Praça Floriano (Cinelândia) com o Theatro Municipal e o Museu de Belas Artes: um dos meus favoritos no centro do Rio

O Museu está no Rio, mas é Nacional

Pedro G. Menezes
Sep 6, 2018 · 5 min read

Preciso começar este texto com um testemunho. Pior: com uma confissão, em certa medida, vergonhosa. Eu era (talvez ainda seja; é um processo) uma daquelas pessoas que decretaram o fim do Rio de Janeiro. Não apenas se acabou: está destruído, não tem mais jeito, e que o resto do Brasil deveria abandoná-lo à própria sorte, de preferência cercando-o com um muro, para evitar contaminação.

Esta auto-acusação é ainda mais grave considerando que sou brasiliense nascido e criado, e nunca morei no Rio de Janeiro. A maior empreitada da história nacional, que centralizou a capital do país e provocou boa parte da desgraça do Rio, é parte intrínseca da minha história pessoal. Não posso criticar ou elogiar nem uma nem outra, nem Rio nem Brasília, desvencilhado deste fato.

O Rio recebia de mim o epíteto do pior lugar para se viver (ignorava, é claro, que todo lugar pode ser bom para se viver, a depender da conveniência e do dinheiro disponível). Eu estimulava qualquer carioca a largar o Rio o mais rápido possível, como fazem algumas boas almas brasileiras que incentivam qualquer um a largar o Brasil e virar imigrante (em país desenvolvido, tipo EUA, Canadá, Alemanha; ninguém sugere ser imigrante no Mali). Não culpo essas pessoas tão “bem-intencionadas”, assim como não culpo quem deixa o Rio por causa de seus problemas. No entanto, tamanha boa-fé está errada, compreensivelmente, porém ainda totalmente errada em seu egoísmo e a visão estreita própria dos egoístas. Assim como estive errado, até poucas horas atrás, a dessacrar o Rio. Abandonar não é resolver o problema nem ajudar a quem fica.

De qualquer forma, passei repentinamente a enxergar o Rio com os olhos do País, deixando de lado os óculos do bairrismo. O fato instigador dessa mudança foi o incêndio no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista.

A tragédia no Museu Nacional, que acabou com mais de 20.000 peças preservadas de valor inestimável, é um retrato da destruição do Rio. Também é um retrato os sete incêndios em sete anos em algum prédio da UFRJ. E o casal de professores sequestrados por bandidos durante onze horas, só para ficar na UFRJ. E a confusão no Palácio Tiradentes e a falência da Alerj. E os professores do Estado sem receber salário durante meses. E, puxa vida, até um passeio de meia volta pelo Largo da Carioca — com seus bandidos, mendigos, camelôs e tudo o mais — são retratos da destruição do Rio.

Não ando toda semana no Largo da Carioca. O Museu Nacional, por sua vez, carregava duzentos anos de Brasil, e no Brasil passo todos os meus dias. Isso me conectou, ou melhor, me reconectou com o Rio de Janeiro por algum caminho misterioso, um caminho da nova capital de volta à velha capital. A desgraça do incêndio trouxe ao meu foco não tanto os problemas, mas possíveis explicações e soluções.

A epifania aí foi perceber que, quanto mais nos aprofundamos nos problemas do Rio, mais nos afastamos do Rio. Não falamos somente do Rio de Janeiro. É a destruição do país. O Brasil é o Rio. E não se conserta um país se lamentando, criando memes estúpidos, xingando nas redes sociais, fugindo pelo aeroporto.

Acabamos caindo na pergunta: qual é o valor que o Museu tem para você? Antes do incêndio — que trouxe uma onda justificada de indignação nas redes sociais — você lembrava que o Museu existia, visitou-o, ou fez campanha para sanar as muitas crises pelas quais o Museu passou pelos últimos anos? Não digo isso como forma de shaming, para pressionar o leitor contra a parede, mas com o fim de oferecer uma perspectiva. As culpas pelo incêndio foram distribuídas a rodo para todos os lados — todos os governos, partidos, leis de incentivo à cultura, empresas e vilões para todos os gostos. Na verdade, temos os mecanismos, o dinheiro, a vontade, os incentivos para salvar todos os museus que quisermos. Ao final das contas, é uma questão de valor que atribuímos ao que queremos salvar. E só damos valor àquilo que nos é caro; daí porque mesmo o que custa caro é pago de bom gosto quando é valorizado, e pouco podemos dizer (além de resmungos de desaprovação) quando alguém gasta mais num iPhone do que em cultura (ou seja lá o que valorizamos como “cultura”).

Encontrar valor no Museu Nacional, que agora é pouco mais do que chorar pelo leite derramado, não é muito diferente de encontrar valor nas coisas que afeta nossa vida cotidiana e mal notamos. Qual é o valor do museu da sua cidade? Da biblioteca, da calçada no seu quarteirão, dos eventos da sua cidade, do transporte público, do estacionamento que você se vê obrigado a pagar? Tudo isso remente inevitavelmente à vida em sociedade, àqueles desafios que todos partilhamos e, no entanto, geralmente nos limitamos a reclamar.

É a questão que me faço algumas vezes por dia. Temos muito em comum, especialmente em cidades grandes como o Rio (ou não tão grandes, porém problemáticas, como Brasília), mas nos dispomos pouquíssimo, se é que nos dispomos, a resolver problemas em comum. Vivemos em sociedade, um aglomerado de pessoas numerosas, diversas, aguardando um resultado positivo comum após a soma das decisões egoísticas; mas raramente nos permitimos viver em comunidade, sob um sentido de colaboração, de se importar pelo vizinho. Isso pode parecer piegas e utópico quando nos referimos ao Museu Nacional de que poucos lembravam antes do último domingo: de qualquer forma, o Museu está (estava) lá, com seu patrimônio cultural, que não é apenas do morador do bairro de São Cristóvão ou do morro da Mangueira, mas também do Distrito Federal e de João Pessoa.

E assim é um pouquinho do Rio de Janeiro, como é um pouquinho de São Paulo, de Belém, de Brasília, de Chapecó. Somos todos um pouco cariocas. Precisou que o Paço de São Cristóvão pegasse fogo para eu perceber (ou relembrar) tamanho fato. Não é preciso esperar que o resto do País se incendeie — ou se mude para o Canadá — para fazer algo a respeito.

Pedro G. Menezes

Written by

A fortuna das pessoas comuns. Inspirado por G.K. Chesterton.

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