Leonardo DiCaprio e a meritocracia

Quando Leonardo DiCaprio recebeu a estatueta, a sua emoção era muito grande. Leonardo falou sobre a importância de cuidar do planeta, e falou que aquele prêmio, aquela estatueta, era pequena em comparação a o que é o nosso planeta, o planeta em que vivemos. Leonardo DiCaprio mentiu. Não que sua preocupação com o planeta não existisse. Pelo contrário. Mas naquele momento, no momento em que Léo recebeu a sua estatueta, a estatueta que esperou por tantos e tantos anos, ouvindo tantas e tantas piadas e aturando tantos e tantos memes na internet, não havia nada que importasse mais do que a sua estatueta.

E quando ouviu sair da boca da mulher que apresentava o Oscar, “And the Oscar goes to… Leonardo DiCaprio!”, DiCaprio era só vontade de subir naquele palco e gritar, gritar como um urso furioso, “Chupa!!!”. E aquele seria seu grito de redenção, seria o grito de vingança de Leonardo. Mas isso não aconteceu. Não aconteceu pois DiCaprio havia aprendido que a vingança não valia a pena. Não aconteceu pois DiCaprio subiu ao palco e falou sobre o planeta. O planeta que tanto amava viver.

Mas caso houvesse mais algum minutos além do minuto protocolar, Léo diria mais. Leo diria que amava, acima de tudo, o seu planeta, porque aquele era um planeta justo. E Leonardo DiCaprio defenderia, com as unhas e os dentes de um urso, a meritocracia. Se ele estava ali é porque ele havia trabalhado muito para chegar ali. E quem ainda não havia chegado, quem ainda não havia sido agraciado com uma estatueta, é porque precisava trabalhar mais e mais. Esse seria o discurso de Léo.

Leonardo DiCaprio falaria sobre como a meritocracia era boa, e sobre como aquele país era um país livre. Livre para o pobre se tornar rico. Livre para o burro se tornar inteligente. E olharia nos olhos de cada um ali. Leonardo DiCaprio falaria sobre a liberdade e a meritocracia. E sobre Deus, também. E brilhariam os seus olhos como os olhos de um sonhador. Se tivesse mais tempo além do minuto protocolar, DiCaprio começaria seu discurso assim: “I have a dream…”

Se tivesse mais um tempo para discursar, Leonardo DiCaprio faria pausas. Faria pausas para que as pessoas pudessem pensar em tudo aquilo que ele falava. As pessoas precisavam das pausas para pensar porque não eram tão inteligentes quanto DiCaprio. Afinal, eram poucos ali que, como ele, haviam sido agraciados com o Oscar. Ele, Leonardo, havia enfim sido agraciado pois tinha trabalhado. Trabalhado duro. E sem pausas.

“Trabalhe duro e um dia você ganhará o oscar!” — terminaria DiCaprio, olhando nos olhos de uma criança cega que subiria no palco naquele momento. E DiCaprio seria ovacionado pelo público, aos prantos, enquanto levantava a criança cega, repetindo o gesto feito por Rafiki, em Rei Leão.

Mas Léo não disse, não disse nada daquilo e não fez nada daquilo. DiCaprio falou sobre o planeta. Falou sobre o planeta, pois falar sobre o planeta era uma forma de falar sobre tudo o que ele gostaria de falar. No fundo, Léo não queria se comprometer, e aquela edição do Oscar já era uma edição polêmica o suficiente. Leonardo DiCaprio falou sobre o planeta, usou seu um minuto de discurso para falar sobre o planeta, pois, acima de tudo, o planeta era um lugar justo. E Leonardo DiCaprio queria falar sobre justiça. E, então, Leonardo DiCaprio devolveu o microfone para Chris Rock, que já esperava com mais uma piada sobre o fato de ser o único negro a subir naquele palco.