Sobre Resistência e Superpoderes

Quando as primeiras ideias do meu livro, O Cidadão Incomum, surgiram, eu estava dentro de uma sala de aula, com vinte e poucos anos, cursando o supletivo noturno. Naquela época eu não tinha a menor ideia do que ia fazer da vida, mas sabia que teria qualquer coisa a ver com super-heróis. Eu não tinha (e não tenho) exatamente o perfil de um escritor. Não lia muito, não me interessava por um milhão de coisas. E por nascer em uma família de pessoas muito inteligentes e cultas, achava que nunca teria qualquer chance. Se pudesse voltar no tempo e contar para mim mesmo que um dia publicaria aquelas ideias — ainda mais com a Editora Conrad, cujas grafic novels eu já colecionava — jamais acreditaria. Nem em um milhão de anos. E a verdade é que só agora me dou conta da façanha.

O livro, para você saber, gira em torno de Caliel, um jovem ator paulistano que ganha superpoderes da noite para o dia e decide viver o personagem de sua vida, um super-herói. A ideia central da trama era imaginar como a (nossa) realidade se comportaria se pessoas aleatórias ganhassem habilidades extraordinárias. Como nosso governo lidaria? Como um Superman sobrevoando a Avenida Paulista arranharia nossos paradigmas religiosos, científicos e até mesmo filosóficos? Tente imaginar as possibilidades.

Para o leitor, o livro é uma história divertida, de leitura rápida e agradável que não economiza nas reflexões. Para mim, O Cidadão Incomum é uma obra sobre resistência. Tanto de Caliel quanto minha. Porque publicar no Brasil (ou em qualquer outro lugar) tem muito mais a ver com insistência do que sorte. É você passar anos trabalhando a mesma-fucking-ideia na mente para só depois passar para o papel. É abrir mão de tudo, às vezes do essencial, para se dedicar a uma cena que não está pronta, a um clímax que não é o ideal, sem ter a menor segurança sobre o futuro. E não se engane, viu? As editoras sabem separar empolgação de um projeto bem feito, focado e criado para funcionar. A cada não que eu ouvia, avançava uma casinha na direção certa. As conversas com os editores foram sim apaixonantes, mas profundamente centradas no negócio. Ser escritor é ser sócio de um negócio. E o negócio é o seu livro.

Fala-se muito por aí que o mercado é assim, que é assado. Que as coisas só funcionam desse jeito e não do outro. Que você precisa estar na “panelinha” para fazer acontecer. Enfim, há sempre alguém pronto para dizer como o jogo funciona e o que você deve fazer. Bullshit. No fim das contas, O Cidadão Incomum existe porque eu estava (e estou) realmente comprometido com a sua realização. Acho sinceramente que tudo se resume na escolha de deixar ou não uma ideia morrer.

Se você me perguntar se me considero um escritor, vou dizer sim e não. Sou escritor porque vivo do que escrevo. Não sou escritor porque existe Jack London, Machado de Assis, William Gibson, Stephen King, Neil Gaiman, Arthur Conan Doyle, Saramago… Ou seja, sei qual é o meu devido lugar.

Concluindo. O Cidadão Incomum foi milimetricamente pensado para que você tenha uma experiência literária empolgante, com personagens realmente profundos, dramáticos e divertidos. E estamos trabalhando duro para que esse universo se expanda nos quadrinhos, animações e sabe-se lá onde mais. Mas o livro também existe para desmistificar a falácia do “é tudo muito difícil”, do “é melhor transformar sua paixão em hobby” e outras tantas que matam milhares de boas ideias todos os dias.

Pedro Ivo.

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