reinou do ano 270 até ser assassinado em 274, o dia 25 de dezembro não possuía qualquer significado religioso no calendário de festas pagãs em Roma e não havia nenhuma proeminência do culto do sol entre os romanos.

Havia dois templos dedicados ao sol em Roma. Um deles (mantido pelo clã no qual Aureliano nasceu ou pelo qual foi adotado) celebrava sua festa de dedicação em 9 de agosto. A festa de dedicação do outro templo era em 28 de agosto. Ambos perderam importância a partir do segundo século, quando cultos ao sol vindos do oriente, como o mitraísmo, ficaram mais populares. De qualquer forma, nenhum destes cultos, antigos ou novos, tinham festas associadas a solstícios ou equinócios.

O fato é que Aureliano era hostil ao cristianismo e parece ter promovido a criação do festival do “nascimento do sol invencível” para unificar os diversos cultos pagãos em Roma em uma única celebração anual do “renascimento” do sol.

Ele governava um império que dava sinais de decadência frente a revoltas internas, rebeliões nas províncias, crises econômicas e ataques repetidos das tribos germânicas pelo norte e do império persa pelo leste. Ao criar uma nova festa, Aureliano transformaria o evento que marca o início dos dias cada vez mais longos em um símbolo do renascimento, ou do rejuvenescimento perpétuo, do Império Romano, mantendo o culto aos deuses que (segundo os romanos) elevaram Roma à grandeza e à dominação mundial. Se a festa cooptasse uma celebração cristã, tanto melhor.

É verdade que a primeira evidência da celebração do Natal em 25 de dezembro veio de alguns anos após Aureliano, em 336. Porém, existem pistas de que tanto os cristãos latinos (ocidentais) e gregos (orientais) esforçaram-se para descobrir a data do nascimento de Cristo até mesmo no segundo e terceiro séculos, muito antes de ela virar uma celebração litúrgica oficial. Essas pistas indicam que a atribuição do dia 25 de dezembro foi, na verdade, resultado das tentativas em determinar quando celebrar a morte e a ressurreição de Cristo.

Em outras palavras, a decisão sobre o dia 25 de dezembro teve a ver não propriamente com o nascimento de Cristo, mas com sua morte e posterior ressurreição, com a Páscoa.

Calculando o dia… da morte

Como isso aconteceu? Para começar, existe uma contradição aparente entre os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas, chamados assim pelas suas semelhanças em narrativa e estilo) e o evangelho segundo João, quanto ao dia da morte do Senhor. Os sinóticos aparentemente indicam que ela ocorreu no dia da Páscoa (Pessach), após a ceia pascal ocorrida um dia antes; João diz que ela teria ocorrido na véspera da Páscoa, justamente quando os cordeiros pascais eram imolados no Templo de Jerusalém para a festa que deveria ocorrer ao anoitecer daquele dia.

Para resolver esta contradição, era preciso definir se a Última Ceia foi um banquete de Páscoa ou uma celebração realizada na véspera. Trata-se de uma questão longa. O que importa para nós agora é que a Igreja primitiva escolheu seguir o evangelho de João e acreditava que Jesus morrera no dia 14 de Nisan, segundo o calendário lunar judaico. Quanto a isso, há certo consenso entre estudiosos modernos de que a morte de Cristo só poderia ter acontecido em 30 ou 33 d.C, pois são os únicos anos naquela época em que a véspera da Páscoa caiu numa sexta-feira, dia 7 de abril de 30 ou 3 de abril de 33.

Entretanto, a Igreja primitiva afastou-se do judaísmo e entrou em um mundo com diferentes calendários, onde teria de definir quando celebrar a Paixão do Senhor de forma independente dos cálculos rabínicos da Pessach.

Uma vez que o calendário judaico era um calendário lunar com doze meses de trinta dias cada, um décimo-terceiro mês tinha de ser adicionado periodicamente por um decreto do Sinédrio (a assembleia de juízes de Israel) para manter o calendário sincronizado com os equinócios e solstícios, ou então as estações cairiam em diferentes partes do ano com o passar do tempo.

Além da dificuldade de seguirem (ou mesmo conhecerem) o dia da Páscoa judaica em determinado ano, os primeiros cristãos teriam sérios problemas se seguissem um calendário lunar próprio, criando conflitos com judeus, pagãos e, provavelmente, entre os próprios cristãos. Durante o século II, houve bastante discussão sobre se a Páscoa deveria cair sempre no domingo ou em qualquer dia da semana após 14 de Nissan — uma disputa que seria bem pior sob um calendário lunar.

