Sobre mortificações e outros carinhos (na alma)

Gosto da Quaresma porque é um tempo que revela o interior de muitos corações, católicos ou não. Durante todo o ano, a mídia, as redes sociais e as mesas de bar estão repletas de pessoas com aquela desenvoltura confortável em admoestar a Igreja Católica sobre como ela deve ser católica, uma desenvoltura que não existe para com nenhuma outra religião: quem ela deve ordenar, como fazer um batismo, que padre devia casar, que gays deviam casar, que todo mundo devia descasar, como celebrar uma missa e até que dia deveríamos celebrar o Natal.

Durante a Quaresma, no entanto, os palpiteiros ganham um apreço todo especial em dar sua contribuição particular ao Magistério eclesial. Não se limitam a sugestões sobre como as normas litúrgicas deveriam ser menos chatas: instigam os católicos sobre o que eles devem pensar, festejar (se for festa sem motivo, tanto melhor) ou o que comer. Não bastam quatro dias de carnaval, tem que ter quarenta. Sugerem, como a cantora protestante Aline de Barros, que o cristão de verdade não tem quarta-feira de cinzas, mas “de fogo”, precisa ser sempre feliz e exaltante e glorificador o tempo inteiro. Ou como a página no Facebook Moça, você é machista, que aconselhou trocar a abstinência de carne por empaturrar-se de pratos bem servidos do politicamente-correto da moda, regados de luta contra homofobia e o machismo. Maldita cristandade de onde surgiu a liberdade de expressão e a laicidade do Estado. Moça, você só não sugere que muçulmanos comam porco ao invés de atirarem gays do alto de prédios para não ser acusada de islamofobia.

Sim, bacon. Pecado para a OMS e anátema para os veganos, mas para os escolhidos, quer judeus quer gregos, é bênção de Deus e abstinência nas sextas-feiras.

O catolicismo sempre confunde este mundo hedonista e auto-indulgente, mas alguma coisa na Quaresma enlouquece de vez os partidários do “o importante é ser feliz”, esquecidos há muito tempo do motivo de existir o carnaval. Algo neste tempo penitencial lembra ao mundo que aquela versão melosa da chamada “regra de ouro”, de não fazer aos outros o que não gostaria que fosse feito a si próprio — e seus corolários “sou livre para fazer tudo, contanto que não machuque ninguém” e “cada um faz como sentir melhor” — é a coisa mais egoísta e autodestrutiva que a modernidade conseguiu inventar. Se o importante é este objetivo individualista e autocentrado de ser feliz, são 7 bilhões de indivíduos tentando ser feliz, quase sempre à custa dos demais que impedem sua própria felicidade. Sete bilhões de morais diferentes para quem acredita que cada um tem a sua verdade. São verdades tão insólitas que não resistem à primeira contrariedade. Sentir-se bem é um objetivo tão vazio que desmancha feito um torrão de açúcar no café no primeiro momento que alguém se sente mal.

O ascetismo proposto neste tempo é uma petulância, um escárnio para este povo cujo ethos obriga a ser tão feliz o tempo inteiro. Quando todos dizem “faça o que te faz sentir bem”, o asceta diz “faça o que não te faz sentir bem”. O mundo te garante que está tudo certo com você se você for feliz; o asceta responde que nem tudo está certo porque tem algo errado em você. Afinal, tem algo errado em todo mundo. Esta afirmação é um disparate, uma imoralidade contra os amorais.

É este algo errado em si (reconhecido especialmente pelo asceta) é o que se tenta entender e ajustar com a mortificação, pois é algo que só vai piorar com mimos egoístas e afagos na cabeça.

