Insônia – Parte I.

Foi em um daqueles dias frios de Novembro – aqueles em que você tem medo de tirar o pau pra fora e mijar, porque acha que ele vai acabar congelando- que um rapaz, filho de um plantador de milho, chegou a beirar o mundo no qual os espantalhos são bem mais do que assustadores. Um mundo em que palhaços as vezes se escondem nos bueiros ou enchem seus balões com arsênico -ao invés de gás hélio- para atrair criancinhas e depois devorá-las.

-Bem, ao menos agora eu posso (literalmente) dar a Anna um picolé para chupar -, pensou Dan, enquanto dava descarga. Ele riu, mas lá no fundo, não tinha achado graça. Era uma daquelas risadas amargas que você solta de vez em quando para não chorar. Ele buscara ajuda nas últimas semanas; fora em médicos, psicólogos, psiquiatras e até num maldito Pai de Santo. No entanto, não havia droga, tratamento ou entidade espiritual que resolvesse seu problema. Já eram cinco dias seguidos em que ele não pregava os olhos. Nem por um segundo sequer.

(Com insônia, é tudo a cópia de uma cópia)

Ele se olhava no espelho, e via um cadáver ambulante encarando-o do outro lado do vidro. Enormes sombras roxas debaixo dos olhos cansados. Lábios trêmulos e descascados. Estava magro, sua alimentação andava péssima. Seu estômago implorava por qualquer coisa saudável, mas ele não conseguia se manter longe dos fast-foods 24/7 e forrar o bucho com pão e bosta. Suas palavras saiam roucas, exaustas. A insônia estava matando-o aos poucos. E ele queria acabar com ela, antes que ela acabasse com ele.

Tudo o que ele mais desejava, como jamais quis alguma coisa antes na vida, era dormir. Apenas fechar os olhos e descansar. E ele estava pouco se fodendo se pra isso, precisasse arrebentar o crânio contra a parede e ficar em coma por 3 anos. Ou quem sabe, o resto da vida. Tudo o que mais ansiava, era poder Flutuar para longe, até conseguir chegar na abençoada terra dos sonhos. Oh, ele iria acabar com aquela merda hoje mesmo. A qualquer custo.

Dan abriu a torneira e jogou um pouco de água gelada no rosto. Deixando suas feições ainda mais sinistras. Abriu a portinha que estava atrás do espelho. Viu os nomes: Valium, Rivotril, Lorazepam, Xanax, Flurazepam e Zargus, encarando-o como velhos amigos.

Uma vez, eles funcionavam.

Uma vez, eles guiavam-no por longas noites até os braços de Morfeu.

Hoje, ficam inertes e indiferentes, como se houvessem esquecidos as intensas aventuras que tiveram nos elísios.

De fato, eles se tornaram velhos amigos.

Péssimos amigos.

Dan girou as tampinhas e tomou um de cada. “Talvez assim funcione” – murmurou pra si mesmo. Apagou a luz e, saiu do pequeno banheiro de azulejos brancos do seu apartamento na Stark, esquina com a Bronxs. Sentou no sofá verde-musgo e ligou a televisão. Brad Pitt estava prestes a perder a cabeça e matar o vilão em “Seven”. Era um dos seus filmes preferidos, mas, naquele momento, as imagens e os gritos e Brad perdendo a cabeça eram inertes pra ele. Tudo o que existia era apenas o relógio de ponteiro acima da geladeira.

Tic-tac, tic-tac, tic- tac (eu vou te devorar) tic-tac, tic-tac

O tempo parecia ser infinito, da pior forma possível.

Ele ficou olhando o ponteiro rodar por mais ou menos um minuto. Sua atenção foi desviada quando alguém bateu na porta, tirando-o do mundo afastado que eram os seus pensamentos.

(Mas eu não estou esperando ninguém, pensou ele. E já é quase meia-noite, deve ser o porteiro ou algum vizinho querendo algo)

-Maldito porteiro, malditos vizinhos -, reclamou.

Levantou-se do sofá, e calçou os chinelos. Houve mais uma batida na porta. – Calma ai, amigão. Já estou indo, apressadinho.

