Ursula

Me falaram no trabalho que há algum tempo que não ouvem a minha voz. Depois da observação posta à mesa percebi que, na verdade, nem eu tenho me ouvido ultimamente. Só ouço os ruídos na cabeça, alguns resmungos no coração e as poucas respostas monossilábicas que saem pela boca. “Aham”, “Não”, “Crédito”.

E o pior é que lembro bem quando foi que perdi a fala. Foi há uma semana, quando te abracei pouco antes de entregar o presente de aniversário. Sentir teu perfume de perto foi a causa mortis.

O One Million entrou pelas narinas, deu uma trança na laringe e faringe e esquentou aquele sentimento que eu estava tentando esfriar com engradados de cerveja gelada. Nessa hora as cordas vocais ficaram frouxas antes de enrijecer, mas só fui reparar toda essa manobra quando abri a boca.

Falei algo rouco e você riu: “Que voz é essa?”. E enquanto você via graça, eu via desespero. Por que meu corpo não me obedecia? Eu tinha ensaiado o roteiro de parabenização na hora do almoço e agora nem lembro o que foi que te falei, se foram votos de felicidades ou a receita de um hambúrguer que vi mais cedo naquele dia.

A verdade é que teu perfume é bruxa do mar que rouba voz em troca de nada. Constatei que ainda tenho um par de pernas tatuadas, então não sei o que você levou além de uma voz rouca. Talvez tenha sido as certezas que eu tinha antes de você aparecer. Portanto, agora sem fala, só me resta escrever esse oceano de palavras não ditas a você.