Chape, nós sabemos

Não é desejável nem possível comparar tragédias. A dor é uma só e ela rasga o nosso peito como uma adaga, deixando-o em frangalhos. Também nos ensina muito, mas é um conhecimento que adquirimos da pior forma. O pesadelo parece nunca terminar. Talvez um dia a pele pare de latejar, é verdade, mas a cicatriz vai continuar ali. É para sempre. O que podemos fazer com isso é o “x” da questão. O que fazer após uma tragédia?

Nós, Xavantes, há sete anos fizemos essa mesma pergunta. Em um barranco maldito, após um amistoso preparatório para o Gauchão, nosso ônibus tombou e perdemos três pessoas — entre elas, o ídolo uruguaio Claudio Milar, que marcou 111 gols com a nossa camisa. Muitas outras tiveram ferimentos e nunca mais puderam exercer a profissão. Depois de velar os guerreiros no gramado, o clube precisou remontar às pressas o elenco para disputar o estadual. Foram oito jogos em quinze dias — não, não é exagero. Com o brio de sempre, mas sem a força necessária, sucumbimos. Vencemos apenas uma partida durante todo o certame: a última, contra o Novo Hamburgo, no estádio Bento Freitas.

Tivemos uma reação espontânea, quase um espasmo, uma teimosia traduzida em força — aliás, se há uma palavra que pode representar um clube do interior, é justamente teimosia. No segundo semestre, fizemos uma ótima Série C do Campeonato Brasileiro. Disputamos a vaga à Série B com o América-MG. Com direito a pênalti desperdiçado em casa, perdemos por 3 a 1 no agregado (0 a 0 em Pelotas, 3 a 1 em BH). A luta foi ferrenha porque o desejo de honrar a memória de nossos heróis transformou-se em obsessão. O eterno Claudio Milar, inclusive, uma vez disse que o clube deveria estar numa Série B para que “o Brasil inteiro conheça o que é o Brasil de Pelotas, o que é uma torcida”.

Depois de muito sofrimento na segunda divisão estadual, voltamos a crescer em 2012 com a chegada do técnico Rogério Zimmermann. O primeiro acesso, que nos recolocou na elite do futebol gaúcho, veio apenas em 2013, mas o trabalho começou no ano anterior. Desde então, celebramos um acesso por ano — uma trajetória semelhante à percorrida pela própria Chapecoense. Este ano, sete anos após a queda que derrubou muito mais do que o clube, o Grêmio Esportivo Brasil encerrou a Série B do campeonato brasileiro em 11º lugar, a três vitórias de outro acesso. O sonho do castelhano e de todos os nossos heróis realizou-se. Agora descansam em paz.

Divulgação/G.E. Brasil

15 de janeiro: a data superada, mas nunca esquecida

O que nós, índios Xavantes, podemos dizer aos índios Condás é o seguinte: reergam-se! Nós fazemos parte de tribos diferentes, mas as lutas são muito semelhantes. Nós peleamos com o que temos e o que não temos, e assim representamos o interior. Vocês, Chape, inclusive servem de inspiração pela gestão enquanto clube, pelos resultados dentro de campo, pelas epopeias nas competições nacionais e internacionais. Portanto, reergam-se, por mais que isso pareça impossível agora. Sabemos bem o que é ir ao estádio sem vê-lo mais como um palco para o ludopédio. Porém, com o primeiro apito no centro do gramado, a luta recomeça pela instituição, pelo futebol do interior, por vocês e por aqueles que foram embora em busca de um sonho.

Nós temos as nossas cicatrizes. Vocês, também. Elas nunca vão ir embora. Porém, elas também vão servir de lembrete incessante, especialmente nos momentos mais complicados, de que a força está no sangue de quem ama o futebol. É isso o que diz no hino da Chape, não é mesmo? “Nas alegrias e nas horas mais difíceis, meu Furacão, tu és sempre um vencedor”. Em nosso hino há uma parte que diz “Brasil, Brasil, Brasil, as tuas cores são o nosso sangue e a nossa raça”. A força para reerguer-se está em nossos corações pujantes.

Getty Images

A força mora em nosso peito

Chape, nós sabemos o que está sentindo e por isso estamos aqui oferecendo estas palavras. Tenho certeza de que em breve vamos enfrentá-los na Série A, sempre com o coração na ponta da chuteira e os sonhos nas nuvens. O que torna tudo mais perto, faz parecer que Tóquio é logo ali.

#ForçaChape

Em memória de todos que perderam as suas vidas em busca de um sonho. Em especial aos guerreiros Claudio Milar, Régis Gouveia, Giovani Guimarães e aos pelotenses Josimar, volante da Chape, e ao nosso colega jornalista Giovane Klein Victória.


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