Elvis morreu sim

Existe um amigo meu que tem um fetiche diferente. É, amigo, eu juro, não é coisa minha travestida de história dos outros, eu juro, não é. Existe um amigo meu que tem um costume diferente, uma coisa que eu nunca vi na vida até ver no domingo passado. Eu juro, foi ele, não eu. Apesar de que, depois de ver, até me deu uma vontadezinha.

Esse meu amigo, ele, não eu, tem esse costume, esse fetiche louco que é agredir sósias de Elvis na rua. No domingo foi que eu vi pela primeira vez, só tinha ouvido falar, até ver. Esse meu amigo, ele, com um tijolo baiano na mão, oito furos, não o tijolo, a testa do Elvis, o sósia, o filho da puta do sósia.

“Morre, Elvis, morre!” — ele gritava e eu, que não sou louco, não tentava impedir porque nunca se sabe quando o Elvis vai ser você. Eu ria, ria porque era engraçado, nem vem, você riria também, imagine, um homem dando tijoladas ferozes na cabeça de um Elvis. “Cadê Love Me Tender agora?” e o Elvis nem respondia.

“Sósia é uma coisa, sósia é um caso sério”, esse meu amigo diz, porque nunca é de verdade. “Sósia é um caso, é um quase”. É uma homenagem no banheiro. “O palco do sósia é um eterno chuveiro!”, esse meu amigo diz e dá pra ver a testa dele suar quando ele diz. Sósia é um puta dum eterno Loro José.

No começo, eu não concordava, tenho amigos que são, inclusive, nada contra, mas depois de ver aquele Elvis, coitado, morrendo, até que eu mudei. E agora, de domingo pra cá, quando dizem que Elvis não morreu, eu só faço rir, como quando vi aquele Elvis morrendo naquela avenida do Jardim América que nem lembro qual é.

Só que ontem que era sábado uma coisa ainda mais curiosa aconteceu. Esse meu amigo e eu estávamos numa festa fantasia e ele, não eu — eu estava de Mickey Mouse, aquelas fantasias que parecem que fumam crack antes de a gente alugar, sabe qual é? — e ele, não eu, ele estava de Elvis.

“Que porra de fantasia é essa, cara?” — eu disse, eu mesmo, pro meu amigo, não eu, e ele disse: “Eu mudei, cara” e na outra estrofe, meio cantado: “Nunca se sabe quando o Elvis vai ser você” — ele disse. Aquilo foi me dando uma raiva, uma coisa diferente, que eu fui beber pra tomar coragem pra fazer o que eu tinha que fazer.

E eu não era mais eu, eu não respondia por mim. Eu era ele, meu amigo, não eu, quando acertei aquele sósia de Elvis com um tijolo baiano, oito furos, não o tijolo, a testa do Elvis, o meu amigo, o sósia, o filho da puta do sósia. E já era domingo quando ele parou de responder o que eu perguntava: “Cadê Suspicious Minds agora?” — eu perguntava com a testa suada, mas ele, meu amigo, não respondia.