Kintsugi

Pedro Graca
Sep 15, 2016 · 3 min read

Você com certeza já passou por isso: você está na cozinha, resolve pegar uma caneca no armário, se vira…. esbarra em algo e, em câmera lenta, vê — sem poder fazer nada — ela caindo e se quebrando no chão.

Depois de um brevíssimo momento de susto seguido por outro de luto pela sua caneca favorita que “se foi” você recolhe os cacos e joga tudo fora. Mas, e se eu te dissesse que existe outra opção? Você pode recolher os cacos e colá-los de volta.

“Mas você ainda pode ver que a rachadura naquela caneca filha da puta.”

Sim. Seja na sua caneca, tigela, espelho, relacionamento ou coração, quando algo quebra, você junta os cacos e cola tudo de volta as rachaduras são visíveis.

Mas… quem disse que isso é necessariamente ruim?

Aqui entra o Kintsugi: uma prática de remendo japonesa que abraça as falhas/machucados. Kin, dourado, Tsugi, marcenaria, é a arte que — utilizando uma mistura de resina e pó de metais preciosos — remenda objetos de cerâmica.

Muitos acreditam que esta tradição tenha surgido no século XV com Ashikaga Yoshimasa que teria quebrado uma de suas canecas de chá e a enviou de volta para a China para que fosse reparada apenas para recebê-la remendada com grampos metálicos. Kintsugi, então, acabou sendo um resultado da procura por uma forma mais estática de reparação.

Essa nova arte se tornou popular em todo o japão por tornar objetos remendados ainda mais belos que em sua forma original. Existem até, rumores de que Kintsugi se tornou tão popular que pessoas quebravam seus objetos de propósito para que pudessem ser consertados com esta técnica.

Calma. Vou me explicar.

Pense nisto: o motivo pelo sucesso da técnica Kintsugi não é porque ela utilizava materiais como ouro ou prata no remendo… A explicação é mais ideológica. Ao contrário dos ideais de beleza ocidentais, a cultura oriental é muito influenciada por visões do budismo, como o Wabi Sabi que vê a beleza das coisas em suas imperfeições. As fraturas nas cerâmicas não representam o seu fim, mas um momento essencial em sua vida. Suas falhas não são escondidas, pelo contrário, são mostradas e enaltecidas pela técnica.

E se trouxéssemos esse pensamento para nossas vidas? E se não pensássemos em nossas decepções amorosas, profissionais e pessoais como falhas a serem escondidas? E se, assim como no Kintsugi, não as escondêssemos, mas as abrasássemos?

Se respiramos, estamos vivendo e sujeitos a sentir as quebras de coração. Por que então não começamos a juntar os cacos e invés de esconder os machucados, não os pintamos de dourado e mostramos a nossa história?

    Pedro Graca

    Written by

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade