Os perigos de usar a justificativa de “violência gera violência” no atentado Bolsonaro

Pedro Henrique
Sep 8, 2018 · 4 min read

Não é novidade para ninguém que a definição de direita e esquerda surge na revolução francesa em 1789, na Assembleia dos Estados Gerais, que seria o local que os politicos se sentavam. Basicamente se distinguem pela esquerda buscar a quebra da desigualdade social e a direita por aceitar essa desigualdade social como natural. Nenhuma dessas posições é moralmente mais elevada que a outra, pois se para a esquerda a direita almeja a manutenção do status quo já existente, negligenciando aqueles que são socioeconomicamente menos privilegiados. A direita pode justificar-se que a desigualdade é não somente natural como inevitável, mas também que tudo que fosse contra a isso seria ineficaz e se concretizaria como “nadar contra a maré”.

Acontece que dentro desse espaço dos espectros políticos e econômicos, a denominação de “esquerda” e “direita” torna-se muito vagas, porque apesar de terem o mesmo ponto de partida chegam a destinos muito distintos. No Brasil isso se resumiu em “motadelas” e “coxinhas” em um debate sem razão de ser e confuso, que a esquerda seria pró direitos humanos, a protetora dos bandidos e a direita a opressora dos criminosos, ferrenhamente contra os direitos humanos. Acontece que essencialmente os direitos humanos não possuem um lado político, trata-se somente construção de uma moral racional e conjunta, que se propõe o direito a todo ser vivo da espécie homo sapiens de continuar a viver, ter igual tratamento independentemente das suas condições, liberdade de ter suas próprias crenças e por aí vai.

Bolsonaro posicionou-se ao longo de sua carreira política como opositor dos direitos humanos, criticando diversas vezes a anistia internacional, se posicionou várias vezes contra a avanços de liberdade individuais, com exceção é claro o armamento populacional que é uma liberdade individual de consequências muito duvidáveis, e ganhou força nesse cenário caótico de segurança pública no país.

Acontece que no dia 06 de setembro de 2018, Bolsonaro foi esfaqueado em Juiz de Fora e isso gerou uma série de comentários que incitaram a sua morte, ou não incitaram mas culpabilizaram Bolsonaro pelo corrido. Acontece que a comoção gerada pela violência no ambiente político se mostra historicamente a favor da vítima, independentemente do seu histórico. Podemos relembrar a tentativa de assassinato do jornalista Carlos Larcerda, que deteriorou o governo de Vargas a ponto de leva-lo a cometer suicídio. Para os que incitam a sua morte, e fazem isso por serem contrários a suas medidas socioeconômicas, e não necessariamente ao seu posicionamento sobre direitos humanos, até porque os mesmos infringem ao incitar sua morte, não é uma atitude lá muito inteligente em um contexto de martirização da sua figura, e no caso da sua morte de fato, uma possível personificação dos seus ideais em seus filhos.

Mas para os que não apoiam a sua morte, são favoráveis aos direitos humanos, mas justificam o ocorrido com “violência gera violência”, acabam entrando no dilema que o mesmo protege, que a violência deve ser combatida com mais violência, mesmo não sendo essa intenção. Pois o que se vê no Brasil é um caso de extrema violência dos criminosos, é natural também que a resposta seja ainda mais violenta por parte dos policiais. A frase “violência gera violência”, por si própria não é valida, até porque não necessariamente violência gera violência, a violência pode se manifestar em qualquer situação, aos pacíficos e violentos, e pode ser respondida de inúmeras formas também. Podemos pegar um caso parecido para a prefeitura de Colônia na Alemanha, que a candidata Henriette Reker, estaria diametralmente oposta a Bolsonaro no tema direitos humanos, com propostas de defesa ao imigrante, foi esfaqueada por um extremista opositor, curiosamente a defesa dos imigrantes era impopular nessa cidade mas o atentado a fez ganhar a simpatia de muitos e ganhar a eleição.

Relembrando ocorridos passados que tiveram a mesma justificativa como o caso do jornal Charli Hebdo, ao qual publicava vários cartuns de “humor negro”, que foi interpretado como discursos de ódio por extremistas islâmicos e respondido com a morte dos integrantes do jornal, culpabilizar a vítima pode não ser o melhor caminho a se seguir, até porque se há uma real culpa na vitima, sua resposta é desproporcional. Para compreendermos melhor o tema podemos nos basear no paradoxo da tolerância de karl Popper, que muito vem sendo usado como defesa, o paradoxo parte do principio que para termos uma sociedade tolerante precisamos não tolerar os intolerantes, pois ao tolerar a intolerância acaba acontecendo um suicídio da tolerância, sendo necessária a intolerância para combater a intolerância. É um pensamento coerente mas não se sustenta nesse contexto de ódio, porque se é preciso haver uma intolerância em relação aos discurso de ódio dele, deve ser feita por meio de sanções jurídicas ao mesmo, não por violência, até porque o seu perigo mora no discurso.

Responsabiliza-lo pela facada que ele próprio recebeu pode ajuda-lo a ganhar simpatia dos indecisos. Os brasileiros são órfãos do PT e PSDB, que polarizavam as eleições passadas mas quebraram-se nesta eleição, devido a impopularidade gerada pela lava jato. A violência, pelo menos verbal, já foi marca das eleições passadas no segundo turno, entre Dilma e Aécio, que fugiram das propostas e travaram uma batalha pessoal. O atentado foi um ataque a nossa democracia, elogio a postura dos seus candidatos concorrentes, que mostraram apoio e solidariedade, exceto Álvaro Dias que deixou nas suas entrelinhas o “violência gera violência”.

O povo brasileiro é cordial, já dizia Sergio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, cordial vem do latim “cordis” que significa coração. Às vezes valorizamos mais o emocional que o racional, sendo um risco o possível no caso da martirização de Bolsonaro. Logo para evitar a eleição de Bolsonaro, devemos usar o seu próprio discurso de ódio contra ele, que se por um lado ele menospreza a empatia humana, agora precisa dela e pode usar isso contra sua oposição se a mesma entrar agora em contradição, haverá perigo. Não pode haver brechas e se haver a tendência histórica poderá se concretizar.