Vendendo o peixe

A pluralidade dos vendedores ambulantes na ocupação da praça pública

“Cês vão na prainha?”, perguntou a simpática atendente de um restaurante fast-food, localizado no final da Rua Caetés, esquina com a Avenida Amazonas, região do baixo centro de Belo Horizonte. “Nesses dias geralmente a gente tem mais movimento, o pessoal sai de lá e passa aqui”, finalizou Kátia, identificada pelo crachá no uniforme, antes de me passar um sanduíche. Poucos metros dali, aproveitando a tarde ensolarada na Praça Rui Barbosa, uma multidão — cinco mil pessoas, segundo dados da organização — se reunia ao redor da estátua de bronze desnuda, na primeira Praia da Estação do ano.

Entre trajes de banho, guarda-sóis e corpos suados, batuques e equipamentos de som, dezenas de vendedores ambulantes disputam espaço entre os 12 mil metros quadrados de concreto da Praça. Caixas de isopor e carrinhos improvisados abastecem o estoque etílico dos banhistas, basicamente cervejas latão e catuaba, provendo alívio e refrescância sob o sol forte do verão da capital de Minas.

“É vantajoso, e o pessoal deve ocupar a cidade para esses fins”, diz Gênesis, que trabalha como ambulante na Praia da Estação há um ano e meio. Para participar da Praia e outros eventos pela cidade, o vendedor faz o trajeto Centro — Nova Contagem durante quatro dias da semana, árduos 32 km. Ele começou a vender bebidas para complementar a renda mensal, e logo passou a se dedicar à atividade integralmente. “A gente que é ambulante está sempre em todas, então a Praia acaba proporcionando diversão e lucro também. ”

O Cravinho de Belô em meio aos foliões

Com um look composto de uma camisa de riscas aberta, cordões coloridos, um boneco de pelúcia enrolado no pescoço e um óculos de sol modelo aviador, Antônio, 29, carrega um carrinho cheio de gelo e cervejas long neck, todas a R$ 5. “Eu moro aqui perto, aí aproveito”, conta o ambulante, ao apontar para um conjunto de edifícios habitacionais antigos, comuns na área central de Belo Horizonte. Sobre a famosa ocupação do espaço público, tema mais problematizado e discutido entre a classe intelectual belo-horizontina em 2016, ele destaca o caráter democrático e descentralizado do movimento. “É uma forma em que a população gera o evento e usufrui dele. O governo não faz isso, entendeu?”

Assim como os ambulantes litorâneos, os vendedores da Praia abusam do marketing espontâneo e criativo para alavancar as vendas. Um carrinho roxo, com um estandarte onde se lê “Catuçaí do Nandão — O drink do amor!”, é um dos mais disputados pelos banhistas do asfalto ao redor. Cobrando 5 reais por 300ml do preparado de açaí e catuaba, o ex-futuro engenheiro mecânico chega a vender cerca de 150 litros nos eventos mais movimentados, onde passou a ser figura carimbada. Tamanha a fama e sucesso que Nandão foi entrevistado por um dos jornais mais conhecidos da região, onde revelou, orgulhoso, que prepara a bebida em casa e a mantém numa textura única de frozen, mesmo durante horas de festa.

Com a popularização da Praia e outros eventos no espaço público de Belo Horizonte, pessoas atrás de uma grana extra se juntam aos os ambulantes old school na disputa dos carrinhos na carnavália mineira. De cabelos ao vento e maiô prateado refletindo o sol, Isabela I., 22, conta que sempre participou de eventos na rua e traz um carrinho colorido carregado de chup-chups de abacaxi, hortelã e cachaça, na primeira experiência de venda. “A gente imaginou que seria lucrativo”, explica a estudante de arquitetura, que está juntando dinheiro para uma viagem com as amigas. “Tá calor né? A galera gosta de beber!”

O cenário plural de ambulantes na Praia da Estação foi ameaçado, mais uma vez, por outro decreto do ex-prefeito, expedido no final de 2016. Márcio Lacerda, cuja administração nunca escondeu as rusgas com a crescente retomada da cidade pela população, havia proibido o uso de caixas de isopor, coolers e churrasqueiras nos espaços públicos e minava, assim, grande parte da oferta dos vendedores. Segundo urbanistas, universitários e críticos do prefeito, o decreto partiu de uma perspectiva higienista na cidade, ao boicotar o tradicional podrão de carrinho e a cerveja latão geral em favor dos food trucks gourmetizados, que começaram a se popularizar na capital em 2014. A medida, amplamente criticada por toda a cidade, foi rapidamente revogada.

Já no fim da folia, às 21 horas, Maria da Conceição, 67 anos, observava os últimos veranistas deixando a Praia. Sãozinha, como é chamada pelos amigos e clientes fiéis, é ambulante há oito anos, quando precisou ganhar uma renda extra para pagar os estudos da neta. Munida de um carrinho equipado com chapa, arrumava as coisas para ir vender em outra festa, realizada no bairro Santa Tereza. “A gente não pode parar né”, diz ela enquanto o cunhado guardava a chapa e os instrumentos de cozinha no carro. “A festa acaba, mas o trabalho continua.”

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