Obviamente, este texto não é uma sugestão de torturas penitenciais intermináveis. É uma sugestão para conhecer a si mesmo, ao mundo e as realidades eternas. A mortificação é importante para nós, seres sensoriais, dependentes e birrentos, por inúmeros motivos. Alguns deles são:

  1. Eu não sei de tudo, nem posso tudo e tenho inúmeros defeitos apesar das minhas qualidades e potenciais; isso se expressa com muita facilidade nas necessidades corporais. Está tudo bem quando não passo necessidade, mas basta ficar apenas doze horas sem comer ou oito horas sem dormir direito para virar um pirralho reclamão.
  2. O sofrimento existe na minha vida. É ingênuo achar que serei feliz o tempo todo ou no final de um período pré-estabelecido por mim. Experimentar pequenas adversidades ajuda a nos prepararmos para as grandes.
  3. O sofrimento existe na vida dos outros, próximos e distantes. Acha ruim ficar algumas horinhas sem comer ou dormir? Muitos passam por isso todos os dias e não fazemos absolutamente nada por eles. As obras de misericórdia colaboram para aliviar o sofrimento dessas pessoas; a ascese nos leva a sofrer com elas, a ter compaixão e a nos unirmos espiritualmente a quem sofre.
  4. Uma das consequências em buscar a felicidade a qualquer custo é ser insensível ao sofrimento e às dificuldades do próximo. Qualquer um que atrasa minha busca pela felicidade é o adversário, está errado sem qualquer apelação segundo o meu critério completamente pessoal de felicidade — que é sempre infalivelmente certo. A mortificação é um excelente meio de formar um caráter resistente nas contrariedades, levando-nos a compreender que o cara que te ultrapassou no trânsito, o caixa que te deu o troco a menos e a atendente do aeroporto que te informou que seu voo foi cancelado nem sempre têm culpa.
  5. Pessoas que não aceitam o sofrimento como parte da vida nunca vão compreender que Deus está presente em todos os momentos de suas vidas, inclusive os ruins. Assim, pensam que “ser de Deus” é estar exultante sempre, têm dificuldade em glorificar a Deus quando sofrem e aquela alegria “de fogo” prometida pela cantora protestante não passa de enganação.

Em resumo, a mortificação é um caminho essencial para mergulharmos em uma vida total, ao invés de nos enganarmos num mundinho cor-de-rosa. O curioso é que, nesta era de aparência, que lambe as botas para sonhos de consumo e celebridades de plástico, existem muitos sacrifícios aceitáveis, contanto que a causa seja completamente superficial e passageira. Se fulano emagreceu vinte e dois quilos para fazer um personagem soropositivo na TV, todos dizem deslumbrados: “olha o que ele fez em nome da arte!”. Se fulana malha nove horas por dia e come apenas uma refeição diária de peito de frango com brócolis no vapor para ficar com a bunda da Bella Falconi e o abdômen do He-Man, todos dizem: “olha como ela se sacrifica para ter saúde e o corpo perfeito!”. Mas se o asceta faz jejum, usa cilício ou dorme uma noite no chão, todos acusam olhando torto: “isso é tortura, coisa de obscurantista medieval, católico que idolatra o sofrimento, masoquista”.

Estamos com sentimentos confusos, queremos uma vida plena sem no entanto nos dispormos a nos sacrificar por nossas almas, pelo próximo e com vistas às beatitudes eternas. Ao mesmo tempo, estamos abertos (ou pelo menos compreensíveis) aos sacrifícios mesquinhos para a última moda de aparência física ou para ser popular. Descobrimos todo o sentido e o fim último da dieta do suco, e dizemos que o monge jejua a troco de nada. Uma página de Facebook conclui, com superioridade ética, que o católico não faz nada na Quaresma além do sacrifício superficial e hipócrita de não comer carne — mas uma campanha para a “segunda-feira sem carne” pelos direitos dos animais toma ares de zênite moral.

Realmente, o sofrimento não tinha sentido por si só, mas ganhou todo o sentido com o sofrimento de Cristo na cruz. Se até do pior sofrimento Deus pôde tirar o maior bem, que é a reconciliação de todo o gênero humano a Si, é possível associar nossos pequenos sofrimentos a tamanho ato de amor para auferir o bem, como nas razões de mortificação que acabamos de ver.

Então, percebe-se uma diferença pequena, porém fundamental: o asceta jejua sorrindo, enquanto a moça-achando-que-precisa-perder-quatro-quilos-antes-do-verão faz dieta chorando.