Os cristãos gregos, que viviam na parte oriental do império, e os cristãos latinos, na parte ocidental, lidaram com o desafio de formas diferentes. Os gregos buscaram uma data equivalente ao 14 Nissan em seu próprio calendário solar e, como Nissan era o mês onde ocorria o equinócio da primavera, eles escolheram o 14 de Artemision, que sempre caía na primavera. Por volta do ano 300, o calendário grego foi substituído pelo calendário romano. Os inícios dos meses de ambos os calendários não coincidiam, e 14 de Artemision virou 6 de abril.

Em contraste, os cristãos latinos em Roma e no norte da África procuraram estabelecer, por meios históricos, a data da morte de Jesus e, na época de Tertuliano, concluíram que Ele morrera na sexta-feira, 25 de março de 29 (o que, nota-se, era impossível: 25 de março de 29 não foi uma sexta-feira, e a véspera da Páscoa do ano 29 sequer foi em março).

Idade integral

Então, para o dia da morte de Jesus, temos 6 de abril no Oriente e 25 de março no Ocidente. Neste momento, um conceito importante deve ser apresentado para entendermos que relação esta enorme querela de calendários tem a ver com o Natal. Trata-se do conceito de idade integral.

No judaísmo da época de Cristo, havia indícios da disseminação de uma crença conhecida como a “idade integral” dos grandes profetas de Israel: eles teriam morrido no mesmo dia de seu nascimento ou concepção. Esta ideia perdeu-se durante o advento do cristianismo, uma vez que não está na Bíblia e detalhes não-bíblicos da vida dos profetas, alimentados por crenças populares, perderam importância diante do conhecimento sobre a vida de Cristo e a formação do Novo Testamento.

De qualquer forma, durante os primeiros séculos do cristianismo, esta ideia foi aplicada à vida de Jesus — portanto, os dias 25 de março e 6 de abril seriam não apenas as datas em que Jesus supostamente teria morrido, mas também da Sua concepção ou nascimento.

A primeira hipótese, a da concepção de Cristo, acabou prevalecendo, e até hoje a Festa da Anunciação é comemorada quase universalmente entre os cristãos, quando o Arcanjo Gabriel anunciou a vinda do Salvador à Virgem Maria e, com a aceitação dela, o Verbo Eterno de Deus (“Luz da luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro, gerado do Pai antes de todos os séculos”) veio a se encarnar em seu ventre. Uma gravidez dura nove meses. Conte nove meses a partir de 25 de março e chegamos em 25 de dezembro. Nove meses a partir de 6 de abril é 6 de janeiro. O dia 25 de dezembro é Natal, 6 de janeiro é a festa da Epifania.

Natividade: Iconografia bizantina

O Natal em 25 de dezembro é uma festa de origem cristã ocidental. Em Constantinopla, capital do Império no Oriente, ela foi introduzida em 379 ou 380. Em Antioquia, também no oriente, a primeira celebração do Natal foi provavelmente em 25 de dezembro de 386, segundo um sermão de São João Crisóstomo, famoso asceta e pregador daquela cidade. Destes dois centros, o Natal em 25 de dezembro espalhou-se pelo oriente cristão, sendo adotado em Alexandria por volta de 432 e em Jerusalém mais de um século depois. Os armênios, com sua própria igreja cristã primitiva, nunca adotaram a festa e até hoje celebram o nascimento de Cristo, a manifestação aos reis magos e Seu batismo tudo no mesmo dia, em 6 de janeiro.

As igrejas no ocidente, por sua vez, adotaram gradualmente o 6 de janeiro como festa da Epifania — Roma o fez entre 366 e 394. Todavia, o ocidente sempre tratou a Epifania como uma festa importante, mas não tanto quanto o Natal. No oriente, a Epifania é a segunda maior festa do ano litúrgico, ultrapassada apenas pela Páscoa.

Uma festa cristã

A data 25 de dezembro como comemoração do Nascimento de Cristo, pelo que parece, não tem qualquer relação ou influência do paganismo da época do Constantino ou posterior. É bastante improvável que Cristo tenha mesmo nascido em um 25 de dezembro — porém, esta data resultou totalmente de um esforço dos primeiros cristãos em determinar a data histórica da morte de Cristo.

A festa pagã instituída pelo imperador Aureliano neste dia, no ano 274, não foi apenas uma tentativa de dar um uso político ao solstício de inverno, como também de trazer um significado pagão a uma data que já gozava de alguma importância entre os cristãos de Roma. Os cristãos poderiam, por sua vez, ter reapropriado posteriormente o “nascimento do sol invencível” pagão para se referirem, na ocasião do nascimento de Cristo, ao “sol nascente da salvação” ou ao “sol de justiça”.

Referência: Thomas J. Talley, “The Origins of the Liturgical Year” (The Liturgical Press)

William J. Tighe é professor associado de História no Muhlenberg College em Allentown, Pennsylvania, e conselheiro acadêmico do Catholic Campus Ministry. Este artigo foi originalmente publicado na revista Touchstone em 2003, com o título “Calculating Christmas”