Você não deveria estar lendo esse texto

Pedro José
Nov 4 · 5 min read

Longe de mim querer ditar o que você deve ler ou não. E nem quero com isso dizer que o texto seja ruim (costumo ter uma autoestima ligeiramente acima do esperado). Só quero dizer que se você, na sua liberdade, decidir acreditar no que eu digo escrevendo isso tudo, não deveria ter lido.

(Prometo que paro com os jogos de palavras por aqui). O problema desse texto é que você não entende o que está lendo nas redes sociais. Calma, não estou te chamando de burro, não é uma falta de compreensão técnica, mas simplesmente te pego desprevenido. Não é minha intenção assustar ninguém, não é isso. É que todo o processo de comunicação interpessoal passa pela identificação da intenção do interlocutor em dizer aquilo (eu acho, nunca estudei nada sobre). Você adiciona as pessoas por um motivo, clica no que elas postam, mas aquilo foi postado com outra intenção. Existe um problema na forma que a maioria das pessoas usam as redes sociais, e é disso que quero reclamar.

O pulo do gato pra eu explicar o que estou dizendo é que esses sites me parecem ter um caráter dúbio: para aqueles que te seguem, pensam estar acompanhando através das tuas postagens a tua vida. Mas sua intenção (nem a minha), não é transformar o Facebook ou o Instagram num diário público, ou num álbum de memórias, muito menos num registro do meu estado de espírito, e pouquíssimo menos ainda passa pela nossa cabeça (sua e minha), que interagindo com o que posto nas redes sociais estamos tendo verdadeiro convívio social. Convenhamos, se eu só acompanho a sua vida através do que você posta, eu não te conheço.

Aqueles que te seguem pensam que o seu feed é a digitalização da sua subjetividade. Mas pare e pense sobre o que você para pra pensar antes de postar alguma coisa. Quando utilizamos esses sites nós nos vemos como criadores de conteúdo. Ao postar alguma coisa, em micro-segundos vestimos a pomposa capa de sommeliers de conteúdos digitais que acreditamos ser (acho que micro-segundos não existem, e eu procurei o plural de sommelier no Google). “Ah, mas nas redes sociais as pessoas só postam coisas pra agradar os outros”. Claro. Eu não quero saber qual número você pegou na senha do banco e tenho certeza que não interessa a ninguém saber que fiz 25 exercícios de Cerimonial e Protocolo numa noite de sábado (se torna mais divertido se você imitar o sotaque bielorrusso do professor). A minha pia do banheiro quebrada não é nada estética, o posto de gasolina que você abasteceu hoje também não. Convenhamos, você só posta o que posta porque acha que alguém vai achar bonito. E que bom né.

“Ah, quando você vai falar que as pessoas só postam a parte boa da vida delas? Que isso as torna superficiais”. Agora. E que bom também. Eu tenho dois mil amigos no Facebook, uns 400 seguidores no Instagram, não me sinto confortável em compartilhar pra todos que passei essa madrugada frustrado por não ter respostas dos meus currículos. Você tem sua família, seus amigos próximos, e deveria ter uma terapeuta pra tratar de coisas profundas na sua vida. (Mais pra frente desenvolvo melhor isso daqui).

Mais do que isso. (Eu entendi seu ponto. Calma). Vamos dar um salto: você posta o que posta porque acha que alguém vai achar bonito você achar bonito o que você acha bonito. Perdão. Jogo de palavras de novo. Explico: com essa desgraça que convulsiona o século XXI (me refiro ás redes sociais, não queria repetir esse termo por fins estéticos), absolutamente todas as pessoas, mais do que serem, se sentem responsável por serem criadores de conteúdos.

Olha só, a primeira coisa que aparece no seu Facebook é uma caixa gigantesca perguntando o que você está pensando. Eu sei o que eu estou pensando, mas por que eu postaria isso pra duas mil pessoas? (A resposta é óbvia, não criem expectativas) Simplesmente porque penso que aquilo de alguma forma vai (1)influenciar as outras pessoas, e (2) o que as outras pessoas pensam de mim. Do primeiro eu já falei. Pode ser bom e pode ser ruim. O segundo ainda não, e o problema é que muita gente acha ruim, e eu que elas estão certas, mas erradas na forma de achar. Também pode ser bom e também pode ser ruim.

Como esperamos que as outras pessoas reajam, como já descrito, às nossas redes sociais como extensões da nossa subjetividade, compartilhamos coisas com a intenção de construir a impressão do que o outro pensa que eu sou. O problema é que ninguém aparece sem antes ou depois, ou fala frases sem contexto, ou seleciona cada quadro do que vai ser visto na vida real. A linguagem corporal, as expressões faciais, os espaços e os momentos, os silêncios e imprevisibilidades constroem a tridimensionalidade de alguém. E isso não temos nem nunca vamos ter por aqui, e justamente por não ter, cabe à subjetividade de cada interlocutor preencher as lacunas vazias com as suas suposições. Se os efeitos gerados pelas postagens vai ser ruim ou bom depende das intenções de quem está lendo.

Como você pensa que eu sou através das minhas atividades na internet diz mais sobre as suas expectativas sobre mim do que sobre quem realmente sou. Se só conversamos por mensagem, desculpa, eu não te conheço. Se não nos vemos a meses, e só interagimos pelas redes sociais, não sei exatamente quem você é. No final das contas o Facebook ou Instagram não são tão diferentes de uma grande sala de Habbo, onde todos estão interpretando personagens em reproduções incompletas da realidade, porque é só isso que dá pra fazer mesmo. (Terminei assim porque já tô com sono, gostaram?). Quer me conhecer? Me paga um café (até ofereceria, mas tô sem dinheiro). Caso contrário, o que você tem aqui é um criador de conteúdo, não uma pessoa.

Esse texto também diz pouco sobre mim. Diz mais sobre como acho que as pessoas deveriam reagir às interações na internet. E nem é tão bom assim, você poderia ter gasto esses quatro minutos em coisa melhor. Quem gostou gostou, que não gostou paciência… eu avisei:

(Não vou revisar também por sinal, se contentem com isso aí)

Pedro José
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