Águas de São Paulo de Piratininga.

Viver em uma mega metrópole tem suas vantagens; cinemas em todos os cantos, bares abertos 24 horas, museus, música, gente de todo tipo, enfim, te faz sentir vivo, parte de uma grande célula pulsante, quase que com vida própria.

Mas no meio de todo este fluxo é muito fácil deixar de lembrar que tudo isso um dia já foi uma grande selva, habitada pelos verdadeiros americanos, os povos indígenas ameríndios, animais selvagens, e água, muita água.
São Paulo fica em uma área extremamente privilegiada no que se refere a água potável. Piratininga, como era carinhosamente chamada pelos seus nativos ,significa “rio do peixe seco”, devido as cheias de verão que alagavam as vázeas e ao chegar do inverno secavam e deixavam um rastro de peixes encalhados no lamaçal, é o lar de rios muito importantes como o Tietê, sim, aquele Tietê, fedido, que muitos veem somente ao retornar de um fim de semana de praia e logo fecham as janelas do carro ao passar por suas margens. Margens estas que foram violentadas, canalizadas, transformadas em despejo de esgoto das fábricas durante a revolução industrial, e ao passar dos tempos também do esgoto caseiro de milhões que vivem próximos a suas margens e talvez nem saibam que devem tudo o que tem a este rio.

Bem, não é nenhuma surpresa, ao passar pelas marginais, é difícil olhar para aquela água turva, escura, fétida e associar aquilo a um rio. Somos brasileiros, temos o amazonas como referência desde que nascemos, Brasil país tropical, lar de florestas e rios abundantes, de vida silvestre e de carros, muitos carros, que trafegam diariamente, soltando a fumaça do trabalho, do suor e da frenética vida paulistana. Paro para pensar muitas vezes na arquitetura desta cidade, no seu planejamento quase inexistente, de todas as fases que teve, desde os jesuítas até o “malufismo” e por fim a construção dos imponentes “robocops”, arranha-céus de vidro, lar das grandes multinacionais, engrenagens importantes na economia da maior cidade da América latina, que sofre diariamente com o trânsito e com a poluição.
Porra, como a maior cidade do país não tem metrô, como que o estado não tem uma ferrovia pública, como? Simples, negligenciamos nossos rios, os exploramos da pior forma possível, como despejo. Ao redor do planeta, as grandes cidades usam rios como forma de locomoção, hidrovias foram a base do transporte em cidades como Paris, Amsterdam e Nova Iorque.
Em São Paulo, o automóvel reinou, aterramos nossas várzeas, criamos lotes, canalizamos nossos principais afluentes e os transformamos em avenidas, açoreamos os maiores rios e criamos faixas de rolagem marginais. Quando chega o verão, a chuva, que não participou desse processo humano irracional de sabotagem, tem que escoar para onde ela sempre escoou, afinal de contas, a natureza nos vê como um câncer passageiro, o tempo dela passa mais devagar. O escoamento de um rio ,que antes demorava meio milênio, agora já dura míseros cinco anos, mas ele existe, e vai sempre existir, tudo o que você conhece vai se extinguir, mas as chuvas e enchentes das várzeas do Tietê, ali ficarão, para sempre, seguindo o caminho que suas águas esculpiram ao longo de milhões de anos de erosão, chuvas, secas, dinossauros, animais, índios, humanos e o que quer que suceda nossa passagem caótica por este plano.

Da próxima vez que passar pelo centro da cidade, na avenida nove de julho e na avenida 23 de maio, ambas sobre rios enormes canalizados e especialmente pela região do mercadão municipal que um dia foi o fim da linha de uma grande rota de comércio fluvial, um enorme porto, sabe a 25 de março? Pois é, aquela rua íngreme, que a corta não leva o nome de ladeira porto geral a toa, porto que hoje vê suas águas correndo por baixo do asfalto, invisíveis, poluídas, porém sempre em frente, rumo ao oceano.

São Paulo cresceu, mas para o lado errado, viu projetos urbanistas de arquitetos como Oscar Niemeyer e Ruy Ohtake, que idealizavam revitalizar áreas de mananciais e dar utilidade a seus rios, fazer com que a população trafegasse sobre eles de um ponto a outro da cidade, trazendo a vida de volta, talvez mudando radicalmente a forma com que os enxergamos hoje. Já pensou ir do parque villa lobos até o Corinthians via rio, sem engarrafamentos, sem o cheiro terrível e com um agradável passeio sobre as águas calmas daquilo que um dia foi o alicerce de uma cidade ingrata, que pagou com violência a quem sempre lhe banhou e ajudou a crescer.

Por fim, vale a reflexão, traçar um paralelo entre toda esta história e o que vivemos hoje em dia, usar transportes alternativos, menos poluentes, reutilizar nossa água, despejar menos esgoto nos rios, cobrar de nossos gestores a manutenção de suas margens e a limpeza de suas águas, afinal, água é vida, e sem o Tietê sp não seria sp.

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