Quando Dan chegou até a porta, tentou olhar pelo olho-mágico, porém, não conseguia ver nada além de escuridão do outro lado. Na hora, achou quer seria algum engraçadinho querendo pregar-lhe uma peça ou talvez dando um susto fazendo as luzes se acenderem.

Porra, hoje eu não estou com saco pra isso.

-Engraçadinho filho-da-puta -, disse Dan – enquanto rodava a chave na fechadura destrancando-a (Por que a maçaneta está tão gelada?) e abriu a porta. As luzes se acenderam e, o olhar furioso e a raiva dos seus olhos se extinguiram, tomando um ar de surpresa e choque. Não havia ninguém ali. Ele saiu pelo corredor e checou o andar do elevador: 15º. Era impossível sair do 3º andar e chegar uma dúzia de andares acima em tão pouco tempo. O único lugar possível seria pela escada de emergência, (te peguei agora). Dan chutou a porta, e então, respirou fundo.

Sentindo-se a pessoa mais idiota do mundo. Lá estava um homem de 27 anos, com a barba por fazer, de pijama no meio das escadas, fervendo em delírios devido a uma maldita doença que o estava deixando lunático.

(Será que foram os remédios? Será que não tinha ninguém por aqui e, foi tudo dentro da minha cabeça?)

-Deus, estou fincando velho demais pra isso. Eu preciso de uma cerveja.

Deu uma última bufada, e foi em direção ao apartamento. Se Dan tivesse o cuidado de fechar a porta – ao invés de deixa-la bater com toda força – teria visto que, as luzes de dentro da escadaria já estavam apagadas mais cedo que o normal e, conforme a claridade da luz que vinha do corredor cessava lá dentro, um par de olhos amarelos foi surgindo em meio a escuridão.

Assim que pôs os pés de volta em casa, trancou a porta e foi buscar uma cerveja. O buraco do olho-mágico brilhava e reluzia, em cores alucinadas atrás dele.

Não tinha nada demais na geladeira; alguns ovos na prateleira da porta, uma Coca-Cola na portinha de baixo, leite e alguns congelados. Dan pegou a última cerveja, abriu-a com as mãos, pisou na cesta de lixo que ganhara de sua mãe mês passado, e a tampa se abriu. Jogou a tampinha da cerveja, e a observou cair lá dentro.

É assim que eu estou também, caindo e caindo..- pensou ele, distante.

Foi até o sofá, tirou os chinelos, esticou os pés em cima da mesinha e soltou um – Porra! – quando olhou para a TV. O filme já estava nos créditos. – Caralho, hoje não é mesmo meu dia.

A Stella desceu lisa pela sua garganta, gelada e refrescante. Acendeu o cigarro e deu uma tragada. Notou que havia um furo em sua meia branca, em cima do dedão do pé direito. Colocou o dedo dentro do buraco, e começou a mexer para cima e para baixo, rasgando os arredores do furo até o dedo ter ultrapassado todo o buraco. Começou a rir, lembrando o quanto adorava fazer isso quando criança.

(-Daniel Alfred Howells, quantas vezes tenho que dizer para não fazer mais isso? Não é você quem tem que ficar costurando essa droga depois que você arrebenta – dizia Lydia, sua mãe, com os cabelos loiros caindo pelos olhos furiosos enquanto tirava as meias dos pés de seu filho.

-Mas, mãe, é divertido! É como se ele tivesse sido expulso de casa pelos outros dedinhos! HAHAH MAMÃE! ISSO É DIVERTIDO HAHAH)

Dan-mais-novo dava gargalhadas. Quase chorava de alegria.

E o Dan-mais-velho também ria, enquanto se lembrava. No entanto, era um riso que o magoava por dentro.

Ele não gostava de falar sobre isso.

Não gostava de falar sobre nada, talvez. Por isso começou com os cigarros.

Para fumar todas as suas lágrimas.

O tic-tac do relógio começou de novo, dessa vez, mais alto. Porém, agora, ele não estava prestando atenção nos ponteiros do relógio. E sim, no que havia de baixo dele – na geladeira. (..)

-p.g

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